Aiube Açaquetiani (; Baçorá, 68 A.H. (687/8) — 131 A.H. (), cujo nome completo era Abu Becre Aiube ibne Abi Tamima Caiçane Açaquetiani (), foi um tabi, tradicionalista, jurista e asceta muçulmano de Baçorá. Filho de um maula dos anazaítas, recebeu sua nisba em razão de sua atividade no comércio de sahtiyan (couro curtido). Estudou com algumas das principais autoridades religiosas de sua época, entre elas Alhaçane de Baçorá, Atá ibne Abi Rabá, Ibne Sirine, Catada ibne Diama e Mujaíde ibne Jabre, e tornou-se uma das mais reputadas autoridades baçoranas na transmissão de hádice e na jurisprudência.
Reconhecido por estudiosos posteriores como um transmissor de elevada confiabilidade, Aiube teve suas tradições incorporadas por todos os compiladores dos Seis Livros e contou entre seus discípulos Maleque ibne Anas, Mamar ibne Raxide, Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina, Xuba ibne Alhajaje e Ibne Xiabe Azuri. Associado às posições religiosas que posteriormente caracterizariam o sunismo, opôs-se ao que considerava inovações religiosas e tornou-se também conhecido por seu ascetismo e pela preocupação em evitar a ostentação de sua religiosidade. Manteve-se afastado das disputas políticas dos últimos anos do Califado Omíada e morreu de peste em Baçorá, em Ramadã de 131 A.H. (maio de 749).
Vida
Aiube nasceu em 68 A.H. (687–688), em Baçorá. Seu pai, Abu Tamima Caiçane, era um maula da tribo dos anazaítas e posteriormente se associou aos . Segundo uma tradição considerada fraca, teria sido, em vez disso, um maula dos tuaiaítas ou dos juainaítas. Aiube dedicava-se ao comércio de sahtiyan (couro curtido), atividade da qual derivou sua nisba Açaquetiani. Desde jovem dedicou-se aos estudos, frequentando assiduamente os círculos de ensino e tornando-se conhecido pelo respeito demonstrado aos seus mestres. Durante quatro anos assistiu às aulas do célebre tabi Alhaçane de Baçorá, que o elogiou como o "senhor dos jovens de Baçorá". Quando tinha cerca de vinte anos, Aiube viu Anas ibne Maleque, um dos companheiros de Maomé, mas é controverso se chegou a ouvir hádices diretamente dele. afirmou que Aiube transmitiu de Anas, enquanto Ibne Hibane rejeitou essa informação; Adaabi, por sua vez, declarou não conhecer qualquer tradição transmitida por Aiube sob a autoridade de Anas. Entre os estudiosos dos quais Aiube efetivamente ouviu e transmitiu hádices estavam Atá ibne Abi Rabá, Alhaçane de Baçorá, Hixame ibne Urua, Ibne Sirine, , Catada ibne Diama, Mujaíde ibne Jabre, Nafi ibne Hurmuz, Saíde ibne Jubair e .
Aiube tornou-se uma importante autoridade na transmissão de hádice em Baçorá. As estimativas acerca da quantidade de tradições que transmitiu variam: Ali ibne Almadini atribuiu-lhe cerca de 800 hádices, enquanto estimou aproximadamente dois mil. Entre os estudiosos que transmitiram sob sua autoridade estavam Hamade ibne Salama, Hamade ibne Zaíde, o próprio Ibne Sirine, Maleque ibne Anas, Mamar ibne Raxide, Sufiane Atauri, Sufiane ibne Uiaina, Xuba ibne Alhajaje e Ibne Xiabe Azuri. Aiube gozou de elevada reputação entre os estudiosos posteriores de hádice. Maleque ibne Anas considerou-o o mais eminente dos mestres dos quais recebeu tradições e, segundo a tradição biográfica, não transmitiu de nenhum outro estudioso iraquiano. Ibne Sirine, Iáia ibne Maine, e Anaçai qualificaram-no com termos de elevada confiabilidade, como thabt e thiqa. Ibne Sade descreveu-o sucessivamente como thiqa, thabt, jāmiʿ, ḥujja e ʿadl. Alguns críticos de hádice, entre os quais se encontravam seus próprios mestres e discípulos, compararam-no favoravelmente a contemporâneos de grande reputação, como Abedalá ibne Aune, Ácime Alaual e Azuri.
Sufiane ibne Uaina, que incluiu Aiube entre os grandes memorizadores de hádice de Baçorá, afirmou não ter encontrado ninguém semelhante a ele entre os 86 tabis que conhecera pessoalmente. Abedalá ibne Aune também reconheceu sua superioridade e preferia as transmissões de Aiube às suas próprias. Xuba ibne Alhajaje chamou-o de "senhor dos juristas", enquanto Abederramão ibne Mádi o considerou a autoridade (ḥujja) dos habitantes de Baçorá. Abu Daúde do Sijistão relatou ainda que Amade ibne Hambal colocava Aiube acima de Maleque ibne Anas. Tradições transmitidas por Aiube foram incluídas por todos os compiladores dos Seis Livros. Apesar de sua reputação nos campos do hádice e da jurisprudência, evitava exercer ijtihad em questões para as quais não conhecesse evidência proveniente do hádice, por receio de incorrer em erro. Aiube viveu durante o período de formação das primeiras correntes teológicas islâmicas e adotou posições posteriormente associadas ao sunismo. Segundo relatos preservados a seu respeito, afirmava sentir a morte de um membro dos seguidores da Suna como se tivesse perdido uma parte do próprio corpo. Era igualmente hostil ao que considerava inovações religiosas (bida) e aplicava aos seus defensores a designação de carijitas, argumentando que se assemelhavam a estes por sua oposição à comunidade muçulmana. Sustentava ainda que o aumento das práticas inovadoras afastava seus adeptos de Deus. Também criticou posições atribuídas aos mutazilitas acerca da relação de Deus com o céu, entendendo que elas levavam, em última análise, à negação da existência divina.
As fontes biográficas caracterizam Aiube como devoto e asceta, particularmente preocupado em evitar a ostentação de sua religiosidade. Defendia que o ascetismo deveria permanecer oculto e não ser transformado em meio de exercer autoridade sobre outras pessoas. Embora passasse noites em oração, procurava não tornar suas práticas conhecidas. Dividia o ascetismo e a piedade em três graus: o ascetismo no monoteísmo por meio da adoração a Deus, o relativo às coisas proibidas e o relativo às coisas permitidas. Pelo receio de incorrer em ostentação religiosa, evitava também uma simplicidade excessiva na decoração de sua casa e em suas vestimentas. É relatado que realizou o haje quarenta vezes e que, durante algumas dessas viagens, lhe teriam ocorrido feitos considerados miraculosos pelas fontes posteriores. Aiube manteve-se afastado da política durante o período de instabilidade vivido pelo Califado Omíada. Essa postura estendeu-se às suas relações pessoais: quando seu amigo tornou-se califa, Aiube teria rompido relações com ele. Morreu de peste em Baçorá numa sexta-feira de Ramadã de 131 A.H. (maio de 749). Os hádices transmitidos por Aiube foram posteriormente reunidos por Ismail ibne Isaque Aljadami numa coleção intitulada Musnad (Tanqīḥ) ḥadīth Ayyūb al-Sakhtiyānī. Cátibe Chelebi e atribuíram-lhe ainda uma obra denominada Farāʾiḍ Ayyūb al-Baṣrī, mas sua autoria é incerta, pois não há notícia dessa obra nas demais fontes utilizadas para sua biografia.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VII Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Naturais de Baçorá Categoria:Pessoas do Califado Omíada