Maomé ibne Sirine (; Baçorá, 34 A.H. / – 9 de Xaual de 110 A.H. / ), mais conhecido como Ibne Sirine, foi um tabi, tradicionalista, jurista e estudioso muçulmano de Baçorá. Filho de dois antigos escravos alforriados ligados a importantes figuras da primeira comunidade islâmica, teve contato com numerosos companheiros de Maomé e recebeu tradições de estudiosos como Zaíde ibne Tábite, Haçane ibne Ali, Abu Huraira e Anas ibne Maleque. Tornou-se uma das autoridades religiosas mais reputadas de sua geração e teve entre aqueles que transmitiram seus ensinamentos Catada ibne Diama, Aiube Açaquetiani e Abedalá ibne Aune.
Ibne Sirine destacou-se sobretudo no hádice e na jurisprudência. Era conhecido pelo rigor com que avaliava a procedência do conhecimento religioso e foi considerado pelos estudiosos posteriores um transmissor confiável, tendo tradições sob sua autoridade incorporadas aos Seis Livros. Também adquiriu reputação como jurista e lhe foram atribuídos conhecimentos de exegese corânica, poesia e cálculo. Paralelamente à atividade intelectual, trabalhou como comerciante de tecidos e, durante certo período, como secretário de Anas ibne Maleque. As tradições biográficas enfatizam sua piedade, devoção e ascetismo, embora também preservem relatos sobre seu temperamento e características pessoais peculiares.
Sua fama posterior ficou especialmente associada à interpretação de sonhos, a ponto de Ibne Sirine se tornar uma das figuras mais célebres da tradição oniromântica islâmica. Essa reputação, contudo, é documentada com clareza apenas a partir de gerações posteriores à sua morte, enquanto algumas das fontes biográficas mais antigas sequer o apresentam como intérprete de sonhos. A partir do A.H./X, numerosas interpretações e obras passaram a circular sob seu nome, mas a autoria dos tratados que lhe foram atribuídos é considerada duvidosa. Sua associação posterior com essas obras reflete o extraordinário prestígio alcançado por seu nome, embora sua atividade historicamente mais bem documentada permaneça a de tradicionalista e jurista.
Vida
Maomé ibne Sirine nasceu em Baçorá em 34 A.H. (654), embora também sejam registrados os anos de 31 A.H. (651) e 33 A.H. (653). Seu pai, Sirine, era natural de , na Pérsia, e estava entre os prisioneiros capturados durante a conquista de Aine Atanre por Calide ibne Alualide. Coube como escravo a Anas ibne Maleque, que posteriormente o libertou mediante um contrato de alforria (). Sua mãe, Safia, havia sido escrava de Abu Becre e também foi alforriada. Segundo as tradições biográficas, ela gozava de grande consideração entre os primeiros muçulmanos: três das esposas de Maomé participaram da preparação de seu corpo para o sepultamento e dezoito veteranos da Batalha de Badre, liderados por Ubai ibne Cabe, estiveram presentes em seu funeral. Ibne Sirine teve contato com cerca de trinta companheiros de Maomé e recebeu ensinamentos de figuras como Zaíde ibne Tábite, Haçane ibne Ali, e Abu Huraira, além de estudiosos da geração dos tabis, como e . Entre os numerosos estudiosos que receberam tradições ou ensinamentos dele estiveram , Catada ibne Diama, Aiube Açaquetiani, Ácime Alaual, Abedalá ibne Aune, , e .
Para garantir seu sustento, Ibne Sirine dedicava-se ao comércio de tecidos. Sua atividade comercial, porém, não parece ter lhe proporcionado prosperidade duradoura. Segundo uma tradição, comprou uma quantidade de azeite e, ao descobrir que um rato havia caído em um dos recipientes, descartou todo o produto, não conseguindo depois saldar suas dívidas e sendo preso. Fahd igualmente registra que morreu endividado e afirma que teve trinta filhos com a mesma mulher, dos quais somente Abedalá lhe sobreviveu. Em certa época, serviu ainda como secretário de Anas ibne Maleque. Anas teria pedido que, após sua morte, Ibne Sirine lavasse seu corpo e dirigisse sua oração fúnebre; como este se encontrava preso quando Anas morreu, recebeu autorização para deixar a prisão durante um dia a fim de cumprir a incumbência. Ibne Sirine realizou a peregrinação durante o governo de Abedalá ibne Azobair e permaneceu associado sobretudo a Baçorá ao longo da vida. As fontes o descrevem como piedoso, humilde, generoso e devoto, embora Fahd também registre tradições que lhe atribuem temperamento explosivo e certos comportamentos considerados excêntricos, em contraste com a afabilidade de seu contemporâneo e amigo Alhaçane de Baçorá. Morreu em 9 de Xaual de 110 A.H. (15 de janeiro de 729), cerca de cem dias depois de Haçane de Baçorá. Deixou uma dívida de 40 000 dirrãs, posteriormente paga por seu filho Abedalá. Seus irmãos Iáia, Mabade e Anas e sua irmã também foram considerados transmissores confiáveis de hádices.
Atividade intelectual
Hádice e jurisprudência
Embora tenha adquirido posteriormente fama sobretudo como intérprete de sonhos, Ibne Sirine foi conhecido entre seus contemporâneos principalmente como tradicionalista e jurista. Recebeu qualificações como imame e hafiz e também lhe foram atribuídos conhecimentos de exegese corânica, poesia e cálculo, mas sua reputação intelectual repousava especialmente sobre o hádice e a jurisprudência. Os estudiosos posteriores foram unânimes em considerá-lo um transmissor confiável, e tradições transmitidas sob sua autoridade foram incorporadas aos Seis Livros. Ibne Sirine atribuía grande importância à confiabilidade daqueles dos quais o conhecimento religioso era recebido. É-lhe atribuída a máxima segundo a qual esse conhecimento constituía a própria religião e, portanto, era necessário examinar cuidadosamente de quem ela era aprendida. Entre os transmissores que aparecem nas cadeias de hádices atribuídas a ele estão Abu Huraira, Zaíde ibne Tábite, Anas ibne Maleque, e Xurai Alquindi. Entre aqueles que transmitiram suas tradições, destacam-se Catada ibne Diama e Calide Alhada. Sua preocupação com a transmissão oral era acompanhada por resistência à consignação escrita dos hádices, prática à qual se teria oposto. Fahd registra ainda sua hostilidade às discussões sobre a predestinação, que considerava inspiradas pelo Diabo. Ibne Sirine também adquiriu reputação como jurista. Suas opiniões abrangiam especialmente questões de relações e transações jurídicas, e sua autoridade nesse domínio continuou a ser reconhecida posteriormente. A seriedade que lhe era atribuída na transmissão do conhecimento contrastava, segundo algumas tradições, com aspectos de seu comportamento cotidiano: Fahd observa que era capaz de rir e brincar, mas também podia irritar-se rapidamente. Esses relatos contribuíram para uma imagem biográfica que combinava rigor religioso e ascetismo com uma personalidade marcada por características particulares.
Interpretação de sonhos
Apesar de Ibne Sirine ter se tornado um dos nomes mais célebres da tradição islâmica de interpretação de sonhos, as evidências sobre sua atuação pessoal nesse campo são consideravelmente menos abundantes que aquelas relativas às suas atividades como tradicionalista e jurista. Algumas das fontes biográficas antigas sequer mencionam que interpretasse sonhos. Ibne Sade, por exemplo, não o apresenta como intérprete, enquanto dedica atenção a Saíde ibne Almuçaiabe como uma figura importante da tradição árabe de interpretação de sonhos. Da mesma forma, autores antigos como Califa ibne Caiate, Amade ibne Hambal e não fazem referência à atividade oniromântica de Ibne Sirine. Outras fontes, contudo, preservam relatos de interpretações atribuídas a ele, e sua associação com a matéria tornou-se progressivamente mais forte. Segundo Fahd, é sobretudo a partir de meados do A.H./IX que sua reputação como intérprete de sonhos pode ser claramente documentada. Interpretações atribuídas a ele aparecem em autores posteriores, e Ibne Cutaiba já conhecia sua fama nesse domínio. A partir do A.H./X, Ibne Sirine passou a receber crédito por numerosas interpretações e, posteriormente, por tratados inteiros sobre o assunto. Ibne Calicane o descreveu como profundo conhecedor da interpretação de sonhos, enquanto Adaabi registrou exemplos que lhe eram atribuídos e destacou sua habilidade. Ibne Caldune chegou a considerá-lo uma das autoridades mais célebres nesse campo e afirmou que as regras de interpretação associadas ao seu nome haviam sido transmitidas através das gerações.
A autoria das obras de interpretação de sonhos tradicionalmente atribuídas a Ibne Sirine, contudo, é considerada duvidosa. As fontes mais antigas não informam que tenha escrito qualquer tratado sobre o tema, e sua conhecida resistência à própria consignação escrita dos hádices torna ainda menos provável que tenha composto pessoalmente um manual de interpretação de sonhos. Ibne Anadim atribuiu-lhe posteriormente uma obra intitulada Taʿbīr al-ruʾyā, enquanto outras fontes lhe associaram numerosos títulos. Fahd observa que a diversidade dos títulos, o conteúdo das obras e seu caráter tardio indicam que muitos desses textos foram produzidos por autores posteriores e atribuídos a Ibne Sirine para conferir-lhes a autoridade de seu nome. O Taʿbīr al-ruʾyā publicado repetidas vezes no Egito, por exemplo, corresponde à segunda parte de uma compilação intitulada Muntakhab al-kalām fī taʿbīr al-aḥlām, elaborada somente no início do A.H./XV. A atribuição continuou a expandir-se nos séculos posteriores, e numerosas coletâneas de interpretação de sonhos circularam sob o nome de Ibne Sirine. Algumas delas mencionam inclusive indivíduos que viveram depois dele, demonstrando que não podem ter sido compostas pelo tabi. Assim, embora tradições relativas à interpretação de sonhos tenham sido associadas a Ibne Sirine e sua reputação nesse domínio tenha se tornado extraordinariamente influente, não é possível atribuir-lhe com segurança os manuais que posteriormente circularam em seu nome. A associação dessas obras a ele é interpretada como uma tentativa de aproveitar o prestígio intelectual de um dos mais reputados estudiosos das primeiras gerações islâmicas.
Bibliografia
Categoria:Iranianos do século VII Categoria:Iranianos do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas do Califado Omíada