Tarmas é o etnónimo empregado nas fontes coloniais para uma população indígena da região centro-norte da actual Venezuela, associada sobretudo ao litoral caribenho e às montanhas ocidentais do actual estado de La Guaira... A investigação histórica e linguística enquadra-os provisoriamente entre as populações falantes de línguas ou variedades da família caribe que habitavam a cordilheira da Costa no século XVI..

As fontes não permitem demonstrar que os tarmas tenham constituído uma unidade política centralizada, possuído fronteiras permanentes ou falado uma variedade linguística completamente distinta. O nome pode ter designado uma componente regional formada por aldeias relacionadas entre si, posteriormente repartidas por diferentes encomiendas e povoações coloniais...

No século XVII, pessoas classificadas como tarmas aparecem em pelo menos quatro conjuntos documentais ligados a Maiquetía, ao vale dos Tarmas, ao vale de Mamo e a Carayaca.. O etnónimo foi progressivamente substituído por categorias administrativas, paroquiais e sociais da ordem colonial, mas sobreviveu no topónimo da localidade de Tarmas. Esta transformação documental não equivale a uma extinção biológica súbita da população..

Identificação e fontes Na Relación de Nuestra Señora de Caraballeda y Santiago de León, iniciada em Dezembro de 1578, o governador Juan de Pimentel incluiu os tarmas entre as «nações» indígenas da província de Caracas. A mesma enumeração mencionava toromaimas, aruacos, teques, guaiqueris, quiriquires, meregotos, mariches, guarenas e outros grupos. As palavras «nação», «província» e «parcialidade» usadas pelos autores coloniais não correspondem necessariamente aos conceitos modernos de povo, etnia ou Estado. Horacio Biord Castillo interpreta essas designações como categorias variáveis, aplicadas a regiões, redes de aldeias e conjuntos humanos cuja articulação política exacta permanece incerta.

A principal fonte coeva para a vida indígena regional é a relação de Pimentel. As campanhas militares aparecem também em cartas, informações de méritos, probanzas e expedientes arquivísticos, documentos frequentemente produzidos para justificar conquistas ou obter mercês da Coroa. As narrativas mais desenvolvidas foram escritas posteriormente, sobretudo por José de Oviedo y Baños, cuja história foi publicada em 1723.. Nectario María reuniu no século XX numerosos documentos do Arquivo Geral das Índias, procurando corrigir Oviedo y Baños através de testemunhos coevos. A sua obra conserva localizadores arquivísticos importantes, embora os combine com uma reconstrução narrativa da conquista e com a terminologia historiográfica do seu tempo..

A síntese interdisciplinar publicada por Andrzej Antczak, Horacio Biord Castillo, Pedro Rivas e María Magdalena Antczak em 2020 confronta os documentos coloniais com linguística e arqueologia. Os autores salientam que o registo arqueológico do contacto inicial é fragmentário e que não se pode identificar automaticamente um estilo cerâmico pré-colonial com um etnónimo registado pelos castelhanos.

Nome e variantes A forma colectiva mais frequente na historiografia é tarmas. A documentação e a bibliografia apresentam igualmente Tarma, Tarama e, em contextos relacionados, formas como taramas ou taramainas. As variantes não devem ser fundidas indiscriminadamente, pois algumas podem referir-se a grupos, lugares ou leituras documentais diferentes.

O mapa de Juan de la Cosa, datado de 1500, assinala na costa centro-setentrional um lugar chamado Turma. Rivas propôs, e Antczak e os seus coautores retomaram com reserva, que a forma pudesse corresponder a Tarma..

Documentos do século XVII empregaram Tarama ou Tarma para pessoas classificadas como caracas que habitavam as montanhas ocidentais do actual estado de La Guaira. O nome permaneceu associado a um assentamento de encomienda e, posteriormente, a um resguardo indígena. Foi também proposta uma relação entre Tarama e Toromayma, nome associado aos habitantes do vale de Caracas. A semelhança poderia reflectir parentesco linguístico, deslocação regional ou apenas proximidade formal entre os nomes. A documentação disponível não permite escolher definitivamente entre essas interpretações..

Território e relações regionais Antczak e os seus coautores apresentam os tarmas como a componente litoral de um modelo formado por sete segmentos regionais das populações indígenas do centro-norte venezuelano. Nesse esquema, os meregotos ocupavam os vales de Arágua; os tarmas, o litoral caribenho; os teques, as montanhas centrais; os mariches, a cordilheira oriental; os guarenas, os vales interiores centrais; os tomuzas, Barlovento; e os quiriquires, a depressão dos Lhanos. A classificação é um modelo histórico e linguístico, não um mapa de fronteiras políticas fixas. As aldeias de cada componente estariam estreitamente relacionadas, enquanto redes de parentesco, comércio, casamento, cooperação cerimonial e alianças de guerra ligavam comunidades de regiões diferentes..

Nectario María associou pessoas classificadas como tarmas a Maiquetía, Petaquire, ao vale dos Tarmas situado a oeste de Carayaca, ao vale de Mamo e à própria Carayaca, distribuição que deriva principalmente de encomiendas documentadas depois da conquista.

O litoral e as vertentes da cordilheira ofereciam ambientes distintos. As comunidades costeiras tinham acesso à pesca marítima, moluscos, tartarugas e sal, enquanto as aldeias montanhosas e dos vales dependiam mais directamente de conucos, caça, cursos de água e caminhos interiores.. Pimentel registou trocas entre habitantes do interior e do litoral: alimentos eram levados à costa em troca de sal e peixe..

Língua Pimentel afirmou que a língua falada «em geral» na província era a que chamou caraca. Reconheceu diferenças entre as várias «nações», comparando-as às existentes entre regiões da Península Ibérica, declarando que os falantes conseguiam entender-se. Comparações lexicais posteriores relacionaram o caraca com línguas caribes históricas, como chaima, cumanagoto e tamanaco, e com línguas ainda faladas, incluindo mapoyo, yabarana, eñepá, kariña, pemón e yukpa. As correspondências regulares encontradas sustentam a inclusão do caraca num conjunto caribe costeiro ou caribe setentrional.

Continua discutido se as populações do centro-norte falavam uma única língua com variedades regionais ou várias línguas caribes estreitamente aparentadas. Contactos com falantes de línguas não caribes também podem ter contribuído para diferenças locais no vocabulário e na toponímia.

Povoamento Não existe uma descrição autónoma das aldeias tarmas anterior à conquista. O modelo disponível resulta das observações gerais de Pimentel e da comparação com outras sociedades caribefalantes..

Segundo Pimentel, os habitantes indígenas da província não viviam normalmente em grandes povoações compactas. As casas agrupavam-se em pequenos bairros de três, quatro, seis ou mais habitações, por vezes separados uns dos outros, mas reconhecidos como partes de uma povoação mais ampla.. A investigação recente interpreta esse padrão como uma rede de pequenas aldeias distribuídas por colinas, vales, encostas e ravinas. Os assentamentos relacionavam-se com conucos, áreas de caça, fontes de matérias-primas e caminhos que os ligavam a unidades territoriais maiores.

As casas eram feitas de materiais perecíveis, também existindo abrigos temporários junto dos campos cultivados. A mobilidade podia responder ao esgotamento dos solos e recursos, à deterioração das coberturas vegetais, a mortes, conflitos e mudanças na localização dos conucos.

Organização social e política O agregado doméstico constituía a principal unidade de produção e consumo no modelo regional. As aldeias reuniam famílias extensas aparentadas e alguns residentes sem laço consanguíneo directo. Cada casa teria um chefe, e cada aldeia reconhecia um dirigente cuja influência dependia do parentesco, da produtividade agrícola, da capacidade de redistribuir alimentos e bebidas, da oratória e da aptidão para organizar relações sociais e rituais. A autoridade não correspondia necessariamente a um poder coercivo permanente.. Pimentel afirmou não ter encontrado senhores hereditários a quem as populações pagassem tributo..

Os chefes de aldeia podiam ser assistidos por conselhos de anciãos e por especialistas rituais ou xamãs. Em períodos de guerra, um chefe reconhecido pela coragem e capacidade de persuasão podia comandar temporariamente uma aliança de várias comunidades..

Os autores modernos divergem quanto ao grau de desigualdade social. Alguns aproximam a organização regional de sociedades igualitárias ou quase igualitárias; outros admitem formas transitórias de desigualdade entre agregados mais produtivos e prestigiosos. A escassez da documentação impede determinar se um mesmo modelo se aplicava de forma uniforme aos tarmas.. Pimentel registou casamento, separação e poliginia na província. A capacidade de sustentar um agregado numeroso dependia da produtividade dos conucos e da incorporação de filhos, filhas, genros e noras às redes domésticas..

Subsistência e intercâmbio A economia das populações indígenas do centro-norte combinava horticultura, caça, pesca e recolha. Nos vales interiores, os principais cultivos documentados eram milho, mandioca amarga, mandioca doce e batata-doce. Também se cultivavam ou aproveitavam feijões, amendoim, abóboras, algodão, tabaco, cabaças e diversas árvores de fruto. As fontes mencionam ainda uma variedade regional de coca, cujas folhas secas e moídas eram misturadas com material calcário e mastigadas..

A mandioca amarga era processada para eliminar a toxicidade e produzir farinha e casabe. O sumo cozido era aproveitado na preparação do yare. Bebidas fermentadas de milho ou mandioca eram consumidas em ocasiões colectivas..

As comunidades costeiras pescavam, recolhiam moluscos e capturavam tartarugas e outros recursos marinhos. O sal obtido no litoral e nas ilhas próximas circulava para o interior, enquanto alimentos agrícolas percorriam o sentido inverso. A caça fornecia carne de mamíferos e aves, e a recolha incluía frutos, plantas medicinais, fibras, mel, cera e corantes. Arcos e flechas eram empregados tanto na caça como na guerra.

Cultura material Pimentel deixou uma descrição ampla da cultura material dos habitantes da província, mas raramente associou cada objecto a uma «nação» específica. A investigação recente usa esses dados para reconstruir um repertório regional, admitindo diferenças entre comunidades costeiras e interiores. Segundo a sua Relação, as mulheres usavam pequenas peças de algodão, contas e, em alguns casos, ornamentos metálicos. Homens e mulheres pintavam o corpo e podiam usar braçadeiras ou ligaduras coloridas. Chefes e guerreiros destacados utilizavam adornos de ouro ou guanín, cocares de penas, peles e pinturas que marcavam prestígio ou estatuto.. Entre as armas mencionadas encontravam-se arcos, flechas com veneno e macanas de madeira dura, por vezes gravadas ou pintadas. Campos, caminhos e acessos a habitações podiam ser protegidos por estacas ou pontas envenenadas..

A produção incluía fios e tecidos de algodão, redes, cordas, cestos, utensílios de cabaça e objectos de madeira. Pimentel menciona um cesto chamado cataure, associado aos bens pessoais das mulheres. Os instrumentos sonoros usados em guerra e cerimónias incluíam tambores, trombetas de concha e flautas longas chamadas fotutos. A navegação costeira recorria a canoas escavadas em troncos. Embora a cerâmica seja pouco descrita na relação de Pimentel, são conhecidos pratos ou grelhas para cozer casabe e outros recipientes.

Conquista e resistência

Primeiros contactos e expansão espanhola