Western feijoada, bangue-bangue à brasileira, faroeste caboclo, e faroeste tupiniquim são designações para o subgênero do western produzido no Brasil, com manifestações no cinema, na televisão, na literatura e nos quadrinhos.
Terminologias No Brasil, o western é popularmente conhecido como faroeste, a forma aportuguesada de far-west (com a grafia original praticamente em desuso), expressão pela qual o Velho Oeste também é designado, ou bang-bang, aportuguesado por vezes como bangue-bangue. Esta última denominação tem origem onomatopaica, pois reproduz o som seco e repetido dos tiros de revólver, tão característicos dos duelos e perseguições armadas que marcaram os filmes do gênero.
As designações western feijoada e western macaxeira são alusões ao western spaghetti italiano, substituindo o prato da culinária italiana por referências gastronômicas brasileiras. A expressão western feijoada foi popularizada pelo pesquisador e jornalista Rodrigo Pereira, autor da tese de mestrado Western Feijoada: o faroeste no cinema brasileiro, defendida na Universidade Estadual Paulista (UNESP) em 2002, embora já fosse utilizada nas décadas de 1970 e 1980. Enquanto feijoada remete ao faroeste brasileiro de forma ampla, macaxeira, nome pelo qual a mandioca é conhecida no Norte e Nordeste, delimita a expressão regional do gênero, associando-o diretamente ao sertão nordestino e à vertente do nordestern. O termo nordestern tem criação é atribuída ao crítico de cinema potiguar Salvyano Cavalcanti de Paiva, que o empregou nos anos 60 e 70 nas páginas jornal Correio da Manhã, para designar os filmes brasileiros inspirados no faroeste e protagonizados por cangaceiros, volantes, jagunços e outros personagens do sertão. Assim como western feijoada e western macaxeira, a expressão bangue-gbangue à brasileira também dialoga com o cinema italiano, uma vez que os spaghetti westerns são conhecidos como bangue-bangue à italiana.
Já faroeste caboclo, embora tenha se popularizado a partir da canção homônima composta por Renato Russo e gravada pela banda Legião Urbana, lançada em 1987, que em 2013 foi adaptada para o cinema no longa-metragem de mesmo nome, dirigido por René Sampaio e também definido como um neo-western, não tem nela sua origem exclusiva. Registros mostram que o termo já era utilizado por alguns jornais na década de 1970 para definir certos filmes do gênero. Mais antiga ainda é a variante western caboclo, que aparece em publicações dos anos 1960 e 1970. O filme foi lançado na América do Norte como Brazilian Western, indicando sua influência para além do público brasileiro.
Rodrigo Pereira dividiu o faroeste brasileiro em três subgêneros regionais: o nordestern, sobre o cangaço dos séculos XIX e XX, o bangue-bangue rural, situado no interior paulista, mineiro e nordestino e os faroestes épicos, que giram em torno de guerras civis, como a dos Farrapos ou os confrontos com beatos no Nordeste. Ele propõe uma definição ampla do gênero western, associando-o não a uma ambientação geográfica específica, mas a uma estrutura narrativa recorrente. Segundo ele, o faroeste caracteriza-se fundamentalmente pelo conflito entre o Bem e o Mal em um território em vias de civilização, marcado pela presença de estradas, ferrovias, armas de fogo e por um mundo que, embora próximo da modernidade, ainda não se configura como tal. Tais elementos, para o autor, são suficientes para classificar um filme como western, independentemente de sua localização. Pereira exemplifica com o filme italiano Django não Perdoa, Mata, ambientado na Espanha, cuja construção narrativa é essencialmente western.
Mídia Filmes thumb|Anúncio do filme Um Bravo do Nordeste publicado no Jornal do Recife (6 de agosto de 1931). A influência dos westerns pode ser rastreada ainda no cinema mudo com o filme Dioguinho de 1917, baseado em um bandido paulistano de mesmo nome, o filme é considerado perdido. Em 2014, o pesquisador Rodrigo Pereira listou nada menos que 103 produções exibidos em circuito comercial.
O primeiro registro de filme dedicado aos cangaceiros teria sido o filme pernambucano Filho sem mãe (1925), produzido pela Planeta-Film e dirigido por Tancredo Seabra. No mesmo ano, outro filme pernambucano foi lançado: Retribuição, com roteiro e direção de Gentil Roiz e fotografia de Edson Chagas (sócios da Aurora-Film), A obra incorporava elementos típicos dos filmes de aventura, do faroeste e dos seriados cinematográficos. Em 1931, foi lançado o filme alagoado Um Bravo do Nordeste, dirigido por Edson Chagas, também considerado um filme perdido.
Um dos primeiros filmes do subgênero nordestern é O Cangaceiro, lançado em 1953. Produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, o filme foi dirigido por Lima Barreto e protagonizado por Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro e Vanja Orico. Seu roteiro foi escrito pelo próprio Barreto, com diálogos da escritora cearense Rachel de Queiroz.. No mesmo ano, Queiroz também escreveu a peça Lampião, inspirada na temática do cangaço. A autora voltaria a abordar esse universo em seu último romance, Memorial de Maria Moura, publicado em 1992. O Cangaceiro foi o estopim para o nordestern e também para os westerns feijoadas como um todo. A aproximação entre esse subgênero e o western tradicional se justifica pela semelhança entre os cenários do Velho Oeste americano e a representação cinematográfica do sertão brasileiro, vastas paisagens abertas, comunidades remotas, grupos armados, perseguições, tocas, disputas de honra, violência particular e a fragilidade das instituições diante da lei.
Assim como os fora-da-lei do Velho Oeste foram romantizados pela literatura e pelo cinema como símbolos de liberdade, os cangaceiros, em especial Lampião, tiveram suas imagens construídas não apenas como criminosos, mas como vingadores do povo nordestino, fenômeno que Eric Hobsbawm classificou como "banditismo social": a violência do bandido ressignificada como resistência contra a opressão dos poderosos. Trata-se de um arquétipo recorrente, presente já em Robin Hood, celebrado em baladas medievais como justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, dinâmica similar à dos folhetos de cordel nordestinos, que derivam da poesia medieval europeia e forjaram a imagem do cangaceiro como herói popular. A oscilação do cangaceiro entre o herói e o vilão nos filmes reflete a própria natureza ambígua do fenômeno histórico e a sua poderosa ressignificação cultural, que transita entre a realidade violenta dos bandos e o mito romântico do justiceiro social.
thumb|Alberto Ruschel e Milton Ribeiro em cena do filme O Cangaceiro (1953) O impacto de O Cangaceiro logo se espalhou por outras produções. Em 1954, Maurício Morey, que havia participado como figurante no filme de Lima Barreto, integrou o elenco de Da Terra Nasce o Ódio, dando início a uma trajetória que, nas palavras do pesquisador Rodrigo Pereira, o consagraria como o pioneiro dos cowboys no cinema brasileiro, com atuações também em A Lei do Sertão (1956) e Homens sem Paz (1957).
Já em 1955, os astros de O Cangaceiro, Alberto Ruschel e Milton Ribeiro atuaram em Os Três Garimpeiros, obra classificada por Pereira como um faroeste épico passado durante a Guerra do Paraguai. thumb|Pôster de Paixão de Gaúcho (1957)|esquerdaminiaturadaimagem|Othon Bastos em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)O mineiro Milton Ribeiro acabou se consolidando como o principal vilão dos nordesterns, firmando seu nome como uma das figuras centrais do cinema de cangaço no Brasil, com trabalhos em produções como Arara Vermelha (no papel de Camura), A Morte Comanda o Cangaço (Capitão Silvério), O Cabeleira, Lampião, o Rei do Cangaço e Corisco, o Diabo Loiro, no qual interpretou Lampião. Já o gaúcho Alberto Ruschel, intérprete do cangaceiro Teodoro em O Cangaceiro, dedicou os onze anos seguintes a viver heróis nos cenários áridos do Nordeste, no interior paulista e nos pampas gaúchos, como o faroeste épico regionalista Paixão de Gaúcho (1957) de Walter George Durst, adaptação de O Gaúcho de José de Alencar.
O cineasta José Mojica Marins, conhecido mundialmente por sua icônica persona do terror Zé do Caixão, também se aventurou pelo gênero, dirigindo em 1958 o filme A Sina do Aventureiro. Elle também realizou outros títulos nas décadas seguintes: O Diabo de Vila Velha (1965), no qual o ator Milton Ribeiro interpreta o personagem Lorenzo, e Dgajão Mata para Vingar (1972).
Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, é um outro exemplo de nordestern, lançado em 1964 e influenciado por John Ford, diretor de Rastros de Ódio (The Searchers), trata-se de um dos expoentes do chamado Cinema Novo. O personagem Antônio das Mortes encarna o tropo do caçador de recompensas contratado para eliminar cangaceiros, primeiro Corisco e seu bando em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e depois Coirana em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). O pesquisador Rodrigo Pereira sustenta que Deus e o Diabo na Terra do Sol não se enquadraria propriamente como western, pois sua estrutura narrativa é dramática e não coloca o protagonista em um conflito claro entre bem e mal, ao contrário de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, classificado por ele como faroeste rural. miniaturadaimagem|Francisco Di Franco em cena de Um Certo Capitão Rodrigo (1971), ele interpetetrou Jerônimo, o Herói do Sertão em duss telenovelas: em 1972 e em 1984 Em 1969, Adolpho Chadler coescreveu, dirigiu e estrelou O Tesouro de Zapata, filme ambientado no México. O roteiro foi inicialmente escrito por René Martin, pseudônimo do escritor de livros de bolso Átila Ribeiro Martins, que, segundo Rodrigo Pereira, foi recrutado por Chadler para o projeto, tornando-se seu roteirista mais frequente. A trama acompanha Eufemio Zapata (Chadler) cruzando o México no encalço dos bandoleiros que raptaram Flores (Gilda Medeiros), viúva de seu irmão Emiliano Zapata, para obrigá-la a revelar o paradeiro de um tesouro saqueado pelas tropas revolucionárias. Em 1972, Chadler também dirigiu, roteirizou, estrelou e produziu Jerônimo, o Herói do Sertão, baseado na série de rádio de mesmo nome, Segundo o pesquisador Rodrigo Pereira, o criador da radionovela, Moysés Weltman, escreveu o roteiro para preservar o tom infantil da obra (procedimento que também adotou nos quadrinhos da Rio Gráfica Editora). René Martin recusou-se a colaborar por considerar a história antiquada. Na trama, Jerônimo (Chadler), Moleque Saci (Polico) e Aninha (Elizabeth Baker) enfrentam a viúva Tabarra (Yara Cortes) para recuperar um diamante roubado. Os radioatores originais, Milton Rangel, Cauê Filho e Dulce Martins, dublaram os personagens, criando a ilusão de que eram os próprios intérpretes em cena. No mesmo ano, teve uma telenovela exibida pela TV Tupi, estrelada por Francisco di Franco e , que em 1971, estrelou o faroeste épico Um Certo Capitão Rodrigo, baseado na obra de Érico Veríssimo. miniaturadaimagem|Poster de Gringo - O Último Matador
Tony Vieira (nome real Mauri de Oliveira Queiroz) foi um dos nomes mais representativos do western feijoada. Após atuar como coadjuvante nas em paródias do gênero como Panca de Valente (1968) e Uma Pistola para Djeca (1970), esse último, protagonizado por Mazzaropi, Vieira protagonizou dois filmes emblemáticos do gênero ao dar vida ao personagem Caviúna em Quatro Pistoleiros em Fúria (1972) e na sequência Um Pistoleiro Chamado Caviúna (1972), ambos dirigidos pelo polonês Edward Freund. Freund também dirigiu Trindade… é Meu Nome (1973), uma paródia ao personagem italiano Trinity (interpetado por Terence Hill), estrelado por David Cardoso.
Vieira também estrelou e dirigiu produções que inovavam ao incorporar forte teor erótico ao gênero, como Gringo, o Último Matador (1972), A Filha do Padre (1975), Os Violentadores (1978) e Condenada por um Desejo (1981).