Bacte () foi o nome empregado pelas fontes árabes para designar o conjunto de relações diplomáticas e econômicas mantidas entre o reino cristão da Macúria, na Núbia, e os sucessivos governos muçulmanos do Egito entre o e o final do . O termo deriva provavelmente do latim pactum, por intermédio do grego helenístico pakton, vocábulo que designava tanto um acordo de obrigações recíprocas quanto os pagamentos associados ao seu cumprimento. O Bacte surgiu após as campanhas muçulmanas contra a Núbia e a tentativa de conquista de Dongola em 652, quando o governador egípcio Abedalá ibne Sade celebrou uma trégua com os macúrios. Seu caráter bilateral e incomum dificultou seu enquadramento pela jurisprudência islâmica posterior: alguns juristas o consideraram uma modalidade de sulh, enquanto outros o interpretaram como uma hudna, ou acordo de não agressão que não obrigava os muçulmanos a defender a Núbia contra terceiros.

Segundo a interpretação tradicional preservada pelas fontes islâmicas tardias, o acordo assegurava a circulação entre os dois territórios, proibia o estabelecimento permanente de seus habitantes no território da outra parte e obrigava os núbios a devolver fugitivos, manter uma mesquita em Dongola e fornecer anualmente 360 escravos, além de entregas destinadas aos funcionários responsáveis pela transação. Em contrapartida, os egípcios enviavam trigo, lentilhas, outros alimentos, tecidos e artigos de vestuário, aos quais se acrescentaram, em diferentes períodos, cavalos, vinho e outros produtos. A composição, a frequência e a magnitude das trocas variaram consideravelmente ao longo dos séculos, e seus termos foram confirmados ou reajustados por governantes como , Almadi e Almotácime. O Bacte também constituiu um dos instrumentos pelos quais a monarquia macúria administrava suas relações econômicas com o Egito e controlava parte do comércio externo, coexistindo, porém, com a expansão gradual dos mercadores privados muçulmanos, da propriedade estrangeira e do tráfico escravista na região.

A natureza do Bacte e seu funcionamento efetivo são objeto de controvérsia historiográfica. Jay Spaulding argumenta que as versões mais conhecidas derivam sobretudo da literatura jurídica islâmica produzida mais de um século depois dos acontecimentos e da narrativa formulada por Almacrizi no , quando a Macúria cristã já havia desaparecido. Em sua reconstrução, o acordo teria resultado da incapacidade muçulmana de conquistar Dongola e sido compreendido pela corte macúria não como um tributo unilateral, mas como uma modalidade núbia de diplomacia régia baseada na troca recíproca de presentes, sem texto fixo, periodicidade invariável ou obrigação perpétua. As relações foram diversas vezes interrompidas e retomadas, e as fontes preservam muito menos entregas efetivamente documentadas do que pressuporia a teoria de pagamentos anuais. Mesmo após a conquista de Dongola pelo sultão mameluco Baibars em 1276, reis dependentes continuaram por algum tempo a iniciar operações identificadas como parte do Bacte. A progressiva incorporação política e islamização da Núbia acabaram por retirar ao acordo sua função original, levando o termo ao desuso.

Antecedentes e primeiras interpretações

miniatura|300px|esquerda|Conquista muçulmana do Egito miniatura|300px|esquerda|Localização de Nobácia, Macúria e Alódia, os reinos cristãos da Núbia

O termo árabe baqṭ é geralmente considerado derivado do latim pactum, por intermédio de sua forma helenizada pakton. No mundo helenístico, o vocábulo designava tanto um acordo que estabelecia obrigações recíprocas quanto os pagamentos relacionados à sua execução. O uso núbio do termo correspondia, em princípio, a esse sentido bilateral, embora as fontes árabes frequentemente descrevessem as prestações macúrias como um tributo. A singularidade do Bacte dificultou sua classificação pelos juristas muçulmanos posteriores. Maleque ibne Anas considerava-o uma modalidade de sulh, isto é, um tratado jurídico de paz, mas a maioria o interpretava como um acordo de não agressão ou uma hudna (trégua), que não obrigava os muçulmanos a defender a Núbia contra terceiros. Por ter sido celebrado em bases bilaterais, o acordo não se enquadrava na categoria habitual dos tratados de sulh reconhecidos pela jurisprudência islâmica posterior. Depois da conquista muçulmana do Egito em 641, Anre ibne Alás iniciou incursões sistemáticas contra os reinos cristãos da Núbia. Segundo a tradição preservada pela TDV, tropas sob o comando de Abedalá ibne Sade penetraram na região em 20 ou 21 A.H. (641–643), encontraram forte resistência e restabeleceram um sistema de pagamentos entre o Egito e a Núbia que já existia anteriormente, sem propriamente criá-lo. Após a morte do califa Omar ibne Alcatabe , os núbios teriam rompido esse primeiro acordo e passado a atacar o Alto Egito. Spaulding, por sua vez, interpreta essas incursões como operações preparatórias semelhantes às campanhas anuais então conduzidas contra os territórios bizantinos da Ásia Menor, destinadas a enfraquecer as defesas núbias antes de uma conquista definitiva. O próprio perfil político de Anre, que invadira o Egito por iniciativa própria ou mesmo contra as instruções do califa, sugere, segundo Spaulding, que pretendia prolongar a expansão muçulmana pela fronteira meridional.

Anre perdeu o governo em 647, mas seu sucessor, Abedalá ibne Sade, que já participara das incursões contra a Núbia, deu continuidade à campanha iniciada por seu antecessor. Em 652, avançou para o sul à frente de um grande exército que incluía cavalaria pesada e manganelas. As forças muçulmanas cercaram Dongola, capital da Macúria, e suas máquinas de guerra destruíram uma grande igreja da cidade. Seguiu-se um combate de grandes proporções, com numerosas baixas. Segundo a tradição preservada pela TDV, a resistência núbia, particularmente a habilidade de seus arqueiros, impediu uma conquista definitiva e obrigou as partes a celebrar um novo acordo em ramadã de 31 A.H. (abril–maio de 652). O relato mais antigo preservado sobre a campanha foi compilado entre um e dois séculos depois por Ibne Abede Aláqueme. Segundo sua narrativa, Abedalá celebrou uma trégua com os núbios porque não conseguira derrotá-los. Spaulding interpreta essa passagem como evidência de uma grande vitória defensiva da Macúria. Também cita o historiador xiita , do , segundo o qual os muçulmanos jamais haviam sofrido na Núbia uma perda comparável àquela. Para Spaulding, o resultado militar explicaria tanto a sobrevivência da Macúria cristã quanto a dificuldade encontrada posteriormente pelos autores islâmicos para enquadrar o Bacte nas categorias habituais da conquista. Com o passar dos séculos, surgiram versões destinadas a diminuir ou inverter o significado da derrota. Alguns autores transferiram o confronto para o governo de Anre, sugeriram que os próprios núbios haviam iniciado os ataques, reduziram a batalha a uma incursão de pouca importância ou afirmaram que a pobreza da região teria levado os muçulmanos a desistir voluntariamente de conquistá-la. No , Almacrizi apresentou uma narrativa detalhada na qual o rei núbio, derrotado e humilhado, teria saído de Dongola para pedir a paz a Abedalá, que lhe concedera termos moderados. Foi sobretudo essa versão tardia que passou a fundamentar a interpretação tradicional do Bacte.

Nenhuma fonte contemporânea a 652 descreve o estabelecimento do Bacte. Quando o acordo começou a aparecer na literatura escrita, durante os primeiros tempos do Califado Abássida, já possuía mais de um século de existência. As primeiras reconstruções surgiram no contexto da formação do direito islâmico, quando estudiosos buscavam avaliar os precedentes atribuídos a Maomé, aos seus companheiros e às primeiras gerações de muçulmanos. Seu objetivo não era propriamente reconstruir a diplomacia entre o Egito e a Macúria, mas determinar a legitimidade jurídica da participação de figuras proeminentes do início do islão em uma instituição que parecia não se enquadrar nas categorias habituais da expansão muçulmana. Uma vez formulada, essa interpretação adquiriu parte da autoridade conferida à própria tradição jurídica e foi sucessivamente repetida e ampliada pelos autores posteriores. A quase totalidade das fontes preservadas foi produzida por autores muçulmanos ou por cristãos orientais externos à Núbia, inexistindo praticamente relatos escritos pelos próprios macúrios. Permaneceram, assim, desconhecidos para a tradição islâmica os significados que a corte da Macúria atribuía ao Bacte. Algumas fontes independentes — como a carta de um governador do Egito a um rei macúrio e registros cronísticos de entregas efetivamente realizadas — escapam parcialmente dessa tradição jurídica acumulativa, mas, segundo Spaulding, são insuficientes para reconstruir diretamente a perspectiva núbia sobre o acordo.

A versão mais antiga dos termos do Bacte aparece também em Ibne Abede Aláqueme, que preservou duas tradições contraditórias, ambas atribuídas a um informante chamado Iázide. Na primeira, Iázide afirmava ter lido um documento existente nos arquivos egípcios, mas já destruído quando o historiador escreveu sua obra. Segundo esse suposto texto, redigido no governo de Anre ibne Alás e assinado pelos núbios, estes se comprometiam a não se estabelecer em território islâmico, a devolver escravos e outros fugitivos e a pagar anualmente 360 escravos. Em contrapartida, os muçulmanos limitavam-se a tolerar a existência da Macúria, sem assumir obrigações equivalentes. Spaulding observa que essa tradição apresenta problemas internos. Ela atribui o Bacte ao governo de Anre, embora a própria tradição histórica associe a grande invasão da Núbia e o acordo subsequente ao governo de Abedalá ibne Sade. Além disso, considera pouco plausível que os muçulmanos, depois de não conseguirem vencer em Dongola, tivessem imposto aos núbios um documento composto exclusivamente de concessões unilaterais. Essa tradição, contudo, tornou-se a precursora direta da versão muito mais elaborada apresentada posteriormente por Almacrizi. Na segunda tradição, Iázide afirmava ter recebido suas informações do pai, um núbio capturado e escravizado pelos árabes durante a campanha de 652. Segundo esse relato, nenhum documento foi redigido ou assinado. As partes teriam celebrado apenas uma hudnat amān, uma trégua de segurança ou cessar-fogo, comprometendo-se a não invadir reciprocamente seus territórios. Os núbios entregariam aos muçulmanos certo número de cativos, enquanto estes forneceriam à Macúria uma quantidade determinada de trigo e lentilhas. Para Spaulding, essa versão é compatível com o resultado da campanha. Os macúrios devolveriam, em intervalos negociados, prisioneiros árabes capturados durante a guerra, recebendo em troca uma compensação em alimentos. Nada nessa formulação determinaria que o acordo devesse permanecer em vigor depois de concluídas as trocas relacionadas ao conflito, tampouco estabeleceria uma obrigação permanente de submissão. O autor propõe, assim, que ambas as tradições possam ser historicamente "corretas", desde que entendidas como testemunhos de concepções distintas: a segunda refletiria a compreensão original das autoridades macúrias, enquanto a primeira representaria a interpretação desenvolvida pelos juristas islâmicos do início do período abássida.

Diplomacia e intercâmbio

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