Orientação e Mobilidade (O&M) é um campo interdisciplinar de conhecimento e atuação profissional dedicado ao desenvolvimento de habilidades que permitam às pessoas cegas ou com baixa visão compreender sua posição no espaço e deslocar-se de maneira segura, eficiente e tão independente quanto possível. A orientação relaciona-se à utilização de informações sensoriais, referências ambientais e conceitos espaciais para determinar a posição da pessoa e planejar percursos, enquanto a mobilidade corresponde à capacidade de movimentar-se pelo ambiente.

Os profissionais de O&M podem atuar em escolas, centros de reabilitação visual, instituições especializadas, serviços de saúde, órgãos públicos ou de maneira autônoma. O ensino deve considerar fatores como idade, condição visual, desenvolvimento motor e cognitivo, presença de outras deficiências, ambiente de residência, rotina e objetivos pessoais. Nos Estados Unidos, a Academy for Certification of Vision Rehabilitation and Education Professionals (ACVREP) oferece certificação para profissionais de reabilitação visual e orientação e mobilidade.

Conceitos e objetivos

O ensino de orientação e mobilidade procura ampliar a autonomia, a segurança e a participação social da pessoa com deficiência visual. Durante a aprendizagem, são trabalhados conceitos corporais, espaciais, temporais e ambientais, como lateralidade, direção, distância, forma, textura, posição, pontos cardeais e relações entre objetos. Também são desenvolvidas habilidades para reconhecer pistas auditivas, táteis, olfativas, cinestésicas e visuais remanescentes, utilizadas na identificação de locais e na manutenção de uma rota. Os objetivos são definidos individualmente e podem compreender o deslocamento em ambientes domésticos, escolares, profissionais e urbanos; a utilização de escadas, elevadores e transportes públicos; a localização de entradas, corredores e pontos de referência; o planejamento de trajetos; e a travessia de ruas. A orientação e mobilidade não elimina as barreiras arquitetônicas e urbanísticas, mas fornece estratégias para que a pessoa interaja com o ambiente e tome decisões durante seus deslocamentos.

A aquisição dessas habilidades pode contribuir para a autoconfiança, a integração social, o acesso à educação, ao trabalho e às atividades cotidianas. Estudos brasileiros também relacionam a independência locomotora ao fortalecimento da autoestima e à ampliação das oportunidades de participação social.

Técnicas e recursos

As técnicas tradicionais de orientação e mobilidade incluem a condução por guia humano, anteriormente denominada «guia vidente», as técnicas de autoproteção e o uso da bengala longa. Na condução por guia humano, a pessoa com deficiência visual segura o braço do guia e acompanha seus movimentos. As técnicas de autoproteção permitem detectar ou evitar obstáculos, localizar objetos e movimentar-se em ambientes conhecidos sem o auxílio constante de outra pessoa. A bengala longa é utilizada para detectar mudanças na superfície, degraus, desníveis e obstáculos localizados no percurso. Seu ensino compreende técnicas de empunhadura, exploração, varredura, subida e descida de escadas, passagem por portas, localização de referências e circulação em áreas internas e externas. Além de auxiliar a locomoção, a bengala identifica socialmente seu usuário como pessoa com deficiência visual.

Outros recursos podem integrar o programa, como mapas e plantas táteis, pisos direcionais e de alerta, sistemas de posicionamento, aplicativos de navegação, dispositivos eletrônicos de detecção de obstáculos e o cão-guia. Esses recursos não substituem necessariamente a bengala ou as habilidades de orientação, podendo ser utilizados de maneira combinada conforme as necessidades, preferências e condições ambientais do usuário.

História

Embora instrumentos semelhantes a bastões sejam utilizados há séculos por pessoas cegas, a orientação e mobilidade como campo sistematizado desenvolveu-se principalmente após a Segunda Guerra Mundial. O aumento do número de militares que perderam a visão em combate levou à criação de programas específicos de reabilitação nos Estados Unidos. No Valley Forge General Hospital, o médico oftalmologista Richard E. Hoover e outros profissionais estudaram a marcha de veteranos cegos e aperfeiçoaram a utilização de uma bengala longa e leve, dando origem à chamada técnica de Hoover.

Os soldados cegados em combate eram inicialmente encaminhados ao Valley Forge General Hospital e, posteriormente, ao centro de convalescença instalado em Avon Old Farms, no estado de Connecticut. A experiência realizada com os veteranos contribuiu para o estabelecimento de métodos profissionais de ensino e para a difusão da bengala longa.

Na década de 1960, universidades norte-americanas passaram a organizar programas de formação de especialistas que atuariam com adultos e crianças em idade escolar. Na década de 1980, os serviços foram ampliados para crianças em idade pré-escolar. Posteriormente, desenvolveram-se abordagens destinadas à primeira infância, nas quais a orientação e mobilidade pode começar por meio da exploração corporal e sensorial antes do uso formal da bengala.

No Brasil

No Brasil, a orientação e mobilidade desenvolveu-se nos campos da educação especial, da habilitação e da reabilitação de pessoas com deficiência visual. O Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, tornou-se uma das instituições de referência na formação, no atendimento e na produção de materiais sobre o tema. As atividades brasileiras de O&M são realizadas tanto em contextos escolares quanto em centros de reabilitação e programas voltados a adultos que adquiriram cegueira ao longo da vida.

Em 2003, o Ministério da Educação publicou Orientação e mobilidade: conhecimentos básicos para inclusão da pessoa com deficiência visual, obra coordenada por Maria Glória Batista da Mota. O livro propõe um programa sequencial de ensino e apresenta conteúdos sobre desenvolvimento infantil, formação de conceitos, utilização dos sentidos remanescentes, técnicas com guia humano, autoproteção e bengala longa. Em 2010, o Ministério da Educação e a Universidade Federal do Ceará publicaram o fascículo Orientação e mobilidade, adequação postural e acessibilidade espacial, integrante da coleção A educação especial na perspectiva da inclusão escolar. A publicação relaciona a mobilidade individual às condições de acessibilidade da escola e dos demais espaços sociais. Em 2022, o Grupo de Estudos e Pesquisa em Orientação e Mobilidade do Instituto Benjamin Constant publicou Rompendo barreiras, guia que reúne orientações práticas, fundamentos históricos, técnicas, recursos de tecnologia assistiva e experiências de profissionais e usuários. A obra foi disponibilizada em formato digital e em versões acessíveis pelo instituto.

Formação profissional e pesquisa

A atuação profissional em orientação e mobilidade exige conhecimentos sobre deficiência visual, desenvolvimento humano, anatomia e movimento, percepção sensorial, acessibilidade, tecnologia assistiva e condições psicológicas e sociais relacionadas à perda da visão. O profissional deve avaliar as necessidades do aluno ou usuário, elaborar um programa individualizado, ensinar as técnicas em situações progressivamente mais complexas e acompanhar a aplicação das habilidades em ambientes reais. No ambiente escolar, o trabalho pode envolver a colaboração com professores, familiares, profissionais do atendimento educacional especializado, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outros integrantes da equipe educacional. Na primeira infância, parte da intervenção pode ocorrer indiretamente, por meio de orientações à família e aos educadores para que estimulem a exploração segura do espaço, o desenvolvimento motor e a formação de conceitos.

Um mapeamento da produção científica brasileira publicada entre 2006 e 2020 examinou 1 695 artigos de periódicos da área de educação especial e identificou somente dez estudos que atendiam aos critérios relacionados à orientação e mobilidade. Os autores apontaram uma concentração das pesquisas na Região Sudeste e lacunas referentes à formação profissional, à reabilitação, à surdocegueira e às pessoas com deficiências múltiplas.

Ver também

Acessibilidade Baixa visão Bengala branca Cão-guia Cegueira Deficiência visual Piso tátil Tecnologia assistiva

Bibliografia complementar

Ligações externas

Orientação e mobilidade: conhecimentos básicos para a inclusão da pessoa com deficiência visual — Ministério da Educação Rompendo barreiras: guia prático de Orientação e Mobilidade — Instituto Benjamin Constant Mapeamento da produção brasileira sobre orientação e mobilidade — revista Benjamin Constant Autoestima a partir do caminhar — revista Benjamin Constant

Categoria:Deficiência