Edifício-quarteirão, também grafado edifício quarteirão, é uma tipologia arquitectónica e urbana em que um edifício, conjunto edificado ou operação arquitectónica assume a escala, a forma ou os limites de um quarteirão urbano. Em geral, corresponde a uma massa edificada contínua, alinhada pelas ruas envolventes, frequentemente organizada em torno de um ou mais pátios interiores.
O conceito situa-se entre a escala do edifício e a escala do desenho urbano. Ao contrário de um edifício isolado, o edifício-quarteirão participa directamente na definição das ruas, esquinas e espaços públicos envolventes; ao contrário do quarteirão comum, pode resultar de uma única operação arquitectónica, de um proprietário único ou de um programa unitário.
Conceito
A noção de edifício-quarteirão está ligada à relação entre arquitectura e urbanismo. Num quarteirão urbano tradicional, vários lotes e edifícios podem compor uma frente contínua de rua. No edifício-quarteirão, essa lógica é frequentemente condensada numa unidade arquitectónica mais coesa, cuja implantação ocupa grande parte ou a totalidade da parcela delimitada pelas ruas.
Em estudos sobre urbanismo formal, o edifício-quarteirão é descrito como um edifício dotado de pátios internos e cujos limites coincidem com os limites da parcela. Nessa leitura, aproxima-se do edifício-pátio e da ocupação perimetral, mantendo a capacidade de definir ruas e espaços públicos pela continuidade das fachadas.
A expressão pode ser usada em sentido estrito, para designar um edifício único que ocupa um quarteirão inteiro, ou em sentido mais amplo, para indicar uma operação arquitectónica que reorganiza um quarteirão urbano como unidade formal e funcional.
Características
Entre as características frequentemente associadas ao edifício-quarteirão estão a ocupação perimetral do lote, o alinhamento das fachadas pelos arruamentos, a valorização das esquinas, a existência de pátios ou vazios interiores, e a conjugação de vários acessos e programas num mesmo conjunto edificado.
Nas suas formas mais próximas do quarteirão perimetral, a tipologia concentra a edificação nas margens públicas do quarteirão, reforçando a definição das ruas e distinguindo os espaços públicos exteriores dos espaços interiores, que podem ter carácter privado, semiprivado ou colectivo. Em contextos residenciais, essa solução pode produzir densidades urbanas elevadas, mantendo a continuidade da rua e permitindo a existência de pátios, jardins ou áreas comuns no interior do quarteirão.
Relação com o quarteirão urbano
O edifício-quarteirão distingue-se do quarteirão enquanto simples porção da cidade delimitada por ruas. O quarteirão é uma unidade do tecido urbano; o edifício-quarteirão é uma solução arquitectónica ou morfológica que toma essa unidade como suporte ou escala de projecto.
A distinção é particularmente importante em estudos de morfologia urbana. Um quarteirão pode ser composto por vários edifícios independentes, de épocas, proprietários e programas diferentes. O edifício-quarteirão, por sua vez, tende a apresentar maior unidade compositiva, construtiva ou funcional, ainda que possa conter usos diversos, como habitação, comércio, serviços, equipamentos ou estacionamento.
Tipologias relacionadas
O edifício-quarteirão relaciona-se com outras formas urbanas, como o edifício-pátio, o quarteirão fechado, o quarteirão perimetral e o perimeter block da literatura anglófona. No urbanismo europeu, o quarteirão perimetral define a rua por meio de frentes edificadas contínuas e separa o domínio público da rua do espaço interior do quarteirão.
A literatura sobre desenho urbano usa também a expressão inglesa perimeter block para designar uma forma urbana em que os edifícios se dispõem ao longo do perímetro do quarteirão. Esse modelo é descrito como componente recorrente de cidades europeias, com forma compacta e capacidade de alcançar densidades urbanas relativamente elevadas.
Em estudos brasileiros de morfologia urbana, o edifício quarteirão com pátio central aparece como uma das tipologias de relação entre edifício e quarteirão. Segundo a arquitecta Helena Ayoub Silva, essa categoria reúne projectos em que a matriz tradicional de ocupação do quarteirão é predominante, com edifícios contínuos, faceados nos limites dos lotes e com profundidades ajustadas para formar pátios internos legíveis.
Exemplos
Em Portugal, um exemplo frequentemente identificado como edifício-quarteirão é o Palácio do Comércio, no Porto. Projectado por Maria José Marques da Silva e David Moreira da Silva, o edifício ocupa o quarteirão delimitado pelas ruas de Sá da Bandeira, Fernandes Tomás, Bolhão e Firmeza, tendo sido concebido para habitação, comércio e serviços.
Também no Porto, o chamado Edifício Quarteirão Conde de Vizela, da autoria de José Marques da Silva, é referido pela Fundação Marques da Silva como edifício-quarteirão situado no cunhal entre a Rua de Cândido dos Reis e a Rua das Carmelitas.
Outro caso português em que o termo é usado é a remodelação do edifício-sede do Banco de Portugal, em Lisboa, projectada por Gonçalo Byrne Arquitectos e João Pedro Falcão de Campos, na qual o conceito de edifício-quarteirão é referido a propósito da integração da antiga igreja de São Julião no conjunto arquitectónico.
Importância urbana
O edifício-quarteirão pode ter papel estruturante na cidade, pois actua simultaneamente como arquitectura e como elemento de desenho urbano. Pela sua escala e continuidade, contribui para a definição de alinhamentos, frentes de rua, esquinas, pátios e relações entre espaço público e privado.
Em operações de renovação urbana, a tipologia permite substituir ou reorganizar parcelas existentes por uma composição unitária, podendo acolher programas mistos e reforçar a centralidade de determinadas áreas. Ao mesmo tempo, a sua grande escala pode produzir efeitos de monumentalidade, concentração funcional ou ruptura com a malha parcelar anterior, dependendo do contexto urbano e da solução arquitectónica adoptada.
Categoria:Tipologias arquitetónicas Categoria:Urbanismo Categoria:Morfologia urbana Categoria:Elementos urbanos