A emigração de cubanos entre a Revolução Cubana de 1959 e outubro de 1962 foi apelidada de exílio dourado e é considerada a primeira onda migratória do amplo êxodo pós-revolução. O êxodo de 1959 a 1962 foi chamado de "exílio dourado" devido ao caráter predominantemente de classe alta e média dos emigrantes. Após o sucesso da revolução, vários cubanos que haviam se aliado ou trabalhado para o deposto regime de Batista fugiram do país. Mais tarde, à medida que o governo de Fidel Castro começou a nacionalizar indústrias, muitos profissionais cubanos também deixariam a ilha. Esse período do exílio cubano também é chamado de exílio histórico, principalmente por aqueles que emigraram nessa época.

História 1959–1960

Os primeiros a emigrar após a revolução foram aqueles associados ao antigo regime de Batista ou que haviam trabalhado para ele. A embaixada dos Estados Unidos em Havana e o consulado em Santiago concediam regularmente vistos aos cubanos que desejavam partir.

Em meados de 1959, várias novas políticas haviam afetado a vida cubana, como a redistribuição de propriedades, a nacionalização de escolas religiosas e privadas e a proibição de clubes sociais racialmente exclusivos. Os que começaram a deixar a ilha foram motivados pelos efeitos negativos das novas políticas econômicas, pela aversão às novas escolas públicas nacionais ou pela apreensão diante da integração racial apoiada pelo governo. O governo rapidamente passou a rotular os exilados como "racistas", desencorajando os afro-cubanos a também emigrarem. Essas condições fizeram com que a maioria dos emigrantes fosse de classe alta ou média, branca e católica. Muitos emigrantes de classe média eram profissionais ligados a empresas estadunidenses que foram nacionalizadas.

Muitos dos emigrantes acreditavam que em breve retornariam a Cuba, pois esperavam que os Estados Unidos logo interviessem e derrubassem o governo de Fidel Castro. Alguns dos exilados nos Estados Unidos organizaram uma resistência militante contra o governo de Fidel Castro.

O censo dos Estados Unidos de 1960 registrou mais de 124 000 cubanos no país. Em resposta ao êxodo, o governo estadunidense criou programas para fornecer serviços sociais e recursos aos cubanos recém-chegados.

A saída de muitos trabalhadores qualificados após a revolução provocou uma "fuga de cérebros". A perda de profissionais capacitados impulsionou uma reformulação do sistema educacional cubano, a fim de formar novos profissionais que substituíssem os que haviam emigrado.

1961

Em 3 de janeiro de 1961, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com Cuba; a partir de então, os emigrantes passaram a obter vistos por razões humanitárias e, ao chegar aos Estados Unidos, podiam solicitar liberdade condicional e obter o status de refugiado.

Em abril de 1961, a Invasão da Baía dos Porcos, composta por muitos exilados cubanos militantes e antifidelistas, fracassou na tentativa de tomar Cuba. Depois disso, aqueles que optavam por emigrar passaram a encarar sua decisão como definitiva. Fidel Castro passou então a chamar os que partiam de gusanos (vermes).

A crescente controvérsia em Cuba em torno da nacionalização das escolas católicas levou ao desenvolvimento da Operação Peter Pan, destinada a transferir crianças para os Estados Unidos.

1962 Durante a Crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962, as viagens entre os Estados Unidos e Cuba foram restringidas. A partir de então, a emigração cubana passou a ocorrer em embarcações improvisadas que deixavam Cuba ilegalmente. De 1959 até o fim das viagens livres, em 1962, cerca de 250 000 cubanos deixaram a ilha.

Características Demografia O pesquisador Jorge Duany afirma que a maioria dos exilados era urbana, de meia-idade, com bom nível de instrução, de pele clara e trabalhadores de colarinho-branco, que emigraram principalmente por motivos religiosos ou políticos. Ele também sustenta que, enquanto os primeiros emigrantes partiram por serem antigos batistianos, os seguintes saíram por desilusão com o novo governo e porque as reformas econômicas e a nacionalização de empresas estadunidenses haviam prejudicado suas profissões. Os pesquisadores Irving Louis Horowitz e Jaime Suchlicki afirmam que cerca de metade dos que emigraram até a segunda onda eram trabalhadores braçais, muitos deles agricultores e pescadores. Eles também propõem que muitos partiram por causa do novo sistema de racionamento de Cuba e do serviço militar obrigatório.

Horowitz e Suchlicki afirmam que, embora a maioria dos emigrantes não participasse de movimentos militantes, a maior parte os apoiava financeiramente, até se desiludir com os fracassos desses movimentos.

Processo de emigração Os cubanos que solicitavam permissão de saída eram demitidos caso trabalhassem para uma empresa estatal. Funcionários dos Comitês de Defesa da Revolução faziam um inventário de todos os bens do requerente; uma vez inventariados, o requerente não podia vender nem doar nenhum de seus bens. Todas as propriedades e o dinheiro eram confiscados no momento da saída do país, e a maioria dos exilados partia apenas com uma mala de roupas. Em 1960, os Estados Unidos haviam criado o Centro de Emergência para Refugiados Cubanos, que fornecia aos exilados alimentos, dinheiro, roupas, assistência médica, educação para adultos e passagens aéreas para localidades com organizações humanitárias que acolhiam os recém-chegados.

Nos Estados Unidos, muitos exilados passaram a exercer trabalhos braçais. A maioria, antes notavelmente abastada, tornou-se majoritariamente de classe média ou baixa. Em Miami, a discriminação contra os imigrantes cubanos ainda era comum, e muitos eram impedidos de alugar determinados imóveis ou de se filiar a sindicatos. Essa discriminação contribuiu para a formação da comunidade cubana da Pequena Havana, onde os cubanos podiam permanecer próximos a igrejas e escolas católicas que ofereciam ajuda beneficente. Muitos exilados conseguiram utilizar as qualificações profissionais que já possuíam para, com o tempo, melhorar suas ocupações e contribuir para a construção do enclave empresarial cubano de Miami.

Legado Desejo de retorno Entre os muitos exilados que chegaram logo após 1959, grande parte considerava seu exílio temporário, pois acreditava que o governo de Castro estava fadado a cair em breve. Acreditava-se que, uma vez derrubado o governo de Castro, os exilados retornariam a Cuba e retomariam a vida que levavam antes da Revolução Cubana.

Ao longo da década de 1960, reforçando a percepção de um exílio temporário, muitos emigrantes cubanos procuraram preservar sua identidade cubana abrindo instituições de ensino cubanas para seus filhos no exílio. Com o cancelamento dos Voos da Liberdade na década de 1970 e a chegada de emigrantes cubanos no Êxodo de Mariel, em 1980, ocorreu uma mudança na autopercepção dos exilados cubanos. Crescia a sensação de que o governo de Castro sobreviveria a longo prazo e de que sua residência fora de Cuba também seria duradoura. Essa mudança trouxe um maior envolvimento na política estadunidense e a consolidação do distrito comercial cubano na Pequena Havana.

Identidade do "exílio dourado" A chamada Cuban success story ("história de sucesso cubana"), por vezes também referida como o "mito do exílio dourado", é a ideia de que os exilados cubanos que chegaram aos Estados Unidos após a Revolução Cubana de 1959 eram majoritária ou exclusivamente exilados políticos brancos, em grande parte conservadores e financeiramente bem-sucedidos. A ideia ganhou força a partir da década de 1960 por meio de histórias de ascensão social de exilados cubanos na imprensa dos Estados Unidos e passou a ser amplamente difundida dentro da comunidade cubano-americana.

A identidade de "exílio dourado" tem sido usada em círculos cubano-americanos para distinguir os cubano-americanos vistos como racialmente brancos e portadores de valores conservadores daqueles que chegaram posteriormente no exílio cubano e que podem ter pele mais escura. O termo "exílio dourado" também tem sido empregado em debates sobre imigração para glorificar os imigrantes cubanos como refugiados políticos anticomunistas e membros produtivos da classe média. O termo gerou controvérsia devido a estatísticas que contradizem essa imagem.

O mito da "Cuba de ayer" 230px|thumb|Banda cubana vestindo trajes tradicionais cubanos em um bar na Pequena Havana. Essa primeira onda de emigrantes de classe alta, nos anos imediatamente posteriores à Revolução Cubana, deixou a ilha levando apenas lembranças da Cuba da era de Fulgencio Batista. Essas lembranças deram origem à imagem idealizada da Cuba de ayer ("Cuba de ontem", em português). Os exilados cubanos que chegaram logo após a revolução ficaram, em grande parte, chocados com o racismo estadunidense, cuja expressão diferia da do racismo cubano. Em Cuba não existia segregação racial formal de jure. As manifestações sociais de racismo existentes em Cuba eram muitas vezes ignoradas ou desconhecidas pelos emigrados brancos de classe alta que chegavam a Miami. A visão da segregação racial formal no sul dos Estados Unidos reforçou, entre os exilados cubanos, a ideia de que a Cuba de ayer era livre de racismo, ao contrário dos Estados Unidos.

A reconstrução, pelos exilados em Miami, de empresas e organizações sociais proibidas em Cuba reafirmou as lembranças da idílica Cuba de ayer. Essa reconstrução resultou do enfraquecimento da esperança de retornar a uma Cuba sem Fidel Castro no poder, o que levou os exilados cubanos a moldar suas comunidades à imagem da Cuba de ayer. A mais notável dessas comunidades é o bairro da Pequena Havana, em Miami. A Pequena Havana tornou-se um epicentro da vida cubana em Miami, sobretudo pelo número de instituições pertencentes a cubanos e moldadas pela nostalgia da Cuba de ayer.

Ver também Balseros

Referências

Categoria:Relações entre Cuba e Estados Unidos Categoria:Cubanos expatriados Categoria:1959 em Cuba Categoria:1961 nos Estados Unidos Categoria:1961 em Cuba Categoria:1960 nos Estados Unidos Categoria:Diáspora cubana Categoria:1960 em Cuba Categoria:1959 nos Estados Unidos Categoria:1962 em Cuba Categoria:1962 nos Estados Unidos