miniatura|Retratos de Sula (à direita) e de Pompeu Rufo (à esquerda), os dois cônsules que lideraram a marcha, em um denário cunhado por seu neto em 54 a.C.Crawford, Roman Republican Coinage, pp. 456–457.

A Marcha sobre Roma de 88 a.C. foi um golpe de Estado perpetrado pelo cônsul da República Romana Lúcio Cornélio Sula, que tomou o poder contra seus inimigos políticos Caio Mário e Públio Sulpício Rufo, após estes o terem expulsado de Roma. Foi a primeira vez na história de Roma em que um general ordenou que seu próprio exército marchasse contra a República.

Em 88 a.C., Sula foi eleito cônsul e recebeu o comando militar da guerra contra o rei do Ponto, Mitrídates VI Eupátor, que invadira recentemente a província romana da Ásia. No mesmo ano, Sula e seu colega de consulado, Quinto Pompeu Rufo, opuseram-se à tentativa do tribuno da plebe Públio Sulpício de alistar nas tribos tradicionais os italianos que haviam recebido a cidadania romana ao final da Guerra Social (91–87 a.C.). Para contornar a oposição dos cônsules, Sulpício buscou o apoio do popular general Caio Mário, que já exercera o consulado por seis vezes. Em troca de seu auxílio, Mário exigiu que Sulpício aprovasse uma lei transferindo o comando militar da campanha contra Mitrídates de Sula para si. Recorrendo a bandos armados para intimidar a assembleia tribal, Sulpício cassou o consulado de Pompeu Rufo e forçou Sula a fugir de Roma, após o que registrou os italianos e transferiu o comando da guerra mitridática para Mário.

Enquanto isso, Sula retornara para junto das legiões que reunira na Campânia para a expedição contra Mitrídates. Ele convenceu seus soldados a segui-lo em uma operação de força contra Mário e Sulpício. Acompanhado por Pompeu Rufo, Sula marchou sobre Roma e derrotou facilmente a milícia improvisada arregimentada por seus opositores. Em seguida, Sula aprovou uma resolução declarando Sulpício, Mário e outros dez líderes como inimigos públicos (hostes), autorizando e recompensando seu assassinato. Apenas Sulpício foi capturado e executado; Mário e os demais conseguiram escapar para a África e a Hispânia. Tendo assegurado o controle militar de Roma, Sula iniciou uma profunda revisão da constituição da República Romana de acordo com suas rígidas convicções conservadoras. Ele aprovou leis que enfraqueceram as prerrogativas dos tribunos da plebe, enquanto reforçavam os poderes dos magistrados curuis e do Senado, cujo número de membros foi duplicado.

A ordem estabelecida por Sula, contudo, teve curta duração. Primeiramente, seus candidatos preferidos foram derrotados nas eleições consulares para 87 a.C. Posteriormente, logo que Sula partiu para o Oriente para combater Mitrídates, seus adversários reagruparam-se em torno do cônsul de 87 a.C. Lúcio Cornélio Cina, que igualmente marchou sobre Roma contra o outro cônsul durante o confronto denominado Bellum Octavianum. Cina revogou o banimento dos proscritos, incluindo Mário, anulou todas as leis aprovadas por Sula e retomou o programa legislativo de Sulpício. O confronto decisivo entre as duas facções eclodiu em 83 a.C., quando Sula regressou da Grécia, dando início à guerra civil vencida pelas forças silanas. Subsequentemente, Sula autoproclamou-se ditador e restabeleceu suas reformas legislativas anteriores.

Contexto miniatura|Busto de Mitrídates VI preservado no Museu do Louvre Sula era um político ambicioso que conquistara notoriedade militar por meio de manobras arrojadas, tais como a captura de Jugurta durante a Guerra de Jugurta e sua atuação na Batalha de Vercelas durante a Guerra Címbrica.Gruen, Roman Politics, p. 197. Ele foi eleito pretor em 97 a.C. e partiu em seguida como propretor para a Capadócia, com a missão de entronizar Ariobarzanes no trono daquele reino.Badian, Studies, p. 284.Cagniart, L. Cornelius Sulla in the Nineties, pp. 286, 287. Ao retornar a Roma, foi acusado de corrupção por Caio Márcio Censorino, possivelmente agindo em nome de Caio Mário, seu antigo comandante militar.Gruen, Roman Politics, p. 198, que não menciona diretamente Mário, mas observa que o julgamento atrasou a carreira de Sula.Reams, Censorinus, Sulla, and Marius, pp. 281–288, considera que Mário não teve relação com este processo.Cagniart, L. Cornelius Sulla in the Nineties, p. 291. Sula então desaparece dos registros das fontes históricas por cinco anos, talvez por considerar que não tinha perspectivas imediatas de alcançar o consulado.Cagniart, L. Cornelius Sulla in the Nineties, pp. 302, 303; este período da vida de Sula tem atraído diversas hipóteses historiográficas. Ele ressurge em 90 a.C. como legado durante a Guerra Social, combatendo os antigos aliados itálicos de Roma. Essa guerra foi particularmente árdua para a República, exigindo até quinze legiões na península Itálica para conter a revolta. Combatendo no teatro sul de operações, Sula foi um dos dois generais principais que venceram o conflito, conquistando a extrema lealdade e devoção de suas tropas.Gruen, Roman Politics, pp. 222, 223; o outro general fora Cneu Pompeu Estrabão. Sua habilidade foi reconhecida pela prestigiosa família dos Cecílios Metelos, que selou uma aliança política por meio de seu casamento com Cecília Metela. Esse poderoso respaldo aristocrático, somado ao seu renome nas armas, garantiu sua eleição ao consulado em dezembro de 89 a.C. para o exercício do mandato no ano de 88 a.C.Luce, Marius, p. 190, sugere que as eleições possam ter ocorrido após 25 de dezembro de 89 a.C.Gruen, Roman Politics, pp. 223, 224.Cagniart, L. Cornelius Sulla in the Nineties, pp. 299–302. O outro cônsul eleito era seu amigo Quinto Pompeu Rufo, cujo filho casou-se com a filha de Sula.Gruen, Roman Politics, p. 224.

Ao assumir a magistratura, Sula recebeu o comando da guerra contra o rei do Ponto, Mitrídates VI, que se aproveitara das turbulências da Guerra Social para invadir possessões romanas no Oriente grego.Gruen, Roman Politics, pp. 224, 226, afirma que Sula recebeu o comando do Senado.Katz, "Studies", p. 497, segue Gruen.Konrad, "From the Gracchi", p. 179, sustenta que Sula obteve a província por sorteio. Um comando no Oriente era cobiçado pela elite política romana, tendo em vista as imensas riquezas e despojos de guerra que proporcionaria ao general vitorioso.Badian, Foreign Clientelae, p. 230. Essa campanha afigurava-se tão lucrativa que dois postulantes legalmente inelegíveis tentaram forçar suas candidaturas nas eleições consulares: Caio Júlio César Estrabão e Cneu Pompeu Estrabão.Seager, "Sulla", pp. 165, 166; César Estrabão não exercera a pretura e Pompeu Estrabão já era o cônsul em exercício em 89 a.C.Levick, "Sulla's March", p. 507, sugere que a candidatura de César Estrabão foi motivada por sua oposição à lei itálica de Sulpício.Luce, "Marius", p. 190, sustenta que Pompeu Estrabão pretendia a reeleição para manter a imunidade contra processos judiciais.Bispham, From Asculum to Actium, p. 179.Tatum, "88 BCE", pp. 556, 557. miniatura|Representação artística moderna de Sula buscando refúgio na casa de Caio Mário, por Benjamin Ulmann (c. 1866), no Museu de Orsay, em Paris Sula enfrentou outro obstáculo representado por Públio Sulpício Rufo, tribuno da plebe naquele mesmo ano. Sulpício pretendia aprovar uma lei em benefício dos italianos que haviam recebido a cidadania em 90 a.C. por força da lex Julia, mas que ainda não haviam sido formalmente registrados nas tribos romanas. Seu projeto de lei distribuía os novos cidadãos itálicos, bem como os libertos, uniformemente entre as 35 tribos romanas, medida que alteraria de maneira decisiva o colégio eleitoral da República.Tatum, "88 BCE", pp. 556–560. Orador influente e político combativo, Sulpício fora inicialmente amigo do cônsul Pompeu Rufo e desempenhara papel fundamental ao barrar a pretensão eleitoral de César Estrabão contra Sula, possivelmente na expectativa de assegurar a complacência deste em relação ao projeto itálico.Seager, "Sulla", p. 167.Tatum, "88 BCE", p. 557. Sulpício, todavia, equivocou-se; ambos os cônsules posicionaram-se categoricamente contra a distribuição dos itálicos nas tribos tradicionais (Sula e a facção aristocrática preferiam concentrar os italianos em poucas tribos separadas, de modo a garantir que os antigos cidadãos retivessem o controle da maioria das tribos).Tatum, "88 BCE", p. 560. Determinado a não recuar, Sulpício buscou o apoio de Mário.Keaveney, Sulla, p. 47. A exemplo de outros líderes da época, o veterano general — seis vezes cônsul e imensamente prestigiado entre os cavaleiros (equites) e a nobreza itálica — desejava obter o comando da guerra contra Mitrídates, além de alimentar antigas rivalidades contra Sula.Luce, Marius, pp. 162–168; Mário realizara previamente uma viagem à Ásia, com o propósito explícito, segundo Luce, de provocar atritos com Mitrídates e justificar um comando militar. Em contrapartida ao apoio para aprovar a lei dos italianos, Mário exigiu que Sulpício aprovasse uma lei transferindo a campanha mitridática de Sula para si.Badian, Foreign Clientelae, pp. 231–234.Seager, "Sulla", p. 168. Essa aliança estabeleceu-se provavelmente entre abril e maio de 88 a.C.Luce, Marius, p. 194.

Sulpício formou uma guarda pessoal com 600 jovens cavaleiros e arregimentou um bando armado de 3.000 homens, provavelmente para evitar o desfecho trágico de tribunos revolucionários antecedentes — como os irmãos Graco e Lúcio Apuleio Saturnino — e intimidar as assembleias legislativas.Tatum, "88 BCE", p. 561. Diante das tensões, os cônsules Sula e Pompeu Rufo proclamaram a suspensão geral dos atos públicos e das sessões legislativas (justitium) para impedir a votação da lei de Sulpício. Em represália, Sulpício incitou motins violentos que resultaram no assassinato do filho de Pompeu Rufo e forçaram Sula a se abrigar na própria residência de Mário. Este último aparentemente negociou a saída segura do cônsul sob a condição de que o justitium fosse revogado, o que permitiria a votação das propostas de Sulpício. Mário permitiu igualmente que Sula deixasse a cidade a fim de retomar as operações no cerco de Nola, na Campânia, um dos últimos redutos insurgentes da Guerra Social.Keaveney, Sulla, p. 48.Tatum, "88 BCE", p. 562. Livre da interferência consular, Sulpício aprovou o alistamento dos itálicos e submeteu a plebiscito a destituição de Sula e a entrega do comando oriental a Mário, proposta mantida em segredo até então.Seager, "Sulla", pp. 168, 169.Hinard, Sullana, p. 28. Sulpício decretou ainda a deposição do segundo cônsul, Pompeu Rufo, embora uma minoria de historiadores questione essa medida específica.Keaveney, Sulla, pp. 49, 50, duvida que Pompeu Rufo tenha sido formalmente deposto.Tatum, "88 BCE", p. 562, rejeita a deposição de Pompeu Rufo. Essas leis romperam preceitos constitucionais fundamentais; a maior violação consistiu em transferir um comando militar consular atribuído regularmente pelo Estado a um cidadão comum (privatus) desprovido de qualquer magistratura em exercício, ato que carecia de qualquer precedente histórico.Santangelo, Sulla, the Elites and the Empire, p. 6.Morstein-Marx, Consuls, p. 263.Federico Santangelo, "La marcia su Roma dell'88 A.C.", in Schettino & Zecchini (eds.), L'età di Silla, p. 193.

Marcha sobre Roma miniatura|Denário cunhado por Lúcio Emílio Buca em 44 a.C. O anverso retrata Vênus, protetora de Sula; o reverso exibe o sonho alegórico de Sula antes de sua entrada em Roma.Crawford, Roman Republican Coinage, pp. 487, 492, 493.