Ismail ibne Isaque Aljadami (; Baçorá, 199 ou 200 A.H. / 815 ou 816 – Baguedade, 22 de Dulrija de 282 A.H. / ), mais conhecido como Aljadami, foi um cádi, tradicionalista, jurista maliquita e estudioso das recitações corânicas do Califado Abássida. Descendente de uma família de estudiosos e bisneto de Hamade ibne Zaíde, formou-se em jurisprudência e hádice em Baçorá antes de se estabelecer em Baguedade. Tornou-se uma das principais autoridades maliquitas de seu tempo e desempenhou papel importante na difusão e consolidação dessa escola jurídica no Iraque, sendo também reputado como transmissor confiável de hádices.
Aljadami desenvolveu paralelamente uma longa carreira na magistratura abássida. Nomeado em 860 cádi da parte oriental de Baguedade, exerceu funções judiciais, com uma breve interrupção, durante os califados de Almotauaquil, Almutadi e Almutâmide, tornando-se em 876 cádi de toda a cidade e permanecendo no cargo até sua morte. Sua atuação não se limitou à administração da justiça: participou de missões diplomáticas em nome do califado, entre elas delegações enviadas ao emir safárida Iacube ibne Alaite. Sua posição como jurista foi acompanhada por amplo conhecimento de hádice, língua árabe e recitações corânicas, áreas nas quais ensinou numerosos estudiosos da geração seguinte.
Autor prolífico, Aljadami escreveu obras sobre jurisprudência, ciências corânicas, hádice, recitações e controvérsia jurídica. Entre os trabalhos que lhe são atribuídos figuram o Aḥkām al-Qurʾān, obras dedicadas às tradições de Maleque ibne Anas e Aiube Açaquetiani, o Kitāb al-Qirāʾāt e tratados de defesa das posições maliquitas contra outras escolas jurídicas. Apenas parte de sua produção chegou à atualidade, mas as notícias preservadas sobre seus escritos evidenciam a amplitude de seus interesses e sua importância para o desenvolvimento da tradição maliquita no ambiente intelectual iraquiano do .
Vida
Ismail ibne Isaque nasceu em Baçorá em 199 A.H. (815) ou 200 A.H. (816). Pertencia aos azeditas e ficou conhecido pela nisba Aljadami em referência ao bairro de Baçorá no qual se haviam estabelecido os , um ramo da tribo. Era membro de uma família que produziu numerosos estudiosos durante aproximadamente três séculos, desde seu bisavô Hamade ibne Zaíde (m. 179 A.H./795) até (m. 526 A.H./1131). Aljadami interessou-se pelos estudos religiosos desde jovem. Aprendeu jurisprudência com e hádice com Ali ibne Almadini. Também transmitiu tradições de numerosos estudiosos, entre os quais , , , Solimão ibne Harbe e seu próprio pai, Isaque ibne Ismail. Posteriormente, Aljadami estabeleceu-se em Baguedade, onde desenvolveu grande parte de sua carreira. Numerosos estudiosos transmitiram hádices sob sua autoridade, entre eles , Anaçai, , , , , e . Sua longevidade também contribuiu para sua importância como tradicionalista, pois estudantes de hádice de sua época o procuravam para obter transmissões com cadeias de autoridades relativamente curtas.
Durante o califado de Almotauaquil , Aljadami foi nomeado em 860 cádi da parte oriental de Baguedade. Permaneceu no cargo até 869, quando foi destituído pelo califa Almutadi . No ano seguinte, Almutâmide restituiu-lhe a função. Em 872, por solicitação própria, foi transferido para o posto de cádi da parte ocidental da cidade e, quatro anos depois, recebeu jurisdição sobre toda Baguedade, cargo que conservou até sua morte. Além das funções judiciais, participou de missões diplomáticas em nome do califado. Integrou em 870 e 875 delegações enviadas ao emir safárida Iacube ibne Alaite e, também em 875, foi enviado a , que havia conquistado a região de Pérsis, para negociar a libertação de , governador de Avaz que fora feito prisioneiro. A maioria das fontes situa a morte de Aljadami em 22 de Dulrija de 282 A.H. (11 de fevereiro de 896), embora também exista uma tradição que a coloque em 284 A.H. (897).
Atividade intelectual
Jurisprudência e hádice
Aljadami foi uma das principais autoridades do maliquismo de sua época e desempenhou papel importante na difusão dessa escola jurídica no Iraque. Defendeu e sistematizou os argumentos jurídicos maliquitas, tornando-se particularmente conhecido por seu domínio da tradição jurídica de Medina. Segundo uma tradição, quando Aljadami chegou a uma reunião na qual se discutiam as posições jurídicas dos medinenses, teria declarado: "Eis que chegou Medina", numa referência à familiaridade do jurista com a doutrina da cidade. Posteriormente, , ao tratar dos graus de ijtihad, afirmou que, depois de Maleque ibne Anas, ninguém além de Aljadami havia alcançado semelhante nível. Como tradicionalista, Aljadami foi considerado confiável (thiqa) pelos estudiosos de hádice. Sua longa vida permitiu-lhe transmitir tradições por cadeias relativamente curtas, circunstância que atraiu estudantes interessados em obter hádices com . É descrito também como forte adversário daqueles que considerava seguidores de inovações religiosas. Apesar das responsabilidades decorrentes da magistratura, dedicava grande parte do tempo restante ao hádice e a outros estudos religiosos.
Língua árabe e recitação corânica
Os interesses de Aljadami estendiam-se para além da jurisprudência e do hádice. Alcançou reputação nos campos da morfologia, gramática e lexicografia árabes e também se dedicou à poesia. Segundo uma tradição, o gramático Almubarrade, que o tinha em grande consideração, chegou a afirmar que Aljadami possuía conhecimentos de morfologia superiores aos seus próprios. Aljadami também se dedicou às recitações corânicas. Aprendeu a recitação de Abu Anre ibne Alalá com , a de Ibne Catir com seu pai e a de com . Há divergências nas fontes acerca da relação de transmissão entre Aljadami, Ibne Mujaíde e Abu Becre Ibne Alambari. Cádi Iade afirmou que Aljadami teria transmitido recitações desses dois estudiosos da geração seguinte, mas Adaabi o colocou entre os mestres de Ibne Alambari, enquanto afirmou que ambos se beneficiaram dos conhecimentos de Aljadami. A afirmação de Ibne Mujaíde de que aprendeu com Ismail ibne Isaque a recitação de Nafi transmitida por Calune igualmente indica que Aljadami foi seu mestre, e não seu discípulo.
Obras
Aljadami escreveu numerosas obras sobre ciências corânicas, hádice e jurisprudência, das quais apenas algumas chegaram à atualidade. Entre as preservadas está o Aḥkām al-Qurʾān, tratado em dois volumes sobre as disposições jurídicas do Alcorão, do qual uma parte se conserva na biblioteca da Grande Mesquita de Cairuão. Também sobreviveram manuscritos do Musnad ḥadīth Mālik b. Anas, dedicado às tradições de Maleque ibne Anas, e do Musnad (Tanqīḥ) ḥadīth Ayyūb al-Sakhtiyānī, dedicado às de Aiube Açaquetiani. Outra obra preservada é o Kitāb Faḍl al-ṣalāt ʿalā al-nabī, coleção composta de 104 hádices sobre as virtudes de invocar bênçãos sobre Maomé. São conhecidos quatro manuscritos da obra, que foi publicada no . Entre os trabalhos de Aljadami sobre as recitações corânicas estava ainda o Kitāb al-Qirāʾāt, considerado uma de suas obras importantes e dedicado às recitações de vinte imames, embora não se saiba se o texto sobreviveu.
As fontes atribuem-lhe ainda numerosas obras atualmente perdidas ou cuja preservação não é conhecida. Entre elas estão Maʿānī al-Qurʾān wa-iʿrābuh e al-Iḥtijāj bi-l-Qurʾān, sobre o Alcorão; al-Muwaṭṭaʾ, Ziyādāt al-Jāmiʿ min al-Muwaṭṭaʾ e Shawāhid al-Muwaṭṭaʾ; coletâneas de tradições de Tábite Albunani e Abu Huraira; al-Sunan; al-Mabsūṭ e seu resumo; Kitāb al-Farāʾiḍ, sobre sucessões hereditárias; Kitāb al-Amwāl, sobre finanças; e Kitāb al-Shufʿa, sobre o direito de preempção. Aljadami também compôs obras de controvérsia jurídica. São mencionados um tratado contra Axafii acerca da questão do quinto (khums), um Kitāb al-Radd ʿalā Abī Ḥanīfa, dirigido contra Abu Hanifa, e outro tratado de refutação de . O conjunto de sua produção reflete a amplitude de seus interesses e sua atuação na defesa e consolidação da jurisprudência maliquita no ambiente intelectual iraquiano.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Baçorá Categoria:Árabes do século IX Categoria:Azeditas Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Cádi (juiz) Categoria:Maliquismo