Ibne Salame Aljumai (), de nome completo Abu Abedalá Maomé ibne Salame ibne Ubaide Alá ibne Salime Aljumai Albáceri (; Baçorá, 756 ou 757 – Baguedade ou Baçorá, 846 ou 847), foi um filólogo, transmissor, estudioso da literatura e crítico literário árabe da escola de Baçorá. Formado no ambiente erudito de sua cidade natal, estudou com importantes representantes da filologia e da literatura árabes, entre eles Alasmai, Abu Ubaida e Almufadal Adabi, e manteve contato com numerosos estudiosos e poetas de Baçorá e Baguedade. Dedicou-se também à transmissão de hádices e tradições históricas e teve entre seus discípulos e ouvintes estudiosos como Amade ibne Hambal e .
Sua atividade intelectual concentrou-se particularmente na coleta, transmissão e avaliação da poesia árabe da Jailia e dos primeiros séculos islâmicos. Ao reunir tradições anteriormente dispersas, Ibne Salame não se limitou à preservação de informações genealógicas, biográficas e literárias, mas formulou juízos sobre a qualidade dos poetas e a autenticidade das composições que lhes eram atribuídas. Sua abordagem constitui um testemunho importante do desenvolvimento da crítica poética árabe, sobretudo por revelar critérios empregados na seleção e hierarquização dos poetas antigos e por abordar problemas como a fabricação e atribuição de versos.
É conhecido sobretudo pelo , única de suas obras conhecida por ter sobrevivido. Nela, organizou 114 poetas em classes que abrangem autores da Jailia e do período islâmico, além de grupos próprios de elegíacos, poetas associados a determinadas cidades e regiões e poetas judeus. Embora a obra apresente problemas decorrentes de sua transmissão oral e da forma em que foi posteriormente registrada por seu sobrinho , conserva documentação de grande importância para o estudo da poesia árabe antiga e, sobretudo, para a história de sua crítica e transmissão. Além dela, diversas outras obras sobre poesia, língua, genealogia e matérias afins são atribuídas a Ibne Salame, mas não chegaram à atualidade.
Vida
Ibne Salame Aljumai, de nome completo Abu Abedalá Maomé ibne Salame ibne Ubaide Alá ibne Salime Aljumai Albáceri, nasceu em Baçorá em 139 A.H. (756) ou 140 A.H. (757). Pertencia a uma família culta: seu pai era homem de letras e transmissor, e seu bisavô Salime havia sido liberto de , dos jumaítas, ramo dos coraixitas, circunstância da qual derivava sua nisba Aljumai. Charles Pellat igualmente o apresenta como maula de Cudama e observa que foi em sua cidade natal que iniciou seus estudos das ciências religiosas e, de maneira mais ampla, do adabe, recebendo particularmente de seu pai conhecimentos de poesia e lexicografia.
Sua formação ocorreu no ambiente erudito de Baçorá, onde estudou com numerosos transmissores, filólogos e conhecedores da poesia. Além do próprio pai, a TDV inclui entre seus mestres , , Alasmai, , Abu Ubaida, Almufadal Adabi, Baxar ibne Burde e . Pellat menciona igualmente seus contatos com numerosos estudiosos de Baçorá e com eruditos residentes ou de passagem por Baguedade, entre eles Alaquefaxe, o Médio, Alasmai, Abu Ubaida, e Almufadal Adabi. Segundo o mesmo autor, poetas contemporâneos como Baxar ibne Burde e Maruane ibne Abi Hafça lhe recitaram seus poemas.
Ibne Salame também se dedicou à transmissão de hádices, recolhendo tradições de seus transmissores e comunicando-as posteriormente a seus próprios discípulos. Pellat menciona entre estes Amade ibne Hambal, seu filho Abedalá e outros estudiosos, e registra entre seus ouvintes. A TDV fornece uma relação mais ampla dos que estudaram com ele ou transmitiram material de sua autoridade, incluindo seu filho Abedalá, seu sobrinho , Amade ibne Hambal, , , , e . Embora nascido e formado em Baçorá, passou grande parte da vida em Baguedade. A data e o local de sua morte são transmitidos de maneira divergente. Segundo a tradição principal recolhida pela TDV, morreu em Baguedade em 231 A.H. (846) ou 232 A.H. (847), enquanto afirma que morreu em Baçorá.
Atividade intelectual e crítica literária
Ibne Salame adquiriu reputação por seu conhecimento da história dos árabes, da língua árabe e de sua literatura. Sua atividade concentrou-se particularmente na transmissão, análise e avaliação da poesia árabe, área na qual reuniu materiais anteriores e formulou juízos próprios sobre os poetas e a autenticidade das composições que lhes eram atribuídas. Segundo Zülfikar Tüccar, recolheu as informações até então dispersas acerca da poesia da Jailia e do período islâmico, acrescentou-lhes novos dados e opiniões e procurou estabelecer critérios para a crítica poética.
Essa atividade assumiu sua expressão mais importante no , única de suas obras conhecida por ter sobrevivido. Além de organizar os poetas árabes em classes, Ibne Salame discutiu questões relacionadas à seleção e à crítica da poesia. Na introdução da obra, abordou seu método, o problema da poesia fabricada, o surgimento da gramática árabe e a métrica árabe. Tüccar destaca particularmente dois aspectos do livro: a combinação das concepções críticas anteriores com os próprios juízos de Ibne Salame acerca da arte poética e do gosto literário e a preservação de um amplo conjunto de informações sobre literatura e poesia de valor para a história literária árabe.
Pellat também atribui importância particular aos juízos críticos preservados na obra. As notícias dedicadas aos poetas são constituídas principalmente por informações genealógicas e biográficas relativamente breves e por citações de versos, mas a importância do livro não se limita à documentação que conserva. A própria seleção dos autores revela critérios de gosto dos conhecedores e apreciadores da poesia do período, enquanto os comentários de Ibne Salame fornecem testemunhos sobre a avaliação do valor e, sobretudo, da autenticidade da poesia antiga. Por esse motivo, Pellat considera sua obra de primeira importância para a história da crítica literária árabe.
Obras
As fontes atribuem diversas obras a Ibne Salame, embora apenas o , também conhecido como Ṭabaqāt al-shuʿarāʾ, tenha chegado à atualidade. A TDV registra sete títulos associados ao autor e observa que as obras mencionadas em algumas fontes como Ṭabaqāt al-shuʿarāʾ al-Jāhiliyyīn e Ṭabaqāt al-shuʿarāʾ al-Islāmiyyīn foram interpretadas como denominações ou partes da obra conservada. Pellat observa igualmente que Ibne Anadim atribuiu a Ibne Salame duas obras distintas sobre, respectivamente, os poetas da Jailia e os poetas islâmicos, mas relaciona esses títulos às duas divisões fundamentais do texto transmitido.
Tabaqat Fuhul al-Shuara
O Tabaqat Fuhul al-Shuara abrange poetas desde a Jailia até o final do Período Omíada, distribuídos pelo autor em classes segundo critérios de avaliação poética. Embora a introdução possa sugerir uma divisão dos poetas em três categorias — da Jailia, islâmicos e mucadrames —, a terceira não constitui uma categoria independente na forma conservada da obra. Os poetas mucadrames foram distribuídos entre as classes pré-islâmicas e islâmicas conforme predominassem em sua poesia características atribuídas a um ou a outro período. Em sua forma conservada, o livro divide-se em cinco grandes conjuntos e trata de 114 poetas. Quarenta poetas da Jailia são distribuídos em dez classes; quatro poetas de elegias constituem uma classe própria; vinte e dois são agrupados segundo sua associação com Medina, Meca, Taife e o Barém; oito poetas judeus formam outra classe; e quarenta poetas do período islâmico são distribuídos em dez classes. Pellat também registra o total de 114 notícias biográficas e chama atenção para a quebra da organização aparentemente simétrica entre poetas pré-islâmicos e islâmicos provocada pelas classes intermediárias dedicadas aos elegíacos, aos poetas associados a determinadas cidades e regiões e aos poetas judeus.
A forma em que o texto chegou à atualidade apresenta problemas de transmissão. Pellat considera aceitável atribuir a obra a Ibne Salame, mas observa que seu conteúdo foi transmitido oralmente e posteriormente trabalhado por seu sobrinho Abu Califa Aljumai, que era cego e teria registrado o material apenas algumas décadas depois da morte do autor. Como indício da natureza dessa transmissão, observa que Aljaiz, ao citar Ibne Salame, apresenta seu isnad, sem que isso necessariamente indique uma remissão ao livro tal como posteriormente transmitido, enquanto Ibne Cutaiba tende a suprimi-lo.
A primeira edição moderna da obra foi preparada por Joseph Hell com base em dois manuscritos incompletos e publicada em Leiden em 1916, acompanhada de uma introdução em alemão sobre o autor, o livro e seus principais problemas textuais. Uma edição publicada no Cairo em 1920 utilizou um dos manuscritos empregados na primeira edição. Posteriormente, Maḥmūd Muḥammad Shākir preparou uma edição crítica baseada num manuscrito mais completo, publicada no Cairo em 1952. Shākir voltou a publicar a obra em 1394 A.H. (1974), recorrendo também a outros manuscritos, e acrescentou à segunda edição um estudo intitulado Barnāmaj Ṭabaqāt fuḥūl al-shuʿarāʾ. Pellat destaca a edição de Shākir por sua extensa introdução crítica, pela discussão das conclusões de Hell, pelo exame dos problemas de organização do texto, pelo levantamento de mais de setenta autoridades utilizadas na obra e pela reunião de passagens citadas por autores posteriores, sobretudo Abu Alfaraje Alisfaani.
Outras obras
Além do Tabaqat Fuhul al-Shuara, são atribuídas a Ibne Salame diversas obras que não sobreviveram. A TDV enumera al-Fāṣil fī mulaḥ al-akhbār wa-l-ashʿār, Buyūtāt al-ʿArab, al-Ḥilāb wa-ijrāʾ al-khayl, Gharīb al-Qurʾān, Ṭabaqāt al-ʿulamāʾ e Fursān al-shuʿarāʾ, ressalvando que alguns desses títulos podem corresponder a diferentes partes de uma mesma obra, e não a trabalhos independentes. Pellat também registra vários títulos atribuídos ao autor pelos biógrafos e observa, especificamente quanto ao Gharīb al-Qurʾān, que a obra não é mencionada por Ibne Nadim.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Baçorá Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Jumaítas