Porto Alegre foi o principal núcleo conspiratório na Revolução de 1930 e palco de combates nos seus primeiros momentos. O governo estadual do Rio Grande do Sul, capitaneado por Getúlio Vargas, articulou-se para um levante nacional contra o governo brasileiro de Washington Luís. Militares estaduais e conspiradores internos dominaram a guarnição do Exército federal, comandada pelo general Gil de Almeida. Toda a 3.ª Região Militar aderiu ou foi derrotada, abrindo a marcha revolucionária à capital federal e à posse de Vargas como presidente da República.

A revolução foi marcada para as 17h30 de 3 de outubro, depois do final do expediente nos quartéis. Seu início não foi surpresa para a população. Os meses anteriores foram tensos e o general Almeida trouxe reforços federais a Porto Alegre, ciente de um possível confronto com o governo estadual. A artilharia no morro do Menino Deus ameaçava o Centro. Mas o próprio Exército estava repleto de simpatizantes da revolução. Vargas prometia manter a paz, mas seus subordinados conspiravam com militares tenentistas e representantes de Minas Gerais e da Paraíba. O Estado-Maior revolucionário, chefiado pelo tenente-coronel Góis Monteiro, operava clandestinamente em Porto Alegre desde setembro.

As forças revolucionárias foram divididas em quatro agrupamentos, um em reserva e os demais para os ataques às regiões do quartel-general da 3.ª Região Militar, do quartel do 7.º Batalhão de Caçadores (7.º BC) e do morro do Menino Deus, onde estavam concentrados os reforços federais. A resistência legalista foi esporádica e isolada. Metralhadoras estavam sabotadas e oficiais e soldados eram presos na rua quando saíam do expediente. Revolucionários dentro do Exército desertavam e voluntários civis juntavam-se ao levante. O general Almeida foi preso dentro do QG após um breve e sangrento combate. O 7.º BC, na Praça do Portão, resistiu noite adentro até assinar um cessar-fogo, e ao alvorecer do dia seguinte, um instrumento formal de rendição.

O general Almeida e outros oficiais legalistas foram presos no navio Comandante Ribber, fundeado no rio Guaíba. Com a vitória no Rio Grande do Sul, voluntários alistavam-se para a campanha militar e a polícia prendia inimigos da revolução. Em 11 de outubro, Vargas passou o governo a Osvaldo Aranha, coordenador geral da revolução, e seguiu numa composição ferroviária rumo à frente de combate e à capital federal, onde assumiria o poder depois da vitória nacional do movimento.

Antecedentes Contexto político miniaturadaimagem|Vargas (de farda) e Osvaldo Aranha, à esquerda, no Palácio do Catete após a vitória da revolução|upright=0.8|esquerda Porto Alegre era cidade modesta em 1930, de centro comercial delimitado pela rua da Praia e o rio Guaíba. Na condição de capital do Rio Grande do Sul, seria o principal núcleo da conspiração por trás da Revolução de 1930. O estado tinha posição peculiar no sistema federativo da Primeira República: era externo ao tradicional eixo dominante de São Paulo e Minas Gerais, mas forte o suficiente para disputar o poder central. Getúlio Vargas, governador desde 1928, conciliou as feridas das guerras civis passadas, integrando ao seu governo a antiga oposição. O Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) e o Partido Libertador uniam-se na Frente Única Gaúcha.

À unificação interna seguiu-se a aliança com Minas Gerais e a Paraíba para lançar a candidatura de Vargas na eleição presidencial de 1930. Os aliancistas sabiam que o sistema eleitoral não permitiria uma vitória pacífica da oposição, e de fato, os resultados determinaram o paulista Júlio Prestes para suceder o também paulista Washington Luís. Desde antes da eleição, a ala radical dos políticos gaúchos, representada por Osvaldo Aranha, João Neves da Fontoura, Batista Luzardo e Flores da Cunha, conspirava para uma revolta armada contra o governo. Em setembro de 1929, Vargas enviou os primeiros emissários para contatar, na prisão e no exílio, os militares tenentistas que tentaram derrubar o governo na década passada.

No final de 1929, Vargas e Aranha encontraram-se em Porto Alegre com Luís Carlos Prestes, herói do tenentismo. Forneceram dinheiro para que comprasse armas, mas ele já divergia demais de seus companheiros. Em maio de 1930, rompeu com os conspiradores, tachando de "burguesa" a Aliança Liberal. A ala radical ainda teria que superar resistências dentro do PRR, como a do ex-governador Borges de Medeiros. O próprio Vargas era cauteloso e não se comprometia abertamente. O senador Firmino Paim Filho foi encarregado de tranquilizar Washington Luís, cujo governo temia uma rebelião desde o resultado das eleições. Sabia que, se houvesse, ela começaria no Rio Grande do Sul e envolveria a Brigada Militar e as unidades provisórias.

Os conspiradores decidiram que o movimento teria sede no Rio Grande do Sul, coordenação geral por Osvaldo Aranha e chefias gerais civil e militar. Os rumores de uma insurreição só cresciam e a mobilização do governo estadual para um conflito era evidente. Todos sabiam que a revolução viria alguma hora. Os discursos eram inflamados e a imprensa atiçava o fervor patriótico. Em setembro, os boatos eram de que a grande hora viria no desfile do Dia da Independência.

Alinhamento militar miniaturadaimagem|O 8.º Batalhão de Caçadores, unidade do Exército sediada no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro após a vitória da revolução Reputava-se aos gaúchos uma vocação militar. Um quarto a um terço do Exército nacional era acantonado no Rio Grande do Sul, muitos dos militares eram gaúchos e o Exército identificava-se politicamente com o PRR. O governo estadual escudava-se na Brigada Militar, um verdadeiro "exército estadual", e em tropas irregulares no interior. Porto Alegre era a exceção entre os municípios gaúchos pela presença de tropas estaduais em maior número do que a guarnição do Exército. O Exército tinha cerca de quatroze mil homens no Rio Grande do Sul, distribuídos em duas unidades com efetivo de mais de mil homens, dez de quinhentos a mil homens, oito de trezentos a quinhentos homens e uma de duzentos homens. Todas as guarnições, inclusive em Porto Alegre, eram superiores em aparelhamento bélico à tropa estadual.

As guarnições dispersas, com soldados recrutados na população local, eram vulneráveis à infiltração psicológica revolucionária. Os militares federais em serviço no Rio Grande do Sul eram incitados por todo lado a tomar o partido da revolução. Eram alvo de discursos, panfletos, publicações na imprensa, conversas em privado e ofertas de dinheiro. Aos soldados, dizia-se: "Gaúcho não briga contra gaúcho". Aos oficiais, apelava-se ao patriotismo e prometia-se um regime dominado pelos militares. Vários coronéis alertavam o comando regional sobre as tentativas de aliciamento.

As guarnições do Exército no Rio Grande do Sul respondiam à 3.ª Região Militar, sediada em Porto Alegre e comandada pelo general Gil Antônio Dias de Almeida, fiel ao governo até o fim. Ele repetidamente alertou o ministro da Guerra, general Nestor Sezefredo dos Passos, da subversão na tropa. As respostas, quando vinham, eram tíbias. O Exército tinha um serviço de vigilância improvisado, em nada comparável aos espiões da polícia. Os conspiradores infiltrados sonegavam informações ao comandante, especialmente sobre o alastramento da sedição no interior, e informavam ao comando revolucionário de todas as medidas e recursos da 3.ª Região Militar.

Havia sinais por toda a parte: deslocamentos misteriosos de tropas, furtos de munições e rumores. Por insistência do general Almeida, as remessas de munição foram adiadas. Ao início de outubro os depósitos de Porto Alegre e Rio Grande não chegavam a quatrocentos mil tiros, incluindo oitenta caixões de armamento entregues no dia 2 por insistência da diretoria do material bélico. Mas o Boletim de Informações número 18, encaminhado pelo comando regional ao Ministério da Guerra, era otimista: a Brigada Militar estava fiel e disposta a defender as instituições. O embaixador Hélio Lobo, em conversa com autoridades uruguaias, asseverava que "a brigada policial e as classes conservadoras" não se juntariam a qualquer movimento contar o governo federal. No Rio de Janeiro, Washington Luís transbordava confiança na inviabilidade de um levante.

Reforços do Exército miniaturadaimagem|Jornal em 6 de setembro: "O Rio Grande em pé de guerra!" "Opera-se nesta capital uma verdadeira concentração de forças"|esquerda No final de agosto o general Almeida propôs ao ministro da Guerra a concentração defensiva de tropas no interior, o que foi rejeitado ao argumento de que "o perigo da revolução passou". Em setembro, informado por fontes de confiança que a revolta iniciaria em breve, o general chamou o Secretário do Interior, João Simplício. Almeida era seu antigo aluno do Colégio Militar. Se disse obrigado a reforçar a guarnição de Porto Alegre se Vargas não tomasse medidas enérgicas para tranquilizar o povo, em vez de "sua atitude indefinida e tão contraditória". João Simplício tentou demovê-lo, alegando que, por necessidade política, Vargas não podia romper com os elementos extremados.

Se trouxesse reforços a Porto Alegre, o comandante seria criticado violentamente. Se os reforços tivessem sucesso em impedir a revolução, seriam também criticados como provocação desmedida. Com as negativas do governo estadual, o general Almeida aceitou o risco e ordenou o deslocamento de um batalhão do 9.º Regimento de Infantaria, de Rio Grande, o 8.º e 9.º Batalhões de Caçadores (BCs), de São Leopoldo e Caxias do Sul, e uma companhia do 7.º Regimento de Infantaria, de Santa Maria. Ao ministro da Guerra, assumiu inteira responsabilidade pelos deslocamentos. Conforme suas memórias, o Ministério enviou radiograma autorizando amplamente a mobilização, mas a mensagem foi desviada por um oficial conspirador.

Os reforços estacionaram no morro do Menino Deus. O interior da cidade sediava o Quartel-General da 3.ª Região Militar e os quartéis do Serviço de Intendência Regional, 7.º Batalhão de Caçadores (BC) e 2.ª Companhia de Estabelecimentos. O morro do Menino Deus sediava o IV Esquadrão do 3.º Regimento de Cavalaria Divisionário (IV/3.º RCD), uma bateria de artilharia do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) e o contingente da Carta Geral. Ele dispunha de água própria, dos principais depósitos de munição de armas portáteis e de artilharia e de outros fatores vantajosos para resistir a um cerco prolongado e dar cobertura às unidades no interior da cidade.

Ao todo, o Exército passou a ter dois mil homens bem municiados em Porto Alegre, dos quais 1 500 estavam no morro do Menino Deus. Havia um plano de defesa com pontos abalizados para o bombardeio de artilharia da cidade. Num de seus boletins, o general Almeida asseverava que "qualquer dos nossos pelotões [...] bastará para dissociar qualquer bando, ainda que numeroso. E isto para nós é uma questão de honra".

Rumores e acusações miniaturadaimagem|As vacilações da revolução gaúcha: em julho, O Malho, do Rio de Janeiro, mostra o moderado Borges de Medeiros afastando os "preparativos bélicos", "ameaças" e "revolução" de Osvaldo Aranha