A conquista muçulmana de Chipre ocorreu entre 649 e 654, durante o período do Califado Ortodoxo, quando forças comandadas por Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Síria, lançaram duas expedições navais contra a ilha, então pertencente ao Império Bizantino. As campanhas resultaram na submissão de Chipre ao pagamento de tributos aos muçulmanos, sem romper completamente seus vínculos com Constantinopla, estabelecendo uma situação singular de soberania compartilhada entre as duas potências. As invasões constituíram um dos primeiros grandes empreendimentos marítimos do califado e marcaram a consolidação da marinha árabe no Mediterrâneo oriental.

A partir delas, os muçulmanos passaram a desafiar de forma efetiva a tradicional supremacia naval bizantina, utilizando Chipre como base de apoio para operações posteriores contra o império. A ilha permaneceu sob essa condição durante séculos. Embora uma guarnição muçulmana tenha sido instalada após a segunda campanha, ela foi posteriormente retirada, e, em 688, um acordo entre o califa Abedal Maleque ibne Maruane e o imperador formalizou a administração conjunta de Chipre, preservando sua posição como território fronteiriço entre os mundos islâmico e bizantino.

Antecedentes

Em 646, o Império Bizantino encontrava-se em guerra contra o Califado Ortodoxo. Naquele ano, os bizantinos lançaram uma contraofensiva e retomaram Alexandria, avançando em seguida para o interior do Egito. A campanha, contudo, terminou com nova derrota diante dos muçulmanos. Após essa vitória, os líderes do califado concluíram que a defesa das recentes conquistas exigia a criação de uma força naval permanente. O governador da Síria e futuro califa, Moáuia ibne Abi Sufiane, reuniu mão de obra proveniente do Egito e do Levante para construir uma frota, que ficou pronta após cerca de três anos de preparativos. Abedalá ibne Sade forneceu a esquadra egípcia, que se uniu à frota síria sob o comando supremo de Moáuia. A expedição teve então como objetivo a ilha de Chipre.

Conquista

thumb|300px|Mapa das principais operações navais e batalhas entre muçulmanos e bizantinos entre os séculos VII e XI; Chipre aparece como região especial

Na primavera de 649, os muçulmanos lançaram sua primeira expedição naval contra Chipre. A frota, composta por cerca de embarcações segundo a tradição preservada pelas fontes, partiu da costa da Síria e causou grande impressão aos habitantes da ilha, que observavam do litoral o grande número de navios. Os relatos descrevem os combatentes exibindo seus equipamentos militares e proclamando a intenção de conquistar a mais rica cidade cipriota. Ao aproximar-se da costa, o navio-almirante de Moáuia assumiu a dianteira da frota, enquanto o comandante aguardava que representantes da ilha viessem negociar a paz. Como isso não ocorreu, os invasores lançaram âncora e prepararam-se para o desembarque. Os invasores aparentemente não encontraram resistência organizada. Moáuia marchou em direção à capital, Constância, cujo cerco é pouco conhecido pelas fontes, mas terminou com a submissão da cidade. O comandante estabeleceu seu quartel-general na residência episcopal, enquanto destacamentos muçulmanos percorreram a ilha, reunindo um volumoso saque composto por ouro, prata, vestimentas e cativos. O butim foi repartido entre os contingentes sírios e egípcios. Ao receber notícias da aproximação de uma força bizantina de socorro, os muçulmanos abandonaram rapidamente a ilha, levando consigo o saque obtido durante a campanha. Após essa primeira expedição, os cipriotas passaram a pagar um tributo anual aos muçulmanos, sem deixar de continuar sujeitos aos pagamentos tradicionalmente devidos ao Império Bizantino. A ilha permaneceu, assim, numa situação de soberania compartilhada de facto, uma vez que nenhuma das duas potências manteve uma guarnição permanente em Chipre, embora ambas recebessem tributos da população local.

Em 650, ou, segundo outra tradição, em 654, os muçulmanos lançaram uma segunda expedição contra Chipre, desta vez sob o comando de Abulatar. A campanha foi motivada pelas notícias de que forças bizantinas haviam chegado à ilha e incentivavam seus habitantes a resistir aos muçulmanos, atitude interpretada por estes como uma violação dos termos do acordo firmado após a primeira invasão. As fontes afirmam que a frota era composta por cerca de 500 embarcações e transportava aproximadamente 12 mil soldados. Embora tropas bizantinas e contingentes locais tenham se preparado para enfrentar a nova ofensiva, abandonaram a resistência ao avistar a grande frota muçulmana aproximando-se da ilha. Parte dos bizantinos e dos habitantes mais abastados fugiu da ilha, enquanto outros refugiaram-se em Lápito. Os muçulmanos desembarcaram sem oposição significativa e percorreram Chipre em busca de saque. Abu Alauar dirigiu-se inicialmente a Constância, que foi tomada, e depois avançou contra Lápito. A cidade foi cercada durante vários dias, sendo repetidamente instada à rendição. Diante da recusa dos defensores, os atacantes empregaram mangonéis para bombardear suas fortificações. Sem perspectiva de receber reforços, a guarnição acabou capitulando. Os habitantes foram poupados em troca da entrega do ouro e da prata existentes na cidade, e tanto esses bens quanto o restante do saque obtido durante a campanha foram embarcados e enviados para a Síria. Segundo a tradição, Moáuia mandou construir mesquitas na ilha e fundou um novo assentamento, instalando ali uma guarnição formada por homens provenientes de Balbeque, aos quais foram concedidos soldos regulares.

Consequências

A guarnição muçulmana permaneceu em Chipre durante cerca de três décadas. No reinado de , entretanto, foi ordenada sua retirada, em razão do elevado custo de manutenção da força estacionada na ilha. Em 688, o califa omíada Abedal Maleque ibne Maruane e o imperador chegaram a um acordo pelo qual Chipre passou a ser administrado como um condomínio entre bizantinos e muçulmanos. Durante aproximadamente os três séculos seguintes, a ilha ocupou uma posição singular como território compartilhado entre os mundos islâmico e cristão.

Bibliografia

Categoria:Conquista muçulmana do Chipre