Flávio Augusto Sidrim Nassar (Belém, 1952 – São Paulo, 23 de março de 2022), mais conhecido como Flávio Nassar, foi um arquiteto, urbanista, professor universitário, gestor público e escritor brasileiro. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA) a partir de 1978, exerceu também funções de direção universitária, sindical, administrativa e cultural.
Ficou especialmente conhecido pela defesa do patrimônio histórico e arquitetônico de Belém e pela criação e coordenação do Fórum Landi, projeto ligado à UFPA dedicado ao estudo da obra de Antônio José Landi e à preservação e valorização do Centro Histórico da capital paraense.
No serviço público estadual, trabalhou em instituições de planejamento, habitação e cultura, participando de estudos de urbanização e desenvolvimento regional. Na UFPA, foi pró-reitor de Relações Internacionais entre 2009 e 2016, período em que participou da ampliação dos programas de mobilidade e cooperação internacional da universidade.
Como escritor, publicou a obra de ficção O Armagedon na Cidade do Pará e a Polêmica Ressurreição do EngoleCobra, em 2001, e o livro de poesia experimental Corpo opaco, em 2019.
Biografia
Formação
Flávio Nassar nasceu em Belém, no estado do Pará, em 1952. Ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará em 1972, concluindo a graduação em 1976.
Ainda durante o período universitário, participou do movimento estudantil e de atividades de extensão que o aproximaram das questões urbanas, sociais e administrativas dos municípios paraenses. Em entrevista concedida em 2012 ao projeto sobre os 25 anos da Universidade Multicampi, relatou a importância da experiência estudantil e do contato direto com as cidades do interior do Pará para a sua formação como arquiteto e urbanista.
Em 1977, realizou especialização em Engenharia de Sistemas Urbanos no Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM). Em 1984, frequentou formação em metodologia de ensino da arquitetura na Architectural Association School of Architecture, em Londres.
A sua área académica de atuação concentrou-se nos fundamentos da arquitetura e do urbanismo, no planejamento e projeto do espaço urbano, na história urbana de Belém e na preservação do patrimônio arquitetônico.
Primeiras atividades profissionais
Depois de concluir a graduação, Nassar ingressou no Instituto do Desenvolvimento Econômico-Social do Pará (Idesp), onde trabalhou entre 1976 e 1978 como técnico de nível superior. Participou de estudos sobre o sistema urbano paraense, regionalização, habitação, transportes, atividades económicas e desenvolvimento territorial.
Entre os trabalhos relacionados no seu currículo encontram-se:
a caracterização do sistema urbano do estado do Pará; estudos de regionalização do território paraense por modelos de potencial e fluxos; o diagnóstico habitacional do Pará; estudos sobre o setor terciário; análises sobre transporte rodoviário; um estudo sobre a viabilidade do retorno dos voos da Pan American a Belém.
Transferido para a Secretaria de Estado de Planejamento, integrou equipas responsáveis pela elaboração de uma política urbana estadual, pelo Plano de Desenvolvimento Urbano de Castanhal e por medidas relacionadas com a implantação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.
Em 1983, foi assessor especial da Procuradoria-Geral do Estado do Pará para assuntos fundiários urbanos.
Universidade Federal do Pará
Docência
Nassar ingressou como professor da Universidade Federal do Pará em 1978, dois anos depois de concluir a graduação. Lecionou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde alcançou a categoria de professor adjunto IV.
Entre as disciplinas que ministrou estavam Introdução à Arquitetura, Teoria da Arquitetura, Planejamento Arquitetônico, Projeto Arquitetônico, Informática Aplicada à Arquitetura, Planejamento Urbano e Teoria e Análise Urbana e Regional.
Além da atividade docente, exerceu funções de gestão académica. Foi assessor da Pró-Reitoria de Planejamento, assessor e chefe da Coordenadoria de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação e coordenador do curso de Arquitetura.
Participou ainda do Conselho Universitário, do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa e do Conselho Deliberativo do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.
Como orientador, acompanhou trabalhos dedicados à habitação, ao patrimônio, à memória urbana e à arquitetura de Belém. Um dos últimos projetos que orientou foi o estudo do antigo Reservatório Paes de Carvalho, conhecido como Caixa-d'Água de Belém, apresentado em 2019.
Atuação associativa e política universitária
Nassar participou ativamente da vida política da UFPA. Em 1985, integrava a direção da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Pará (Adufpa), entidade da qual posteriormente foi presidente.
Exercia a presidência da Adufpa em 1989, quando a associação sediou o XX Conselho das Associações Docentes do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior.
No final da década de 1980, coordenou um projeto de história oral da Universidade Federal do Pará, desenvolvido por ocasião dos trinta anos da instituição. O projeto reuniu depoimentos de fundadores, dirigentes, professores e lideranças políticas e académicas ligadas à história da UFPA.
A sua atuação política era identificada com movimentos de esquerda e com a defesa da democratização da universidade. Depois da sua morte, a Prefeitura de Belém recordou a sua participação nos movimentos políticos e universitários paraenses desde o final da década de 1970.
Pró-Reitoria de Relações Internacionais
Com a criação da Pró-Reitoria de Relações Internacionais da UFPA, em abril de 2009, Nassar assumiu a direção da nova unidade. Permaneceu no cargo até maio de 2016, quando foi exonerado a pedido.
Durante a sua gestão, a pró-reitoria ampliou os acordos de cooperação académica e os programas de mobilidade de estudantes e professores. Foram estabelecidas ou aprofundadas parcerias relacionadas com o Erasmus Mundus, o Ciência sem Fronteiras, o Santander Universidades e programas de formação linguística e intercâmbio ibero-americano.
A unidade apoiou a participação da UFPA em consórcios internacionais de mobilidade, entre os quais Euro-Brazilian Windows, ISAC, StartUp, Babel, Eubranex e Smart². Também foram desenvolvidos um portal e um banco de dados sobre oportunidades de cooperação, financiamento, bolsas, convênios e mobilidade académica.
Nassar defendeu que a internacionalização da universidade não se limitasse à celebração formal de acordos, devendo facilitar a circulação de estudantes e pesquisadores e reforçar a inserção internacional da produção científica amazônica.
Na qualidade de pró-reitor, exerceu interinamente funções de reitor em determinados períodos, assinando atos administrativos da universidade.
Gestão pública e planejamento urbano
Entre 1995 e 1999, Nassar foi diretor da Companhia de Habitação do Estado do Pará (Cohab-PA). Inicialmente ocupou a Direção de Construção e Urbanismo e, posteriormente, a Direção de Desenvolvimento Habitacional.
Entre 1999 e 2002, atuou como assessor especial do governador do Pará, ficando lotado na Secretaria de Estado de Cultura. Nesse período, coordenou a equipa estadual do Programa Monumenta, desenvolvido em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e destinado à recuperação e valorização de centros históricos brasileiros.
Também prestou consultoria ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2001, colaborou na pesquisa histórica e iconográfica preparada para o processo de reconhecimento do Círio de Nazaré como patrimônio cultural brasileiro e foi curador da exposição Círio de Nazaré: Patrimônio Nacional.
Ao longo da carreira, interveio frequentemente no debate público sobre os problemas urbanos de Belém, abordando temas como habitação, ocupações urbanas, circulação, transporte público, alagamentos, comércio informal e preservação do Centro Histórico.
Fórum Landi
Criação
Em 2003, a Universidade Federal do Pará, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade da Amazônia organizaram o Seminário Internacional Landi e o Século XVIII na Amazônia, assinalando os 250 anos da chegada de Antônio José Landi à região amazônica.
No final do seminário foi criado o Fórum Landi, idealizado por Nassar como um espaço permanente de investigação, ensino, extensão e educação patrimonial. A partir de 2004, Nassar passou a coordenar o projeto, vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA.
O Fórum reuniu professores, estudantes e pesquisadores interessados na história da Amazônia no século XVIII, na obra de Landi e nos processos de formação e transformação do centro histórico de Belém.
Os seus objetivos incluíam:
desenvolver pesquisas multidisciplinares sobre o Centro Histórico de Belém; estudar e preservar o legado arquitetônico e artístico de Antônio Landi; promover ações de educação patrimonial; organizar exposições, seminários, roteiros e atividades culturais; reunir e facilitar o acesso a documentos históricos; colaborar na formulação de políticas de preservação e reabilitação urbana.
Projetos e atividades
Sob a coordenação de Nassar, o Fórum Landi promoveu eventos como o Seminário Internacional Landi e o Século XVIII na Amazônia, o concerto A Música da Terra de Landi, a exposição Landi: Cidade Viva e o Circuito Landi — Um roteiro pela arquitetura setecentista na Amazônia.
O Circuito Landi foi concebido como um roteiro de interpretação do patrimônio arquitetônico do centro histórico, associado à formação de guias e estudantes e à divulgação da arquitetura setecentista de Belém.
O Fórum desenvolveu projetos de pesquisa, levantamento arquitetônico, formação de mão de obra especializada e utilização de edifícios históricos como espaços de aprendizagem. Em trabalhos arqueológicos e de restauro, Nassar defendia a utilização dos canteiros de obras para a formação prática de estudantes.
Entre os projetos planejados durante a sua coordenação encontra-se a maquete do Centro Histórico de Belém, com cerca de 35 metros quadrados, representando áreas dos bairros da Campina e Cidade Velha e edifícios como o Mercado de Ferro, o Forte do Presépio, a Catedral da Sé, a Praça do Relógio e a Casa das Onze Janelas.
O projeto Remapeando Belém, cuja concepção e início foram atribuídos a Nassar, conjugou mapas históricos, uma maquete urbana, vídeo, animação e recursos de realidade aumentada destinados a apresentar a evolução urbana da cidade.
Capela Pombo
Uma das iniciativas mais relevantes do Fórum Landi durante a coordenação de Nassar foi a mobilização pela preservação da Capela Pombo, construção religiosa particular do século XVIII atribuída a Antônio Landi.
O imóvel foi adquirido pela UFPA em 2014 por iniciativa coordenada por Nassar. A equipa do Fórum Landi elaborou um projeto de restauro e de reintegração do edifício na vida cultural de Belém. A intervenção foi posteriormente incluída entre as ações do Novo Programa de Aceleração do Crescimento.
A aquisição permitiu que a capela, considerada a única capela particular setecentista ainda existente na cidade, permanecesse sob guarda pública e universitária.
Preservação de acervos e memória
Memorial do Livro Moronguetá
Nassar foi o idealizador do Memorial do Livro Moronguetá, projeto criado em 12 de setembro de 2012 para receber, organizar e preservar bibliotecas particulares de intelectuais paraenses.
O memorial iniciou as suas atividades a partir da doação da biblioteca da professora e historiadora Maria Annunciada Ramos Chaves. Posteriormente, passou a receber coleções pertencentes a outros intelectuais ligados à história política, científica e cultural do Pará.