Cyphocharax boiadeiro, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos (Curimatidae), endêmica do Brasil. Foi descrita em 2017 com base em exemplares das cabeceiras do rio Araguaia, no município de Alto Araguaia, em Mato Grosso, e seu epíteto específico faz referência ao rio Boiadeiro e aos tradicionais condutores de gado do Brasil central. A espécie integra o clado Cyphocharax saladensis, juntamente com C. caboclo, C. saladensis e C. vanderi. Análises moleculares indicam que C. caboclo, endêmica do alto rio Paraguai, é sua espécie-irmã, relação sustentada também por semelhanças no sistema látero-sensorial e no padrão de pigmentação.

É uma espécie de pequeno porte, atingindo pelo menos 60,7 milímetros de comprimento padrão, com corpo moderadamente alongado e relativamente alto, cabeça afilada, boca subterminal e nadadeira caudal profundamente bifurcada. Sua linha lateral é incompleta e se alonga durante o crescimento, com aumento progressivo do número de escamas perfuradas. A coloração caracteriza-se por uma faixa escura fina ao longo da região médio-lateral do corpo, separada de uma única mancha arredondada ou ligeiramente alongada no pedúnculo caudal. Essas características permitem distingui-la de C. caboclo, cuja linha lateral é interrompida e não se alonga ontogeneticamente e cujo pedúnculo apresenta duas manchas que podem se fundir em uma marca piriforme ou semelhante à letra T.

Sua distribuição conhecida está restrita às cabeceiras do alto rio Araguaia, acima da cachoeira de Couto de Magalhães, em riachos e áreas pantanosas do Cerrado próximos a Alto Araguaia. A presença da espécie nessa drenagem provavelmente resultou de uma antiga captura de cabeceiras entre os sistemas dos rios Paraguai e Araguaia, seguida pelo isolamento e pela especiação alopátrica das linhagens de C. boiadeiro e C. caboclo. Em avaliação concluída em 18 de junho de 2021 e publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade em 2023, foi classificada como menos preocupante (LC), pois é coletada com frequência e não foram identificadas ameaças diretas capazes de comprometer suas populações no futuro próximo. Sua tendência populacional, contudo, permanece desconhecida e sua história natural é pouco documentada.

Etimologia

Cyphocharax boiadeiro é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico boiadeiro faz referência ao rio Boiadeiro, uma das localidades de ocorrência da espécie na bacia do rio Araguaia, em Mato Grosso. Além da referência geográfica, o nome homenageia os boiadeiros, tradicionais condutores de gado montados a cavalo que desempenham diversas atividades ligadas à pecuária extensiva do Brasil central. Segundo o autor da descrição, esses trabalhadores preservam costumes históricos associados à ocupação do interior do país e exerceram profunda influência sobre os modos de vida, a culinária, a música e as tradições culturais da região. O nome foi proposto como substantivo em aposição.

Taxonomia

Cyphocharax boiadeiro é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2017 pelo ictiólogo Bruno F. Melo com base em exemplares provenientes das cabeceiras do rio Araguaia, no município de Alto Araguaia, em Mato Grosso. O holótipo, catalogado como LIRP 14133, é um exemplar de 42,9 milímetros de comprimento padrão coletado em agosto de 2002 no córrego do Sapo, a montante da cachoeira de Couto de Magalhães. A série de parátipos reuniu exemplares do mesmo córrego, do rio Boiadeiro, do córrego Sapinho e de uma área pantanosa associada ao córrego do Rancho, todos pertencentes ao alto Araguaia. A inclusão da espécie em Cyphocharax foi inicialmente fundamentada na ausência das sinapomorfias que caracterizam os gêneros próximos Curimatella, Pseudocurimata e Steindachnerina. Os representantes de Cyphocharax apresentam canal látero-sensorial bifurcado no sexto infraorbital, ausência de processos elaborados no complexo bucofaríngeo e ausência de uma mancha escura na porção proximal dos raios simples medianos da nadadeira dorsal. O gênero, contudo, não é considerado monofilético nas análises morfológicas e moleculares disponíveis. Estudos filogenéticos indicaram que Cyphocharax é parafilético, com espécies de Curimatella e o gênero monofilético Steindachnerina inseridos entre suas diferentes linhagens. Esse conjunto mais amplo foi denominado clado de Cyphocharax em sentido lato.

Na descrição original, C. boiadeiro foi associada a um conjunto de espécies que compartilham uma mancha escura na região médio-lateral do pedúnculo caudal e modificações no sistema látero-sensorial. Essa interpretação era provisória, pois a presença da mancha caudal ocorre em representantes de todos os gêneros de curimatídeos e posteriormente foi considerada uma condição ancestral, perdida independentemente em diferentes linhagens. A linha lateral incompleta de C. boiadeiro, cujo número de escamas perfuradas aumenta durante o crescimento, havia sugerido uma possível proximidade com C. gangamon e C. punctatus. Entretanto, análises moleculares posteriores demonstraram que semelhanças no desenvolvimento da linha lateral podem ter surgido de forma independente e que os agrupamentos morfológicos anteriormente propostos para o gênero eram, em vários casos, polifiléticos. Uma análise filogenética publicada em 2022, baseada em uma matriz multilocus com seis genes, 218 terminais e pares de bases, posicionou C. boiadeiro no chamado clado Cyphocharax saladensis. Esse grupo, sustentado por valor de bootstrap de 100%, é composto por C. boiadeiro, C. caboclo, C. saladensis e C. vanderi e integra uma linhagem mais abrangente tradicionalmente denominada clado C. spilurus. Dentro do clado C. saladensis, C. vanderi ocupa a posição mais basal, formando o grupo-irmão de uma linhagem na qual C. saladensis é irmã do par constituído por C. caboclo e C. boiadeiro. A relação entre estas duas últimas espécies recebeu suporte elevado, com bootstrap de 94%, enquanto o agrupamento formado por elas e C. saladensis apresentou suporte moderado, de 62%.

A proximidade entre C. boiadeiro e C. caboclo é corroborada por caracteres morfológicos e moleculares. Ambas possuem uma faixa escura fina ao longo da região médio-lateral do corpo, que permanece separada da mancha do pedúnculo caudal, além de modificações no sistema látero-sensorial. Diferem, contudo, pelo desenvolvimento da linha lateral: em C. boiadeiro, ela é incompleta e se alonga ontogeneticamente, com aumento do número de escamas perfuradas à medida que o indivíduo cresce, enquanto em C. caboclo é interrompida e não apresenta relação entre o número de poros e o tamanho corporal. A mancha caudal de C. boiadeiro é única, arredondada ou levemente alongada horizontalmente, ao passo que C. caboclo possui duas manchas que podem permanecer separadas ou fundir-se, formando uma figura piriforme ou semelhante à letra T. A distância genética média entre as duas espécies, calculada para o gene mitocondrial COI pelo modelo de Kimura de dois parâmetros, foi de 3,5%, enquanto a divergência intraespecífica registrada em C. boiadeiro foi de aproximadamente 0,2%. A redução do sistema látero-sensorial foi interpretada como uma possível sinapomorfia de C. boiadeiro, C. caboclo e C. saladensis, nas quais os poros estão restritos às escamas anteriores da série longitudinal. A linha lateral completa de C. vanderi seria, nesse contexto, uma condição ancestral conservada. Quanto à pigmentação, C. saladensis, C. boiadeiro e C. caboclo compartilham uma faixa escura médio-lateral fina, ausente em C. vanderi. Em C. saladensis, essa faixa se conecta à mancha do pedúnculo caudal, enquanto em C. boiadeiro e C. caboclo permanece separada dela. A combinação entre as modificações do sistema látero-sensorial e o padrão de pigmentação sustenta o reconhecimento do clado, embora os autores tenham ressaltado que caracteres semelhantes ocorrem por convergência em outras linhagens de Cyphocharax.

Diagnose

Cyphocharax boiadeiro distingue-se da maioria dos seus congêneres pela presença de uma faixa escura longitudinal bem definida que se estende desde o supracleitro até o pedúnculo caudal, tornando-se gradualmente mais tênue a partir da vertical que passa pela inserção da nadadeira adiposa e permanecendo separada da mancha escura do pedúnculo caudal. Esse padrão de pigmentação é compartilhado apenas com C. saladensis, C. signatus e C. spilotus. Diferencia-se de C. saladensis por apresentar a mancha escura restrita à região médio-lateral do pedúnculo caudal em exemplares com mais de 40 milímetros de comprimento padrão, enquanto naquela espécie a mancha é mais alongada e se estende anteriormente até a vertical da nadadeira adiposa ou além dela. Distingue-se de C. signatus por possuir 13–16 raios peitorais, nadadeira anal sem raios alongados e pedúnculo caudal proporcionalmente mais longo, e de C. spilotus por apresentar nove raios ramificados na nadadeira dorsal, em vez de dez a doze. A espécie também se diferencia da maioria dos representantes de Cyphocharax por apresentar um sistema látero-sensorial truncado, resultando em uma linha lateral incompleta cujo número de escamas perfuradas aumenta ao longo do crescimento. Essa condição é compartilhada apenas com C. aninha, C. gangamon, C. punctatus, C. saladensis, C. signatus e C. vexillapinnus. Além disso, C. boiadeiro distingue-se de C. laticlavius, C. modestus e C. naegelii por apresentar uma única mancha escura arredondada ou ligeiramente alongada horizontalmente no pedúnculo caudal, em vez de uma continuação da faixa lateral do corpo nessa região. Difere ainda de C. helleri, C. multilineatus e C. pantostictos por possuir apenas uma faixa longitudinal escura ao longo do corpo, em vez de múltiplas faixas ou séries de manchas entre as fileiras de escamas, e de C. biocellatus, C. jagunco, C. albula, C. punctatus, C. vanderi e C. voga pela ausência de duas ou mais manchas escuras bem definidas distribuídas ao longo da lateral do corpo.

Descrição

Cyphocharax boiadeiro é uma espécie de pequeno porte, atingindo pelo menos 60,7 milímetros de comprimento padrão nos exemplares examinados. O corpo é moderadamente alongado e relativamente alto, com altura máxima correspondente a 34–41,4% do comprimento padrão, com média de 38,2%. O perfil dorsal da cabeça é moderadamente convexo desde a ponta do focinho até a origem da nadadeira dorsal, ligeiramente convexo ao longo da base dessa nadadeira, reto entre sua extremidade posterior e a origem da adiposa e levemente côncavo até os primeiros raios procorrentes da caudal. O perfil ventral da cabeça é convexo desde o lábio inferior até o istmo, enquanto o do corpo é suavemente convexo até a origem das nadadeiras pélvicas, mantendo-se convexo até o término da base da anal e tornando-se discretamente côncavo em direção ao pedúnculo caudal. A região pré-pélvica é algo achatada transversalmente, ao passo que a pós-pélvica apresenta contorno arredondado. A cabeça possui perfil anterior arredondado e aspecto geral afilado, medindo 27,6–32,9% do comprimento padrão. A boca é subterminal, situa-se aproximadamente alinhada à margem inferior dos olhos e apresenta a maxila superior ligeiramente mais longa que a inferior. As narinas são muito próximas entre si, sendo a anterior circular ou ovalada e a posterior semilunar, enquanto a pálpebra adiposa é pouco desenvolvida e se restringe principalmente à região anterior da órbita. Em relação ao comprimento da cabeça, o focinho representa 21,2–30,9%, o diâmetro orbital 31,7–41,6%, a região pós-orbital 36,6–44,6% e a largura interorbital 30,9–41,2%.