Estudos Africanos no Brasil Os Estudos Africanos no Brasil intensificaram-se a partir da década de 1960. Anteriormente, no início do século XX, em um contexto posterior à Proclamação da República, a África era analisada principalmente em relação aos seus descendentes no Brasil. Nesse cenário, buscava-se construir uma identidade nacional baseada em padrões eurocêntricos sustentados pelas teorias do racismo científico, que colocavam o branco como símbolo de evolução e superioridade.

Ao estabelecer que o negro era caracterizado por termos negativos, especialmente em torno do chamado “problema do negro” e da diáspora africana, surgiram dois campos de pesquisa: os estudos africanos e os estudos afro-brasileiros, que durante muito tempo caminharam juntos. Ainda assim, os primeiros autores que trataram diretamente da África tornaram-se pioneiros na consolidação desse campo acadêmico.

Autores e Instituições Pioneiras Os primeiros autores dedicados ao estudo da presença africana no Brasil tiveram papel fundamental na formação dos Estudos Africanos. Suas pesquisas ajudaram a construir as bases desse campo de estudo e marcaram o início de uma trajetória posteriormente institucionalizada nas universidades brasileiras. miniaturadaimagem|Raymundo Nina Rodrigues Raymundo Nina Rodrigues é considerado o primeiro cientista brasileiro a dedicar-se ao estudo das populações de origem africana no país. Influenciado pelo positivismo e pelas teorias do racismo científico, recolheu memórias de africanos remanescentes na Bahia e destacou que compreender a população negra no Brasil exigia também estudar a África. Diferentemente da visão dominante da época, que tratava todos como um grupo homogêneo de “negros”, identificou diferentes etnias e ressaltou suas especificidades culturais.

O primeiro trabalho acadêmico sobre Estudos Africanos publicado no Brasil foi escrito pelo cientista político espanhol Luís Beltrán. Nesse estudo, o autor demonstrava preocupação com a ausência de separação entre os campos dos estudos africanos e dos estudos afro-brasileiros. Tal dificuldade de delimitação decorria da insistência em buscar uma “pureza” ou “essência africana” na religião praticada no Brasil. Manuel Raimundo Quirino destacou-se como um dos pioneiros nos estudos africanos no Brasil, diferenciando-se por sua abordagem valorativa e humanista. Ao contrário de seus contemporâneos influenciados pelo racismo científico, argumentava que o africano não era um elemento passivo ou bárbaro, mas um “colono” fundamental para o desenvolvimento econômico e cultural do país. Enfatizava as habilidades técnicas e os conhecimentos trazidos por esses grupos para o Brasil.

Arthur Ramos foi um importante nome na consolidação dos estudos sobre a população negra no Brasil. Discípulo de Raymundo Nina Rodrigues, iniciou suas pesquisas sob influência das teorias raciais, mas incorporou ao longo de sua trajetória abordagens voltadas para os aspectos culturais. Seus estudos contribuíram para deslocar o foco da análise biológica para a compreensão das práticas sociais e culturais das populações de origem africana, ampliando as possibilidades de interpretação sobre a formação da sociedade brasileira.

Edison Carneiro destacou-se como pesquisador das manifestações culturais afro-brasileiras, especialmente do folclore e das religiões de matriz africana. Seus trabalhos contribuíram para dar visibilidade e reconhecimento a práticas culturais historicamente marginalizadas, ampliando o campo dos estudos afro-brasileiros e reforçando sua importância na formação da identidade nacional.

Gilberto Freyre tornou-se figura central na reorientação dos estudos sobre a formação social brasileira a partir da década de 1930. Sua obra propôs ruptura com as teorias raciais deterministas que viam a miscigenação como fator de degeneração. Em vez disso, Freyre valorizou a mistura entre portugueses, indígenas e africanos como base de uma identidade nacional singular, fundamentando aquilo que posteriormente ficou conhecido como mito da “democracia racial”.

Apesar dessa valorização cultural, a perspectiva de Freyre mantinha um viés luso-centrado. Em suas análises, o colonizador português aparecia como protagonista da história, enquanto o africano ocupava papel secundário, valorizado sobretudo por sua capacidade de adaptação ao modelo colonial. Essa visão enfatizava uma suposta harmonia nas relações sociais da casa-grande, minimizando os conflitos inerentes ao sistema escravista.

Posteriormente, Freyre desenvolveu a teoria do lusotropicalismo, segundo a qual Portugal possuiria uma aptidão natural para conviver com povos tropicais. Essa formulação foi utilizada como justificativa ideológica pelo regime salazarista para manter o domínio colonial português na África. Embora tenha sido pioneiro ao organizar eventos como o I Congresso Afro-Brasileiro, sua trajetória é marcada pela ambiguidade entre a valorização da cultura afro-brasileira e a defesa do legado colonial.

Instituições dos Estudos Africanos no Brasil miniaturadaimagem|Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia O Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), fundado em 1959 e vinculado à Universidade Federal da Bahia, destaca-se como uma das primeiras instituições voltadas ao estudo das culturas africanas e afro-brasileiras no Brasil. Surgiu em um contexto de valorização das heranças africanas na formação da sociedade brasileira, especialmente na Bahia. Segundo Mariana Schlickmann, a criação do CEAO esteve ligada à Política Externa Independente (PEI), que buscava estreitar relações diplomáticas e intelectuais com as nações africanas e asiáticas em processo de independência.

O CEAO desenvolve pesquisas, atividades de extensão e iniciativas acadêmicas voltadas às culturas africanas, afro-brasileiras e asiáticas. Diferentemente de modelos anteriores, que tratavam o tema sob uma perspectiva folclórica ou luso-centralizada, a instituição consolidou a produção de conhecimento científico rigoroso, destacando-se pelas pesquisas etnográficas e pela criação da revista Afro-Ásia. Esse esforço editorial contribuiu para superar o isolamento bibliográfico da área e estabelecer um padrão acadêmico para os estudos africanos no Brasil.

A instituição também desempenha papel importante na cooperação internacional, participando de programas de intercâmbio e estabelecendo vínculos com países africanos. Suas ações incluem apoio a estudantes e pesquisadores e o desenvolvimento de projetos voltados à valorização das identidades culturais e das relações históricas entre Brasil e África. O CEAO atuou, assim, como um polo de resistência intelectual ao colonialismo, permitindo compreender a África como continente de vanguarda política e não apenas como espaço de tradições do passado.

O Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos (IBEAA), fundado em 1961, surgiu em um contexto de reformulação da política externa brasileira, buscando maior aproximação com os países em processo de independência na África e na Ásia. Idealizado por intelectuais como Cândido Mendes, o instituto foi vinculado à Presidência da República para garantir autonomia frente aos setores diplomáticos influenciados pelos interesses coloniais portugueses.

Durante a década de 1960, o IBEAA desempenhou importante papel como espaço de produção de conhecimento e diálogo político. Sob coordenação de figuras como Eduardo Portella, criticava o distanciamento do Brasil em relação ao continente africano e buscava fomentar pesquisas conectadas aos movimentos de libertação do Terceiro Mundo. Funcionava como um polo de resistência intelectual e de formulação de uma nova consciência sobre a identidade afro-brasileira.

Após mudanças políticas, o IBEAA transformou-se, em 1973, no Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Universidade Cândido Mendes (UCAM). Mesmo assim, manteve relevância como ponto de encontro entre acadêmicos e o Movimento Negro. Por meio de reuniões e debates, ajudou a pautar questões raciais e internacionais, consolidando-se como uma das principais instituições para a institucionalização dos estudos africanos no Brasil.

O Centro de Estudos Africanos (CEA) da Universidade de São Paulo (USP), fundado em 1963, constitui uma das principais instituições dedicadas ao desenvolvimento dos estudos africanos no país. Vinculado à USP, promove pesquisas, cursos e atividades acadêmicas voltadas à compreensão das sociedades africanas, contribuindo para a formação de pesquisadores e para a ampliação do conhecimento sobre o continente africano no meio universitário.

Desde sua criação, o CEA passou a ocupar lugar importante na produção e difusão de conhecimento sobre a África. A instituição incentiva pesquisas sobre aspectos históricos, sociais, políticos e culturais do continente.

Trajetória Histórica Durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, predominou-se uma perspectiva eurocêntrica, influenciada por teorias como Positivismo, Evolucionismo e Darwinismo, que representavam o continente africano de forma negativa, associando ao atraso e ao não-histórico, considerando a África como um espaço sem autonomia de estudo. Nesse sentido, os africanos eram tratados como sujeitos inertes à historicidade, vistos apenas como subordinados da história dos europeus e a lógica da escravidão. Essa visão dialoga com a concepção de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, analisada por Carlos Lopes, em sua produção denominada “A Pirâmide Invertida - Historiografia Africana feita por Africanos”, na tese de Hegel, a África era entendida como um espaço sem desenvolvimento histórico próprio, situada frequentemente fora da história universal.LOPES, Carlos. A Pirâmide Invertida – Historiografia Africana feita por Africanos. Actas do Colóquio Construção e ensino da História de África Tal pensamento contribuiu para ratificar a exclusão do continente africano dos estudos acadêmicos e sua redução ao secundaríssimo na história ocidental, tida por muito tempo, como a história universal.

A África e o Sistema Educacional brasileiro No ensino brasileiro por muito tempo a presença negra estava restrita a algumas lamúrias nas poucas páginas dedicadas à escravatura e a África e os africanos – mas também a Ásia – apareciam não como possuidores de historicidade própria, mas como meros anexos na história da expansão europeia. Passado esse capítulo da história europeia desapareciam misteriosamente, deixavam de "existir".

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