O CSS Alabama foi uma chalupa de guerra, com propulsão mista a vapor e vela, construída em 1862 para a Marinha dos Estados Confederados em Birkenhead, no rio Mersey, em frente a Liverpool, Inglaterra, pela firma John Laird Sons and Company. Alabama serviu como navio corsário (commerce raider) obtendo grande sucesso no ataque a navios mercantes e de guerra da União. A sua carreira durou dois anos, durante os quais nunca atracou num porto dos Estados Confederados, terminando com o afundamento do navio em junho de 1864, pelo na Batalha de Cherbourg, travada fora do porto de Cherbourg, França. História Construção em Birkenhead O Alabama foi construído em 1862, em segredo quanto ao seu propósito, pelos construtores navais britânicos John Laird Sons and Company, no noroeste de Inglaterra, nos seus estaleiros em Birkenhead, Wirral, em frente a Liverpool. A construção foi organizada pelo agente confederado Comandante James Bulloch, que liderou a aquisição de navios extremamente necessários para a incipiente Marinha dos Estados Confederados.
O contrato foi celebrado através da Fraser Trenholm Company, um corretor de algodão de Liverpool com ligações à Confederação. De acordo com a lei de neutralidade britânica em vigor, era possível construir um navio concebido como um navio armado, desde que só fosse efetivamente armado depois de estar em águas internacionais. Tendo em conta esta lacuna legal, o Alabama foi construído com conveses reforçados para colocação de canhões, depósitos de munições abaixo do nível da água, e outras estruturas com propósito bélico, mas não foi equipado no estaleiro com armamento ou qualquer equipamento bélico.
Inicialmente conhecido apenas pelo seu número de estaleiro Ship number 0290, foi lançado como Enrica em 15 de maio de 1862 e zarpou secretamente de Birkenhead em 29 de julho de 1862,Wilson, Walter E. and Gary L. McKay (2012). "James D. Bulloch; Secret Agent and Mastermind of the Confederate Navy". Jefferson, NC: McFarland, pp. 76, 80 com uma tripulação civil. O capitão da União Tunis A. M. Craven, comandante do , encontrava-se em Southampton incumbido de intercetar o novo navio, mas não teve êxito.
O novo navio confederado era movido a vela e por um motor a vapor marítimo, horizontal, de dois cilindros da John Laird Sons and Company, com 300 cv,"English Accounts", The New York Times, 1864-07-06.Bowcock, Andrew. CSS Alabama, Anatomy of a Confederate Raider, Chatham Publishing, London, 2002. ISBN 1-86176-189-9. p. 139. que acionava uma única hélice de latão de duas pás, do tipo hélice Griffiths. Na altura, um cilindro era também designado por motor, pelo que a máquina em causa, que tinha dois cilindros, podia também ser designada por um par de motores, como se encontra frequentemente na literatura.
O chaminé em funil era telescópica e podia ser levantado e baixado por cabrestantes para disfarçar o facto de o navio ser movido a vapor.Bowcock, Andrew. CSS Alabama, Anatomy of a Confederate Raider Chatham Publishing, London, 2002. ISBN 1-86176-189-9. p. 179. Com a hélice retraída utilizando o mecanismo de elevação em latão construído na popa, o Alabama podia atingir 10 nós apenas com a vela e 13,25 nós quando a vela e a energia a vapor eram utilizadas em conjunto.
Armamento e comissionamento na ilha Terceira (Açores) O agente Bulloch tinha contratado uma tripulação civil, e um capitão civil, para navegar o Enrica até à ilha Terceira, nos Açores. Com Bulloch ao seu lado, o novo capitão do navio, Raphael Semmes, deixou Liverpool a 13 de agosto de 1862 a bordo do vapor Bahama para assumir o comando do novo vaso de guerra. Semmes chegou à ilha Terceira a 20 de agosto de 1862 e começou a supervisionar o reequipamento do novo navio com várias provisões, incluindo armamento, e 350 toneladas de carvão, trazidas pelo Agrippina, o navio de abastecimento do seu novo navio.
Após três dias de trabalho das tripulações dos três navios, o Enrica foi equipado como um cruzador naval, designado como commerce raider, para os Estados Confederados da América. Após a sua entrada em serviço como CSS Alabama, Bulloch regressou a Liverpool para continuar o seu trabalho secreto para a Marinha Confederada.Wilson, Walter E. and Gary L. McKay (2012). "James D. Bulloch; Secret Agent and Mastermind of the Confederate Navy". Jefferson, NC: McFarland. pp. 90-92
A artilharia de fabrico britânico do Alabama consistia em seis canhões navais de 32 libras, de cano liso e carregamento pela boca, do tipo bordada (três disparando para bombordo e três disparando para estibordo) e dois canhões maiores e mais potentes, do tipo pivotante. Os canhões pivotantes eram colocados à frente e à ré do mastro principal e posicionados aproximadamente a meia-nau ao longo da linha central do convés. A partir dessas posições, podiam ser rodados para disparar a bombordo ou a estibordo do navio. O canhão de pivot de proa era um pesado canhão de longo alcance de 100 libras, com calibre de 7 polegadas (178 mm) do tipo Blakely. O canhão de pivot de ré era um canhão grande, de 8 polegadas (203 mm), de cano liso.
O navio foi propositadamente comissionado a cerca de uma milha náutica ao largo da ilha Terceira, ao tempo em águas internacionais, no dia 24 de agosto de 1862. Todos os homens do Agrippina e do Bahama tinham sido transferidos para o convés do Enrica, onde os seus 24 oficiais, alguns dos quais sulistas, se encontravam em uniforme completo. O capitão Raphael Semmes subiu ao berço de uma das peças de artilharia e leu a sua comissão assinada pelo presidente da Confederação, Jefferson Davis, autorizando-o a assumir o comando do novo vaso de guerra. Depois de terminada a leitura, músicos reunidos entre as tripulações dos três navios executaram a música Dixie, enquanto o contramestre arriava as cores britânicas do Enrica. Com o disparo de um canhão de sinalização, a nova bandeira de batalha e o galhardete de comissionamento do navio foram desfraldados nos topes da mezena e do mastro real. Com esta cerimónia, o navio tornou-se o vapor dos Estados Confederados Alabama, o CSS Alabama. O lema do navio, que era Aide-toi et Dieu t'aidera (francês que se traduz aproximadamente como: Deus ajuda aqueles que se ajudam a si próprios), foi gravado no bronze da grande roda do leme dupla do navio.
O capitão Semmes fez então uma alocução sobre a causa sulista dirigida aos marinheiros reunidos no convés (poucos dos quais eram americanos), pedindo-lhes que se alistassem para uma viagem de duração e destino desconhecidos. Na realidade, Semmes tinha apenas os seus 24 oficiais, estando em falta toda a restante guarnição para o seu novo comando. Quando a proposta não foi bem sucedida, ofereceu um prémio em dinheiro para quem se alistasse e salário duplo, pago em ouro, acrescido de um prémio adicional, em dinheiro, a ser pago pelo Congresso confederado por cada navio da União que fosse destruído. Os homens começaram a gritar Hear! Hear! (Atenção! Ouçam!) em resposta às ofertas feitas. Nesse dia 83 marinheiros, muitos deles britânicos, alistaram-se para prestar serviço na Marinha da Confederação. Bulloch e os restantes marinheiros embarcaram então nos seus respectivos navios para regressarem a Inglaterra. Semmes ainda precisava de mais 20 ou mais homens para ter uma guarnição completa, mas, ainda assim, havia o suficiente para, pelo menos, lidar com o novo commerce raider. O resto seria recrutado a partir das tripulações capturadas de navios apresados ou em portos de escala amigos. Muitos dos 83 tripulantes que se alistaram nesse dia permaneceram durante toda a viagem do navio. Os cruzeiros do CSS Alabama Sob o comando do capitão Semmes, o Alabama passou os seus primeiros dois meses no Atlântico Leste, indo para sudoeste dos Açores e depois para leste daquele arquipélago, capturando e queimando navios mercantes dos estados nortistas.
Após uma difícil travessia do Atlântico, continuou a sua viagem nas costas da Nova Inglaterra. Em seguida, navegou para sul, chegando às Índias Ocidentais onde causou mais estragos antes de finalmente navegar para oeste, em direção ao Golfo do México. Aí, em janeiro de 1863, o Alabama teve o seu primeiro combate militar. O Alabama enfrentou e afundou rapidamente o vapor de rodas da União ao largo da costa do Texas, perto de Galveston, capturando a tripulação daquele navio de guerra. Depois prosseguiu para sul, acabando por atravessar o equador, obtendo o maior número de capturas da sua carreira de corso enquanto navegava ao largo da costa do Brasil.
Após uma segunda travessia do Atlântico em direção a leste, o Alabama navegou ao longo da costa sudoeste de África, onde continuou a campanha contra o comércio nortista. Depois de escalar Saldanha Bay, a 29 de julho de 1863, para verificar que não havia navios inimigos em Table Bay, fez finalmente uma muito necessária visita de reequipamento e reaprovisionamento à Cidade do Cabo, África do Sul. Em consequência desta visita, o Alabama é tema de uma canção popular africâner (afrikaans), intitulada Daar kom die Alibama, ainda hoje popular na África do Sul.
A partir da Cidade do Cabo, o navio navegou para as Índias Orientais, onde passou seis meses, destruindo mais sete navios, antes de regressar pelo Cabo da Boa Esperança, a caminho de França. Os navios de guerra da União tentaram frequentemente interceptar o corsário confederado, mas nas poucas ocasiões em que o Alabama foi avistado, escapou aos seus perseguidores, desaparecendo no horizonte.
No total, queimou 65 navios da União de vários tipos, a maioria dos quais navios mercantes. Durante todas as incursões do Alabama, as tripulações e passageiros dos navios capturados nunca foram feridos, apenas detidos até poderem ser colocados a bordo de um navio neutro ou desembarcados num porto amigo ou neutro.
No total, o Alabama efectuou um total de sete ataques expedicionários, abrangendo boa parte do globo, antes de rumar a França para ser reequipado e reparado: A incursão expedicionária do CSS Alabama no Atlântico Oriental (agosto-setembro de 1862) — começou imediatamente após a sua entrada em serviço. Partiu para as rotas marítimas a sudoeste e depois a leste dos Açores, onde capturou e queimou dez navios unionistas, na sua maioria baleeiros; O raide expedionário nas costas da Nova Inglaterra (outubro-novembro de 1862) — começou depois de o capitão Semmes e a sua tripulação terem partido para a costa nordeste da América do Norte, ao largo da Terra Nova e da Nova Inglaterra, de onde se deslocou para sul até às Bermudas e à costa da Virgínia, queimando dez navios e capturando e libertando outros três; A incursão expedicionária no Golfo do México (dezembro de 1862 - janeiro de 1863) — começou quando o Alabama efectuou um encontro necessário com o seu navio de abastecimento, o CSS Agrippina. Posteriormente, prestou auxílio às forças terrestres confederadas durante a Batalha de Galveston, na costa do Texas, afundando o navio da União . Expedição ao Atlântico Sul (fevereiro-julho de 1863) — foi a sua fase de ataque mais bem sucedida, tendo ganho 29 presas ao largo da costa do Brasil. Aqui, recomissionou o barco Conrad como ; Expedição ao Oceano Índico (setembro-novembro de 1863) — envolveu uma viagem de quase 4500 milhas (7250 km) através do Oceano Índico,Fox, p. 179 evadindo com sucesso a canhoneira da União Wyoming, o navio conquistou três presas perto do Estreito de Sunda e do Mar de Java.Fox, pp. 180, 182, 183. Expedição ao Pacífico Sul (dezembro de 1863) — foi a sua última incursão, na qual o Alabama ganhou algumas presas no Estreito de Malaca antes de regressar a França para ser reequipado e reparado. Após a conclusão das suas sete incursões expedicionárias, o Alabama esteve no mar 534 dias, num total de 657, sem nunca ter visitado um porto confederado. Abordou cerca de 450 navios, capturou ou incendiou 65 navios mercantes da União e fez mais de 2 000 prisioneiros sem qualquer perda de vidas entre os prisioneiros ou a sua própria tripulação. O recontro naval de Cherbourg (1864)