Lunda Norte é uma das 18 províncias de Angola, localizada no nordeste do país. A capital é a cidade de Dundo-Chitato, no município de Chitato.
A província conta com uma população de habitantes, segundo as projeções populacionais de 2018 elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, numa área territorial de .
É constituída pelos municípios de Cambulo, Capenda Camulemba, Caungula, Chitato, Cuango, Cuílo, Lubalo, Lucapa, Lóvua e Xá-Muteba, subdivididos em 26 comunas.
História Até meados do primeiro milênio da era cristã a região da província era, provavelmente, povoada por povos pigmeus, que nos dias atuais habitam mais ao norte, no Congo-Quinxassa. Esses habitantes foram deslocados por diversas tribos bantas que, em sua migração ao sul, ocuparam quase a totalidade de Angola.
A medida que os bantos foram se afastando uns dos outros, novos dialectos passaram a existir, dando início a sub-definições étnicas, sendo que as principais a surgir na região foram os povos chócues e ganguelas
Formação política
miniatura|200px|esquerda|A escultura Pensador (ou Samanhonga), fotografada em 1936, ícone da cultura lunda-chócue A região leste de Angola, compreendida entre Lunda Norte e o norte do Cuando-Cubango, assim como parte da República Democrática do Congo e Zâmbia, foi unificada, em 1590, sob a égide do rei Muanta Gandi, que formou o reino Lunda, um poderoso Estado pré-colonial que tinha inicialmente sede em Mussumba, atualmente no sul do Congo.Lunda. Medicare Club Angola. 2018. O reino Lunda acabou por empurrar para o norte o reino Macoco e para o oeste o reino de Jaga-Cassange, que tinham influência nos territórios atuais da província.O Reino da Lunda. Portal Geledés. 28 de outubro de 2016. O Estado Lunda acabou por tornar-se, no século XVII, o Império Lunda (1º império), que por fim esfacelou-se em vários Estados confederados em virtude de inúmeras guerras pelo trono da rainha Lueji A'Nkonde.
O enfraquecimento do 1º Império Império Lunda permitiu que, à oeste deste, entre as Escarpas de Malanje e o vale do rio Cuílo, se reestabelecesse o Reino de Cassange (ou Jaga-Cassange) entre o final do século XVII e o início do século XVIII. A sua marca mais forte foi a fundação da Feira de Cassange (atual Xá-Muteba). Neste local estavam concentradas as rotas, mercadorias e comerciantes entre as regiões centro-africanas e o litoral. A Feira de Cassange foi o principal centro econômico-comercial e mesmo político e social da zona entre Luanda e as Lundas. Os estados tributários de Cassange recorriam à Feira de Cassange para pagar seus tributos. O primeiro sinal de declínio ocorreu na década de 1840, quando o controle português é reforçado nas zonas de Encoje, Pungo-Andongo e Calandula, passando a reduzir o comércio escravagista concentrado na Feira de Cassange. Porém, a ocorrência das Guerras da Baixa de Cassange, entre 1850 e 1862, teve um impacto duradouro na força do centro comercial. Ao final do conflito, o Reino de Cassange passou a investir no comércio de cera, óleos vegetais e marfim na Feira, porém não abandonando o mercado escravagista. A localidade de Feira de Cassange teve seu declínio total na década de 1880 após a política de espoliação e cercamento de terras promovidos pelos portugueses, além da criação de caravanas de comércio europeias com ligação direta com o Reino Lunda.
O principal ente confederado substituto do Império Império foi Reino Lunda-Chócue, que tinha sede em Luena e zona importante em Saurimo. A divisão dos lundas fez com que nas terras de Lunda Norte se constituísse o Estado Confederado Lunda-Capenda, com sede na Capenda Camulemba, e o Estado Confederado Lunda-Muteba, com sede em Xá-Muteba. O próprio Reino Lunda-Chócue costurou a formação de um 2º Império Lunda, em meados do século XIX.
As potências colonias, Bélgica, Grã-Bretanha e Portugal, não aceitaram a formação dessa nova unidade imperial, fazendo diversas incursões militares na região, até que, como resultado da Conferência de Berlim, procederam a divisão definitiva dos lundas, extinguindo-se Lunda-Capenda e Lunda-Muteba.
Colonização e guerras
O ano de 1912 é marcado pelo retorno do interesse colonial na região, após dois geólogos da empresa Forminière encontrarem diamantes no ribeiro Mussalala. Neste mesmo ano foi formada a Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola, na qual as primeiras explorações mineiras foram localizadas através do rio Chicapa e, também, seus afluentes. Funda-se o acampamento base em Dundo-Chitato.É preciso projectar uma Lunda Norte sem diamantes – Francisco da Rosa. Portal Angop. 5 de julho de 2021.
Em 1917 a Diamang passa a operar na mineração de diamantes na região de Lunda Norte, assumindo o acampamento de Dundo-Chitato, construindo muitas infraestruturas neste, tornando-o uma cidade operária.
No final da década de 1960 a guerra atinge Lunda Norte, com a abertura da "Frente Leste" e da "Rota Agostinho Neto" pelo MPLA, expulsando os portugueses da maioria do território.MPLA/ Rota Agostinho Neto. Associação 25 de Abril. 2020. A partir de 1973 a UNITA passou a pressionar fortemente as posições de seus inimigos em terras lundenses, com o MPLA conseguindo empurrar a guerra para longe no início de 1976, já na Operação Carlota. A FNLA, porém, consegue permanecer nas bordas congolesas da província representando certa ameaça de 1967 até o início da década de 1980.
Formação da província No dia 4 de julho de 1978, pelo decreto-lei nº. 84/78, a província do Lunda Norte foi oficialmente criada pelo governo angolano, a partir da separação da província de Lunda Sul. A capital foi estabelecida provisoriamente em Lucapa, enquanto que uma nova capital seria construída na região do Mulepi, plano que foi posteriormente abortado.História. Governo da Lunda Norte. 2015.
No ano de 1997, a capital de facto da província passou a ser o Dundo-Chitato, por possuir uma estrutura administrativa melhor que a cidade de Lucapa. A transferência foi ratificada como definitivo no ano de 2000. Para albergar essa nova realidade, como capital provincial, o governo iniciou, no final da década de 2000, o projeto "Centralidade do Dundo" ou "Novo Dundo", para melhoria das infraestruturas da cidade do Dundo-Chitato como centro administrativo e de governo de Lunda Norte.
Geografia miniatura|200px|esquerda|Fragmento florestal da província, no município de Cambulo, em 2005. Para fins estatísticos, a província norte-lundense está localizada no leste do país, embora geograficamente disponha-se mais ao nordeste de Angola. Toda sua faixa territorial noroeste, norte, nordeste e leste faz fronteira com o Congo-Quinxassa. Ao sudeste e sul, sua fronteira dá-se com a província de Lunda Sul, e ao sudoeste e oeste sua fronteira dá-se com Malanje. A faixa sudoeste que divide com Malanje é, inclusive, a histórica região da Baixa de Cassange, enquanto que entre os rios Loange e Cassai eram terras historicamente de domínio Lunda.
Ecologia, flora e fauna Ao norte e leste da província domina o "mosaico floresta-savana do sul da bacia do Congo",Angola Vegetation. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973. uma ecorregião composta de florestas, savanas e pastagens. Já ao oeste e sudoeste, a paisagem é dominada pela ecorregião das "florestas de miombo angolanas", com flora de savana de folha larga decídua úmida e floresta com domínio de miombo, além de pastagens abertas.
Clima Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger predomina, na maior parte da província, o clima tropical de savana (Aw/As) com uma temperatura média de 27ºC por ano e o regime de chuvas pode ser até torrencial. A média das chuvas é de 1.400 mm, sendo que a quantidade máxima é de 1.500 mm e a mínima de 1.200 mm. Na faixa sudeste de Lunda Norte predomina o clima subtropical úmido (Cwa).
Demografia A população de Lunda Norte é constituída maioritariamente pelos chócues, coexistindo com porções de grupos etnolinguísticos congos e ambundos.Angola ethnic groups. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973. Em função das guerras na fronteira, um grande contingente de refugiados quinxassa-congoleses — majoritariamente das etnias lunda, bena-luluaLosing control in Kasaï. Africa Confidential. 21 de julho de 2017. e pende,Betts, Alexander. Survival Migration: Failed Governance and the Crisis of Displacement. Cornell University Press. Agosto de 2013. p. 94. ISBN-13: 978-0801477775. e em menor número de congos do norte — migrou para terras norte-lundenses.Acnur e parceiros dão apoio mental a refugiados em Angola. ONU News. 26 de julho de 2019.Agência da ONU cria espaço seguros para meninas refugiadas em Angola. ONU News. 17 de janeiro de 2018. Grupos minoritários incluem imbangalas, com outras frações étnicas não bantas relevantes de luso-angolanos e ango-brasileiros.
Hidrografia Importantes rios cortam terras norte-lundenses, com destaque para o Cassai, o Luachimo, o Chiumbe-Luateche e o Cuango. Outros rios relevantes são o Luangue, o Chicapa, o Lui, o Cuílo, o Luembe, o Lóvua, o Lubalo, o Cacuilo e o Cuengo (os quatro últimos com nascente na província). Todos os rios citados são tributários do Cassai que, por sua vez, é um dos maiores tributários da bacia do Congo.Britannica, The Editors of Encyclopaedia. "Kasai River". Encyclopedia Britannica, 15 Mar. 2016. Accessed 21 November 2021.
Relevo A média relativa a nível do mar na província é de cerca de 900m, sendo que cerca de 1100m no interior e de 700m nas fronteiras. Em alguns locais, como o centro da província, a altitude pode alcançar cerca de 1200m — nas serras da Sucumuna, do Muhondo e de Capenda-Cuilo, todas extensões do grande Planalto da Lunda, que domina o relevo provincial.Marks, Shula E.. "Southern Africa". Encyclopedia Britannica, 30 Sep. 2020. Accessed 19 January 2022.Pereira Neto, Francisco António, Estudo da Sismicidade Natural de Angola e Desencadeada no Médio Kwanza (Dissertação de Mestrado). Brasília: Universidade de Brasília. 2014. pg. 19. Do nordeste para o sudeste a altitude pode diminuir até 700m, porém chega a cerca de 1000m no Monte Muriá. Ao sudoeste o destaque é a Serra de Tala Mungongo (ou Escarpas de Malanje), enquanto que ao noroeste as extensões do Planalto do Cuango.
Economia O ano 1912 marca a descoberta de diamantes pela empresa Forminière no ribeiro Mussalala. No mesmo ano foi formada a Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola, que comecou a explorar o rio Chicapa e afluentes, fundando-se o acampamento base em Dundo-Chitato. Em 1917 a companhia mineradora Diamang assume o acampamento, construindo novas infraestruturas, tornando o assentamento numa cidade operária.
A Lunda Norte chegou a registrar, no ano de 1971, um recorde 2.413.021 quilates de diamantes extraídos pela empresa privada multinacional Diamang, substituída em 1981 pela estatal angolana Endiama.
Agropecuária e extrativismo miniatura|200px|esquerda|Mina de Chitotolo, em 2001. Na lavoura temporária, destacam-se no Lunda Norte as produções de arroz, mandioca, milho, amendoim, batata doce, feijão cutelinho e abacaxi ananás; já a lavoura permanente encontra excedentes na produção de goiabas, mamões, mangas e abacates.
Na pecuária de corte e leite, a província possui um grande rebanho de bovinos, havendo também criações de caprinos e suínos, além de criação de galináceos (para carne e ovos); em outro aspecto os muitos rios de Lunda Norte dão a possibilidade da extração de um enorme excedente pesqueiro.
Indústria e mineração A província da Lunda Norte possui uma importantíssima indústria mineira, com a extração de diamantes e ouro, com destaque para as operações na mina de diamantes Luó, na mina de diamantes Lucapa e nas minas de Cachimo e Cambulo.