thumb|upright=1.2|Mapa das culturas ibéricas da Idade do Bronze , onde se assinalam as principais minas de estanho e os grupos culturais conhecidos
A cultura argárica ou cultura de El Argar é uma manifestação e expressão dos povoados do sudeste da Península Ibérica na Idade do Bronze, que formaram uma das sociedades mais relevantes na Europa do e e que é uma das melhores estudadas graças ao excelente estado de conservação dos restos arqueológicos. Constitui um complexo cronocultural que é considerado indicativo dos processos de hierarquização social que se estenderam pela Andaluzia e Levante peninsular. O seu nome deve-se ao sítio arqueológico de El Argar, situado no município de Antas, na parte oriental da , sul de Espanha.
Esta cultura arqueológica foi descoberta e definida em finais do pelos irmãos Enrique e . Carateriza-se pela existência de povoados situados em áreas de difícil acesso e/ou fortificados, casas de planta quadrada construídas com pedra e adobe, enterramentos em cistas, () e (covas) debaixo do chão das próprias habitações, uma clara uniformidade material, abundância de armamento militar e uma progressiva estratificação social. Estende-se pelo sudeste da Península Ibérica, ocupando as províncias de Almeria e Múrcia, bem como parte das de Granada, Jaén e Alicante.
A cultura durou cerca de 800 a 900 anos, entre meados do e meados do , distinguindo-se pelo menos duas fases, durante as quais se produziu uma contínua hierarquização social interna e uma expansão externa sobre as regiões vizinhas. Cerca de , a sociedade argárica desapareceu bruscamente.
Introdução esquerda|thumb|Ruínas em Fuente Álamo
A cultura argárica começou a ser objeto de estudo por parte de arqueólogos e outros investigadores devido às escavações dos irmãos belgas Enrique e Louis Siret, engenheiros de minas na , que no assentamento de El Argar estudaram mais de mil enterramentos durante a última década do .
Além do povoado epónimo, os Siret descoriram outros, como El Oficio, Fuente Álamo, Gatas ou Ifre, todos eles situados em Almeria e Múrcia. Nas suas escavações encontraram abundantes inumações efetuadas nas casas argáricas, cujo espólio incluía espadas, alabardas, punhais e adornos metálicos, bem como artefatos de pedra polida e de osso, peças de cerâmica, de têxteis e plantas domesticadas. Posteriormente foram descobertos e escavados muitos outros assentamentos com caraterísticas similares, situados em lugares elevados e bem protegidos, pelo que inicialmente se pensou que os núcleos argáricos eram todos assim, mas começaram a aparecer mais povoados, de menor dimensão, localizados em terreno plano.
As diferenças qualitativas e quantitativas presentes nos espólios funerários levaram a maioria dos autores a considerar que a sociedade argárica seria formada por vários estratos hierarquizados. Segundo alguns, tratar-se-ia de uma sociedade dominada por chefes, caudilhos e/ou príncipes; segundo outros seria já um estado ou, pelo menos um proto-estado.
Origens e área de influência thumb|upright|Taça cerâmica da cultura argárica; coleção do Museu Arqueológico de Espanha
Durante muito tempo acreditou-se que pouco depois do , ao mesmo tempo que tomava forma a cultura campaniforme, tinha lugar no sudeste peninsular um novo impacto colonizador de gentes procedentes do contexto greco-micénico, que seguiam os passos de navegantes mais antigos, instalando-se nos importantes focos mineiros de Almeria e zonas vizinhas. Atualmente verificou-se que a cultura material argárica corresponde à evolução da que existia no estrato anterior, pelo que se descartou a hipótese de colonização.
Durante mais de um século ligaram-se as origens destes grupos ao território almeriense, mas esta relação foi questionada por alguns autores, que consideram mais provável que a cultura argárica seja originária da franja territorial situado entre os rios Vera (na província de Almeria) e Guadalentín (na província de Múrcia).
O descobrimento dos primeiros vestígios argáricos pelos irmãos Siret no final do na região oriental da província de Almeria levou a que durante mais dum século se ligasse a origem desta cultura ao território almeriense. Esta relação começou a ser questionada na primeira década do , começando a considerar-se mais provável que a origem da cultura se encontrasse na franja territorial situada entre os rios Vera (na província de Almeria) e Guadalentín (na província de Múrcia). ou entre as bacias do Almanzora (Almeria) e Segura (Múrcia). Os investigadores Salvador Fontenla, Juan Antonio Gómez e Miguel Miras apontam a localização da atual cidade de Lorca, na Região de Múrcia, e os seus arredores como a provável zona de assentamento original da cultura argárica.
Atualmente existe um certo consenso entre os estudiosos para situar a zona de influência argárica no sudeste peninsular, abarcando um território que ocuparia integralmente as atuais províncias de Almeria e Múrcia, bem como uma boa parte das províncias vizinhas: Albacete, Alicante, Granada, Jaén e Cidade Real. Tal expansão teria sido consequência direta do militarismo argárico, dirigido para zonas estratégicas que permitiam o controlo sobre as vias de comunicação ou sobre recursos agropecuários ou mineiros.
Cronologia esquerda|thumb|upright|Vaso com três pés da coleção do Museu Arqueológico de Espanha; encontrado por em Cuevas del Almanzora
A cronologia da cultura argárica é controversa, mas usualmente é aceite um intervalo entre e ou , embora outros autores referiram o período As primeiras datações denotam uma certa convivência com os grupos calcolíticos até , em alguns momentos marcados pela instabilidade, com uma decadência demográfica e material, assim como níveis de destruição em alguns assentamentos. Embora algumas aldeias calcolíticas tenham sobrevivido durante a Idade do Bronze (casos de Gatas ou Fuente Álamo), estas foram reconstruídas seguindo um padrão totalmente diferentes. A maioria dos assentamentos argáricos eram de nova fundação e apresentavam caraterísticas singulares em comparação com os da época prévia, o que é interpretado como uma transformação social, síncronas com outras que se produziram na Europa e no Mediterrâneo Oriental.
Com base nas oferendas funerárias, foram distinguidos dois períodos: Entre aproximadamente e a sociedade argárica teria sido dominada por uma elite masculina que era enterrada em covachos ou cistas com alabardas e punhais, junto a mulheres associadas a punhais e punções. De a aparecem nos túmulos da elite dominante espadas largas para os homens e diademas para as mulheres; depois deteta-se outro estrato associado aos binómios machado/punhal masculino e punhal/punção feminino. Por baixo destes encontrar-se-iam outros níveis sociais com espólios mais pobres. Uma peculariedade desta época é a da generalização dos túmulos infantis com espólio significativo.
A partir de o mundo argárico começou a entrar em decadência, acabando por colapsar em É possível que a intensificação da atividade agropecuária e de manufatura tivessem provocado a desflorestação e degradação do meio ambiente em grande escala do sudeste peninsular, já de si relativamente árido. Quando o excedente produtivo deixou de ser suficiente para manter a produção secundária e o clientelismo associado aos setores dominantes, o equilíbrio do sistema sociopolítico argárico colapsou.
Paleoecologia A reconstrução do meio ambiente argárico tem sido objeto de disputas e há muitas opiniões diferentes entre os estudiosos. Baseando-se na interpretação ecológica dos restos de fauna encontrados nos sítios arqueológicos (Cerro de la Encina, Cuesta del Negro ou Cabezo Redondo, entre outros) Vicente Lull considera que o paleoambiente do sudeste peninsular durante a Idade do Bronze era muito distinto do atual, com maior caudal hídrico, amplas extensões florestais e fauna abundante.
Sítios arqueológicos thumb|Trecho de muralha em La Bastida de Totana
thumb|Vista de El Castellón Alto
A maioria dos povoados argáricos conhecidos situam-se em locais altos e bem defendidos, embora haja alguns de menor dimensão situados em terreno plano. Os primeiros eram constituídos por edifícios de planta retangular ou trapezoidal construídos em pedra, taipa ou adobe em terraços construídos artificiais das encostas. Há construções de caráter doméstico, com casas, equipamentos e recipientes de armazenamento, e outras, maiores, usadas como oficinas, atividades produtivas e armazéns centralizados. Certos povoados apresentam estruturas defensivas como muralhas e torres, mas a maioria não tinha necessidade disso devido à sua localização estratégica em altura. O tamanho dos povoados era bastante modesto, tendo-se estimado que em núcleos com alguma importância, como Gatas IV e Fuente Álamo III-IV viveriam entre 300 e 500 pessoas, em El Argar umas 500 e 600 em La Bastida de Totana.
O urbanismo consiste em casas compostas por vários recinto de muros direitos e de forma irregular que se agrupam em núcleos compactos, distribuídos em relação com espaços livres e tortuosos, que podemos interpretar como ruas e que se adaptam à configuração do terreno através da construção de terraços escalonados contidas por grandes muros longitudinais. O espaço habitável aparece delimitado por paredes divisórias perpendiculares ao myuro. No cimo encontra-se o núcleo do assentamento que faz as vezes de fortificação. Assim, os antigos povoados calcolíticos de casas circulares foram substituídos por outros de traça mais regular, com ruas bem definidas e habitações retangulares.
Em geral apresentam uma série de serviços comunitários que incluem canalizações de esgotos, cisternas para abastecimento de água, rampas e escadarias entre os níveis da povoação, celeiros, currais para o gado e fornos cerâmicos e metalúrgicos.
Geralmente os assentamentos situam-se perto de fontes de água potável e alguns são vizinhos de minas de cobre e prata. Os "grandes" povoados localizam-se na saída de um vale, numa meseta ou numa encosta bem resguardada, enquanto que os mais pequenos se encontram em pequenos cumes isolados. A cada um dos povoados de caráter "central" correspondem normalmente outros mais pequenos, em jeito de postos avançados que, regra geral, tinham um caminho direto e uma situação de visibilidade que os punha em contacto com o povoado principal.
A organização territorial responde a regras geoestratégicos definidas pelo domínio de: lugares altos facilmente defensáveis; zonas mais adequadas para a produção agropecuária; explorações mineiras; rotas naturais de comunicação.
Enterramentos thumb|esquerda|Enterramento em cista em El Argar
Se há algo que caraterize o grupo argárico são os enterramentos, que se realizavam quase sempre no interior dos espaços habitacionais. As inumações eram feitas no interior de fossas, covachos, cistas ou grandes potes de cerâmica denominados pitos, sendo estes predominantes no litoral, enquanto que no interior eram as fossas. As oferendas funerárias apresentam grandes diferenças entre elas e a sua análise permitiu levantar a hipótese de hierarquização social.
Estes enterramentos são geralmente individuais mas por vezes incluem duas ou mesmo três pessoas de uma mesma família numa cista. Ocasionalmente encontraram-se cenotáfios contendo objetos pessoais mas sem qualquer cadáver, o que parece indicar que por alguma razão não foi possível recuperar o corpo do defunto para que fosse inumado. Os espaços funerários eram selados com uma grande pedra, por sua vez coberta de areia para dar uniformidade ao chão da casa; sobre o local do túmulo era colocada uma pequena pedra para assinalar a localização. Também podiam estar cobertos por lajes de pedra que formavam bancos para trabalhos domésticos. Todos estes aspetos levam a pensar que as comunidades argáricas acreditavam na vida após a morte, o que representa um claro indício da mudança das ideias e da estrutura social em relação ao Calcolítico.
Economia thumb|Espólio funerário segundo os irmãos Siret