Sangue do Meu Sangue é um filme de drama social português de 2011, escrito e realizado por João Canijo. A longa-metragem é interpretada por um ensemble cast liderado por Rita Blanco (como Márcia) e Anabela Moreira (como Ivete), mulheres resilientes que vivem num bairro no subúrbio de Lisboa e que tudo fazem para proteger a família. A produção, estreada a 10 de setembro de 2011 (no Festival de Cinema de Toronto) e a 5 de outubro (comercialmente, em Portugal), resultou, para além do corte teatral, numa versão estendida de 190 minutos, numa minissérie de mesmo nome exibida pela RTP1 e num documentário sobre o processo de escrita do argumento e de trabalho com elenco, intitulado Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor.

Bem recebido pela crítica, Sangue do Meu Sangue foi premiado em diversos festivais de cinema, como no Festival Caminhos do Cinema Português onde, entre outros, ganhou o Grande Prémio do Festival e o Prémio Melhor Argumento Original.Premiados do Festival "Caminhos do Cinema Português". Foi o filme português selecionado para concorrer ao Óscar de Melhor filme estrangeiro.Público

Sinopse Sangue do Meu Sangue é um drama social sobre o amor de uma mãe pela sua filha, o amor de uma tia pelo seu sobrinho. E de como elas estão dispostas a sacrificar tudo para os salvar.

Márcia é mãe solteira de dois filhos, trabalha como cozinheira e partilha a sua casa no Bairro Padre Cruz, bairro camarário em Carnide, nos arredores de Lisboa, com a irmã, Ivete, cabeleireira de centro comercial. As duas irmãs, criaram os filhos de Márcia. Ivete ama-os como se fossem seus. São eles Cláudia, que estuda enfermagem e é caixa num supermercado, e Joca, que se tornou num pequeno delinquente. Um dia, duas tragédias chegam para abalar a vida da família Fialho: Joca tentou enganar o dealer para quem traficava e é apanhado; e Cláudia apresenta à mãe o seu novo namorado, seu professor da faculdade, casado, e muito mais velho. Quando Márcia o conhece, percebe que tem de fazer tudo para acabar com a relação, assombrada por uma tragédia que quer manter segredo. Paralelamente, Ivete tenta resolver o conflito do sobrinho intervindo diretamente com um traficante de droga. Márcia e Ivete preparam-se para o pior, mas o seu amor incondicional é capaz de tudo.

Elenco

Rita Blanco, como Márcia Fialho Anabela Moreira, como Ivete Fialho Cleia Almeida, como Cláudia Filipa Fialho Rafael Morais, como "Joca" João Carlos Fialho Marcello Urgeghe, como Dr. Alberto Vieira Francisco Tavares, como César Chaves Fernando Luís, como "Nini", Hélder Nuno Lopes, como Telmo Sobral Beatriz Batarda, como Maria da Luz Teresa Madruga, como D. Judite Teresa Tavares, como Sandra Wilma de Brito, como Érica Neuza, como Viviane Joana Sapinho, como Elsa Dmitry Bogomolov, como Vanechka

Equipa técnica

Realização e argumento: João Canijo Cinematografia: Mário Castanheira Som: Olivier Blanc, Ricardo Leal, Gerárd Rousseau, Elsa Ferreira Diretor artístico: José Pedro Penha Lopes Guarda-Roupa: Ana Simão Direção de produção: Ângela Cerveira Assistente de realização: Patrick Mendes Montagem: João Braz Produtor: Pedro Borges

Produção Desenvolvimento João Canijo utilizou a sua experiência de realização da curta-metragem Mãe Há Só Uma, a propósito da encenação do estaleiro Improviso Encenado na edição de 2006 do Festival Temps d'Images no CCB, como teste de que poderia reproduzir numa longa-metragem de cinema uma metodologia de trabalho com atores influenciado pelos realizadores Mike Leigh e John Cassavetes, mas também pela tradição dramatúrgica do teatro de Aristóteles. Para o estaleiro, desenvolveu um longo trabalho de ensaios e improvisos com as atrizes ao longo do qual o fio dramatúrgico se foi desenvolvendo. Após a realização de Mal Nascida em 2007, e motivado pelo sucesso da experiência em Improviso Encenado, João Canijo pretendeu avançar para um projeto cinematográfico de ficção onde pudesse aplicar plenamente um método de trabalho focado nos atores como sempre havia ambicionado, mas encontrou alguns entraves. Nas suas palavras: "Suspeito que todas as pessoas minimamente inteligentes gostariam de trabalhar assim", mas os produtores "pensam que é mais caro. Dois anos a fazer ensaios significa pagar a atores durante dois anos. A vantagem é que quando se 'faz a cena', já não se precisa de dirigir." Quando a sua relação profissional com o produtor Paulo Branco terminou (segundo Canijo "dada a falta de interesse e de perspetiva estratégica" para o projeto), o realizador contou com Pedro Borges para produzir Sangue do Meu Sangue, processo que durou cerca de três anos.

Para o filme, João Canijo não estava interessado em retratar personagens de classes sociais elevadas: "Os pobres são muito mais interessantes do que os ricos. Se calhar porque estão mais próximo da Humanidade. Se calhar porque não têm tempo para reflectir sobre a existência. Vivem, simplesmente." Por isso, numa fase inicial de conceção do projeto, o realizador visitou o Bairro Padre Cruz, um bairro camarário em Carnide (Lisboa): "Ao fim da tarde, porque era quando as pessoas regressavam a casa do trabalho. O bairro foi-me fácil. É onde vive a minha mulher a dias. Entrevistava pessoas, falava com elas. O foco principal do que diziam era a dificuldade em sobreviver. O resto vinha por acréscimo. Ao falarem, naturalmente percebiam-se as suas relações familiares." Esta pesquisa e, em particular, a gravação das entrevistas dos residentes do bairro, resultou na gravação de um DVD que foi partilhado com os atores para que estudassem para a fase seguinte de produção.

O projeto inicial consistiria num díptico. Seriam produzidos dois filmes sobre a mesma família habitante de um bairro social, mas cada um centrado em diferentes membros: O primeiro sobre a relação mãe e filha (Rita Blanco e Cleia Almeida) e o outro na relação tia e sobrinho (Anabela Moreira e Rafael Marques). No final, uma montagem dos dois filmes resultaria numa série de televisão de quatro episódios. Tal proposta foi apresentada à RTP e ao Fundo de Investimento do Cinema e Audiovisual, mas dada a falta de investimento, o realizador abandonou a ideia.

Casting e ensaios Canijo quis prolongar a experiência de Improviso Encenado em Sangue do Meu Sangue, também pela renovação da colaboração com as atrizes que protagonizaram o estaleiro: Rita Blanco e Vera Barreto. Barreto viria a ser substituída por Cleia Almeida no papel de filha da personagem de Blanco. Para além destas, Anabela Moreira, Rafael Morais, Marcello Urgeghe, Nuno Lopes e Beatriz Batarda, integraram não só o elenco, mas o processo de desenvolvimento do argumento. Rita Blanco foi das primeiras a envolver-se no projeto, interessada não só na intenção do realizador em abordar o amor incondicional, mas também pela oportunidade de explorar estados mentais em que "preferimos morrer para que o outro possa sobreviver".

Antes dos ensaios, Canijo pediu aos atores para fazerem o que chamou de "estágio de realidade" nas profissões dos seus personagens: Rita Blanco trabalhou na cozinha de três restaurantes; Cleia Almeida, trabalhou como caixa do supermercado Pingo Doce; Anabela Moreira pintou unhas num salão de cabeleireiro no Centro Comercial Babilónia, na Amadora; Marcello Urgeghe conheceu médicos oncologistas. Para além disto, Nuno Lopes engordou cerca de quinze quilos para compor o papel de traficante que se sentiu demasiado tempo um dejeto da sociedade e Anabela Moreira escreveu diários em nome de Ivete, a sua personagem, que falam da frustração, do falhanço e vazio sentidos pela mesma.

O processo de ensaios, escrita e reescrita do argumento com os atores desenrolou-se entre setembro de 2008 e novembro de 2009. Inicialmente, havia somente um guião com indicações gerais (eg. "Ele bate nela") e a proposta de Canijo era construir com o elenco as personagens e criar o diálogo baseado nessa discussão. Segundo o realizador, o argumento "evidentemente não foi escrito pelos atores. Manipulei-os o mais possível. A densidade psicológica é toda deles. O processo era simples: eu filmava tudo o que diziam nas discussões e improvisações. Sempre com a noção de que tinham total liberdade. E tinham. Como é que eu os dirijo? Não dirijo! Isso era quando era novo. Não tem graça nenhuma, dirigir atores. Como é que os manipulo? Selecionando entre aquilo que eles dão. Como um maestro, sou eu que tenho a noção do conjunto. Nem podia ser de outra maneira. Senão seria uma coisa caótica." Nas sessões de trabalho de Canijo com o elenco, os ensaios longos permitiram a construção das cenas que compõem o filme, mas também os diálogos. De acordo com Moreira, "as palavras que digo no filme são as palavras que inventei”. Com o método aplicado por João Canijo, o realizador coloca questões aos atores de modo a influenciar a personalidade e a história das personagens. Deste método ressalta uma condição fundamental da comunicação humana na qual toda a estrutura narrativa se condensa e se constrói pela linguagem. Reforçando esta ideia em entrevista, Canijo cita Aristóteles: "As palavras faladas são sinais das expressões e dos afetos da alma". Sobre este processo, Rita Blanco declara: "Batalhei muito para que o fim fosse feliz".

Esta metodologia resultou na composição de um volume intitulado "Sangue do Meu Sangue, Sangue da Minha Alma", de 313 páginas A4, com diálogos, indicações dos movimentos dos atores e o tipo de plano e, inclusivamente, reproduções de imagens de referência para o elenco e equipa técnica, como do filme Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes.

Rodagem Em maio de 2010 iniciou-se a rodagem de Sangue do Meu Sangue, que se prolongou por oito semanas. O décor principal da casa da família Fialho no Bairro Padre Cruz era particularmente apertado, o que trouxe alguns constrangimentos à equipa técnica. A sala de estar, foi previamente esvaziada, para acomodar a câmara que a ocupava quase inteiramente. Sempre que alguém se movimentava, os outros membros da equipa eram forçados a mover-se também. A cena final de Anabela Moreira e Nuno Lopes foi particularmente exigente para os atores dada a violência física, emocional e sexual. Para a atriz, não foi a nudez per se que a incomodou, "mas a cena foi tão vivida que o Nuno Lopes me abraçou, no final, e pediu desculpa."

Pós-produção Em agosto de 2010, João Braz iniciaria o processo de montagem da produção. Tal resultaria em diferentes versões e produtos: Sangue do Meu Sangue, Corte teatral: Versão original de 140 minutos. Sangue do Meu Sangue, Corte estendido: Versão longa de 190 minutos. Sangue do Meu Sangue, Minissérie: Três episódios de 52 minutos. Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor: Documentário de 84 minutos sobre o processo de escrita do argumento e de trabalho com os atores.

No seu conjunto, Sangue do Meu Sangue é uma produção portuguesa da Midas Filmes que, contando com o apoio financeiro da RTP e do ICA e com o auxílio da Câmara Municipal de Lisboa, teve um custo total de aproximadamente um milhão de euros. Pierre Collier, designer de posters de filmes como Bowling for Columbine de Michael Moore e Persepolis de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, é o autor do cartaz de Sangue do Meu Sangue.

Minissérie Sangue do Meu Sangue

Sangue do Meu Sangue conta com uma versão mais longa para televisão, no formato de minissérie com três episódios, que foi exibida na RTP1 entre os dias 21 e 24 de março de 2012. Os episódios foram emitidos partir das 23h30m, com exceção do último.

Esta versão contem imagens inéditas do corte teatral, nomeadamente a exploração da linha de enredo dos personagens César Chaves (Francisco Tavares) e Sandra (Teresa Tavares).

Lista de episódios EpisódiosTransmissão OriginalDia da SemanaAudiênciasEstreiaFinal321 de março de 201224 de março de 2012Quarta-feira a Sábado1,6% (rating) 7,2% (share) Abaixo, estão listados os episódios da minissérie Sangue do Meu Sangue: