thumb|180px|Absinto com torrão de açúcar O absinto é uma bebida destilada à base de anis e outras ervas, como funcho e Artemisia absinthium. Foi criado e utilizado primeiramente como remédio por Pierre Ordinaire, um médico francês que morava em Couvet, na Suíça, por volta de 1792.

O absinto foi especialmente popular na França, sobretudo pela ligação aos artistas parisienses de finais do século XIX e princípios do século XX, até a sua proibição em 1915. Recentemente, ganhou alguma popularidade com a sua legalização em vários países. É também conhecido popularmente por fada verde (la fée verte) em virtude de um suposto efeito alucinógeno. Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé, Van Gogh, Oscar Wilde, Henri de Toulouse-Lautrec, Edgar Allan Poe, Aleister Crowley, Ernest Hemingway, James Joyce, Amadeo Modigliani, Pablo Picasso, Marcel Proust, Erik Satie, Lord Byron, Alfred Jarry e Fernando Pessoa eram adeptos da fada verde.

Possui teor alcoólico alto, entre 45–67%. Possui um cor natural verde, mas também pode ser transparente. Algumas vezes, é tido como um licor, mas tradicionalmente não é engarrafado com açúcar adicionado, portanto é classificado como um destilado. Tradicionalmente, é engarrafado com uma alta percentagem de álcool por volume, mas normalmente é diluído com água antes de ser consumido.

Frequentemente, costuma ser apresentado como uma droga psicoativa e alucinógeno de alto poder viciante. O composto químico tujona, que está presente na bebida em quantidades residuais, foi responsabilizado pelos efeitos deletérios da bebida. Por volta de 1915, a bebida estava proibida nos Estados Unidos e em grande parte da Europa, como na França, Países Baixos, Bélgica, Suíça e Áustria-Hungria, embora não estivesse provado que ela era mais daninha que qualquer outra bebida destilada. Estudos recentes demonstraram que as propriedades psicoativas do absinto (à parte os efeitos do álcool) foram exageradas.

Na era vitoriana, na França e Inglaterra, nos famosos cabarés, casas de tolerância e casas destinadas às noitadas, principalmente dos artistas da época, era costumeiro pingar duas a três gotas de "Laudano", uma tintura medicinal opiácea usada deliberadamente para praticamente TUDO, desde dor de dente até insônia, exatamente pelo efeito anestésico, e por ser rico em morfina E álcool, era extremamente viciante. Muito provavelmente esse era o causador das vertigens e alucinações que muitos "terceiros" relatavam e creditaram à bebida.

Na década de 1990, começou um renascer do absinto, seguindo as novas leis da União Europeia sobre bebida e alimento que removeram antigas barreiras à sua produção e venda. No início do século XXI, quase duzentas marcas de absinto estavam sendo produzidas em uma dúzia de países, notavelmente na França, Áustria, Alemanha, Países Baixos, Espanha e República Tcheca.

Etimologia A palavra "absinto" deriva do termo latino absinthium, que por sua vez deriva do termo grego ἀψίνθιον, apsínthion. O uso da planta Artemisia absinthium numa bebida é atestada pela obra De rerum natura, de Lucrécio, que diz que uma bebida contendo a planta absinto é servida como remédio a uma criança, adoçada na borda com mel para a tornar palatável. Alguns argumentam que a palavra significa "imbebível" em grego, mas ela também pode estar ligada à raiz persa spand ou aspand, ou a variante esfand, que remete à planta Peganum harmala, também conhecida como "arruda síria", embora não seja realmente uma variedade de arruda, outra famosa planta amarga. A planta Artemisia absinthium era, usualmente, queimada como uma oferenda protetora, o que sugere que a origem da palavra pode estar na raiz protoindo-europeia *spend, que significa "realizar um ritual" ou "fazer uma oferta". Está pouco claro se a palavra foi um empréstimo do persa ao grego, ou se deriva de uma origem comum a ambas as línguas. Alternativamente, a palavra grega pode derivar de um substrato pré-grego, marcada pela consoante complexa não indo-europeia νθ (-nth).

História A origem precisa do absinto é pouco clara. O uso médico da planta homônima já existia no Egito antigo, e é mencionada no papiro Ebers (c. 1550 a.C.). Extratos da planta e folhas da planta embebidas em vinho eram usados como remédio pelos antigos gregos. Existe evidência de um vinho na Grécia antiga que era aromatizado com a planta e recebia o nome absinthites oinos.

A primeira evidência de absinto, no sentido de bebida destilada contendo anis verde e funcho, data do século XVIII. De acordo com a lenda, começou como um remédio para tudo, patenteado pelo médico Pierre Ordinaire, que vivia na cidade de Couvet, na Suíça, por volta de 1792 (a data exata varia de acordo com o registro). A receita de Ordinaire foi passada para as irmãs Henriod, que a venderam como um elixir medicinal. Em outros registros, as irmãs Henriod já produziam a bebida antes de Ordinaire. Posteriormente, o major Dubied adquiriu a fórmula das irmãs em 1797 e abriu a primeira destilaria de absinto, chamada Dubied Père et Fils , em Couvet, com seu filho Marcellin e seu genro Henry-Louis Pernod. Em 1805, eles construíram uma segunda destilaria em Pontarlier, na França, sob o nome Maison Pernod Fils. A Pernod Fils se manteve como uma das mais populares marcas de absinto até a bebida ser proibida na França em 1914. Crescimento do consumo O consumo de absinto cresceu sem interrupções ao longo da década de 1840, quando foi fornecido aos soldados franceses como um preventivo para a malária, e os soldados trouxeram o hábito da bebida para seus lares. O absinto se tornou tão popular em bares, cafés e bistrôs na década de 1860 que a hora de cinco horas da tarde passou a ser chamada de "hora verde". Era consumido por todas as classes sociais, desde a rica burguesia até os artistas pobres e os trabalhadores. Na década de 1880, a produção em massa fez o preço cair abruptamente. Em 1910, os franceses estavam consumindo 36 000 000 de litros por ano. Em comparação, os franceses estavam consumindo 5 000 000 000 de litros de vinho por ano.

O absinto era exportado amplamente a partir da França e da Suíça, e alcançou algum grau de popularidade em outros países, como Espanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos e República Tcheca. Nunca chegou a ser proibido na Espanha ou em Portugal, e sua produção e consumo nunca cessaram. Teve um aumento temporário de popularidade no início do século XX, correspondendo aos movimentos artísticos art nouveau e modernismo.

A cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, está associada ao absinto. Ela costuma ser tida como o berço do sazerac, talvez o mais antigo coquetel de absinto. O bar Old Absinthe House, na rua Bourbon, começou a vender absinto na primeira metade do século XIX. Seu proprietário catalão, Cayetano Ferrer, o nomeou Absinthe Room em 1874 devido à popularidade do drinque, que era servido em estilo parisiense. O bar foi frequentado por Mark Twain, Oscar Wilde, Franklin Delano Roosevelt, Aleister Crowley e Frank Sinatra.

Na Europa do início do século XX, o absinto era considerado uma droga de massas, levando a população ao alcoolismo e, segundo médicos da época, ocasionando outros problemas de saúde, inclusive mentais, tais como: epilepsia, suicídio e loucura.

Em 1873, após uma noite de consumo de absinto, o poeta Paul Verlaine atirou em Arthur Rimbaud, seu amante na época. Van Gogh, além de suas perturbações inatas, estava sob o efeito do absinto quando cortou a própria orelha e agrediu Gauguin.

Na Suíça, acreditava-se que cerca de 40% da população adulta era dependente da "fada verde". Em 1912, cerca de 220 milhões de litros de absinto foram produzidos na França. O consumo de absinto na França era tão elevado que, à hora do consumo, entre as 17h00 e as 19h00, chamou-se hora verde.

Além dos males causados à saúde, o absinto foi acusado de ser responsável pelo aumento da criminalidade. Em 1905, Jean Lanfray assassinou sua família com uma espingarda após grande consumo de várias bebidas (entre elas, o absinto). Banimentos O absinto passou a ser associado a crimes violentos e desordem social. Um escritor atual defende que essa tendência era estimulada por denúncias fabricadas e campanhas de difamação, orquestradas pelo movimento da temperança e pela indústria do vinho. Um crítico disse:

A primeira grande obra de Édouard Manet, O bebedor de absinto, foi controversa, e foi rejeitada pelo salão de Paris em 1859.

A pintura O absinto (1876), de Edgard Degas, pode ser vista no museu de Orsay resumindo a visão popular sobre os viciados em absinto como encharcados e entorpecidos, e Émile Zola descreveu seus efeitos em sua novela L'Assommoir (O cabaré).

Em 1905, o agricultor suíço Jean Lanfray assassinou sua família e tentou se matar depois de beber absinto. Lanfray era um alcoólatra que havia bebido uma quantidade considerável de vinho e brandy antes dos assassinatos, mas isso foi esquecido ou ignorado, e a culpa pelos assassinatos foi colocada somente no consumo de dois copos de absinto. Os assassinatos de Lanfray foram o ponto de virada nesse quente debate, e uma petição subsequente coletou mais de 82 000 assinaturas pedindo o banimento da bebida na Suíça. Foi realizado um referendo em 5 de julho de 1908. Ele foi aprovado pelos votantes (63,5% dos votos), e a proibição do absinto foi inscrita na constituição da Suíça em 1910.

Em 1906, Bélgica e Brasil baniram a venda e a distribuição de absinto, embora estes não tenham sido os primeiros países a fazerem o mesmo. A bebida já havia sido banida em 1898 na colônia do Estado Livre do Congo.

Outros países seguiram a Suíça (os Países Baixos em 1909, os Estados Unidos em 1912, a França em 1914) e, em 1913, os Estados Unidos e quase toda Europa haviam adotado a proibição. Apenas na Espanha, Dinamarca, Inglaterra e em Portugal ainda era permitido o consumo, mas só se a bebida fosse produzida com quantidade limitada de tujona.

A proibição do absinto na França fez aumentar a popularidade do pastis e, em menor escala, do ouzo e outras bebidas destiladas à base de anis que não contivessem a planta absinto. Depois do fim da Primeira Guerra Mundial, a produção da marca Pernod Fils se limitava à produção da destilaria Banus, na Catalunha, na Espanha, onde o absinto ainda era legal, mas o declínio nas vendas levou ao término da produção na década de 1960. Na Suíça, o banimento serviu apenas para aumentar a produção clandestina de absinto. Destilarias caseiras produziam absinto incolor, que era mais fácil de esconder das autoridades. Muitos países nunca baniram o absinto: o mais famoso deles foi a Grã-Bretanha, onde ele nunca havia sido tão popular como na Europa continental.

Renascimento Hoje, se sabe que os efeitos supostamente alucinógenos da bebida nunca foram comprovados, e o absinto é considerado perfeitamente normal para o consumo. Este fato levou muitos países a liberarem a produção, venda e consumo do absinto, como vários países da Europa, Estados Unidos e Brasil.

A importadora britânica BBH Spirits começou a importar a marca Hill's Absinth da República Tcheca na década de 1990, pois o Reino Unido nunca havia formalmente banido a bebida. Isso iniciou um novo processo de popularização da bebida. De início, apenas nos países onde a bebida nunca havia sido banida. Na época, as marcas de absinto eram marcas recentes tchecas, portuguesas e espanholas, geralmente de estilo boêmio. Especialistas consideram que era um absinto de qualidade inferior, e não representativo do absinto do século XIX.

Em 1999, a bebida chegou ao Brasil pelo empresário Lalo Zanini. Foi legalizada no mesmo ano, porém teve de adaptar-se à lei brasileira, com teor alcoólico máximo de 54° GL de acordo com a norma do Art. 12, inciso II do Decreto 6 871/2009, não podendo atingir a elevada graduação das versões comercializadas na Europa, as quais comumente superam os 70% de álcool em sua composição.