Recordações do Escrivão Isaías Caminha é o primeiro romance do escritor brasileiro Lima Barreto. De referência autobiográfica, tem como tema central o racismo e a subordinação social, dividindo-se em dois núcleos narrativos: a infância e a viagem do protagonista ao Rio de Janeiro, marcadas pela discriminação racial, e sua posterior inserção no meio jornalístico carioca, retratado de forma satírica.Lima Barreto - Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Brasiliana USP

Publicação As origens do romance remontam a 1907, quando Lima Barreto e um grupo de amigos fundaram a revista literária Floreal, da qual o escritor redigiu o texto de abertura e na qual publicou os capítulos iniciais de sua obra de estreia. Embora tenha durado apenas quatro números, a revista chamou a atenção do crítico José Veríssimo, que a elogiou em sua coluna no Jornal do Comércio.

O livro completo foi publicado em Portugal, no final de 1909, pela Livraria Clássica de António Maria Teixeira. Barreto lhe enviou uma carta agradecendo e oferecendo, como pagamento da edição e publicação, uma quantidade em livros para comercialização.Carta a A. M. Teixeira Lima Barreto correspondeu-se com jornalistas portugueses envolvidos na revisão e divulgação da obra, entre eles Albino Forjaz de Sampaio, que se comprometeu a lhe dedicar uma crônica no jornal lisboeta A Luta. Apesar de o romance ter esgotado no Rio de Janeiro, sua chegada ao Brasil, colocado à venda em dezembro de 1909, foi recebida por um silêncio quase geral da crítica e da imprensa cariocas, que só voltaram a notar o autor no ano seguinte.

Em 1917, saiu a segunda edição do romance, precedida de uma "Breve Notícia" escrita pelo próprio Lima Barreto, na qual ele reproduziu observações de José Veríssimo sobre a Floreal e sobre as páginas iniciais de sua obra de estreia. Segundo pesquisa acadêmica sobre a circulação social do livro, essa "Breve Notícia" funciona como um procedimento de testemunho ficcional característico do autor, e a nova edição, custeada pelo próprio Lima Barreto, pode ser lida como uma reação do escritor à forma como sua obra havia sido lida e apropriada por seus intérpretes contemporâneos.

Foi para essa segunda edição que Monteiro Lobato, sem restrições à linguagem do autor, criticada na época por conta de "alguns deslizes", escreveu a Godofredo Rangel elogiando o romance:Marli Quadros Leite. Metalinguagem e discurso (2. ed.). Editora Humanitas; 2006. ISBN 978-85-98292-76-2. p. 135.

O jornal fictício "O Globo" da obra, alvo de duras críticas, correspondia, segundo Lobato, ao prestigioso Correio da Manhã. Os jornalistas da época tentaram ignorar o livro devido à ofensa da denúncia, o que prejudicou o início da carreira de Lima Barreto. Ainda segundo Lobato, o autor seria o criador de uma nova fórmula de romance: a crítica social sem doutrinarismo dogmático.Luciana Hidalgo. Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura. Annablume; 2008. ISBN 978-85-7419-813-2. p. 97. Lima Barreto chegou a trabalhar no Correio da Manhã, mas, com a publicação do romance (no qual faz críticas contundentes a Edmundo Bittencourt, proprietário do jornal), tornou-se persona non grata não só nesse periódico como nos demais grandes jornais do Rio de Janeiro.Crônicas cariocas e ensino de história. 7Letras; 2008. ISBN 978-85-7577-464-9. p. 33.Beatriz Resende, Sonhos e mágoas de um povo. Editora Agir, 2004. p. 11.

Enredo A narrativa, em primeira pessoa e de tom memorialista, divide-se em duas partes relativamente distintas. Na primeira, o jovem mulato Isaías Caminha, criado por uma mãe humilde e incentivado pelo tio Valentim, deixa uma pequena cidade do interior rumo ao Rio de Janeiro, sonhando tornar-se "doutor". Munido de uma carta de apresentação obtida por intermédio de um fazendeiro local, ele enfrenta já na viagem os primeiros episódios de discriminação racial, que se repetem e se agravam em sua chegada e nos primeiros dias na capital, quando os sonhos de ascensão social esbarram no preconceito de cor.

Na segunda parte, o foco desloca-se da trajetória pessoal de Isaías para o ambiente da redação do jornal fictício "O Globo", dirigido pelo poderoso Loberant, onde o protagonista passa de contínuo a repórter. A obra torna-se então uma sátira mordaz aos bastidores do jornalismo, ao empreguismo, à burocracia e à política da época, por meio de uma galeria de tipos como os jornalistas Raul Gusmão e Gregoróvitch. Ao final, já ascendido socialmente por meio das próprias estruturas que antes o excluíam, Isaías reflete com desencanto sobre o preço dessa ascensão.

Recepção e análise A recepção crítica de Recordações do Escrivão Isaías Caminha desenvolveu-se em pelo menos três momentos correspondentes às suas publicações: os capítulos iniciais na Floreal (1907), a primeira edição em livro (1909) e a segunda edição (1917), cada um deles gerando reações distintas entre os produtores culturais da época.

A crítica Lúcia Miguel Pereira considerou a iniciativa de Lima Barreto e seus companheiros na Floreal um sintoma de reação ao ambiente estéril da literatura do período, notando que as páginas iniciais do romance traziam um tom áspero e amargo que contrastava com a amenidade das letras então vigentes. Já a recepção brasileira à edição de 1909 foi majoritariamente hostil ou silenciosa: os poucos comentários publicados, como o de José de Albuquerque no jornal A Notícia, trataram a obra de forma depreciativa, comparando-a a uma "charge" sem profundidade artística.

Décadas depois, a fortuna crítica do romance foi sendo revista: o crítico Alfredo Bosi chegou a defini-lo, em prefácio a uma edição posterior, como um dos grandes romances da literatura brasileira. Pesquisadores destacam ainda que a hostilidade da imprensa carioca ao romance, decorrente sobretudo da crítica direta a figuras do jornalismo da época, ajuda a explicar o relativo esquecimento de Lima Barreto por parte da crítica literária em vida.

Estudos recentes têm criticado leituras que reduzem o romance a uma única chave interpretativa, seja como autobiografia, crítica social, sátira às teorias raciais cientificistas, denúncia da opressão ou painel do jornalismo, argumentando que tais abordagens isoladas desconsideram a hibridez e a complexidade formal da obra, que mescla elementos de romance memorialista, romance de tese e crônica. Nessa perspectiva, o processo de alienação da consciência de Isaías Caminha em relação à sua condição racial e social é lido como historicamente determinado pelas relações de dominação pelo favor e pela reificação do fazer jornalístico, estruturas que o protagonista, ao final, também passa a utilizar em seu próprio proveito para ascender socialmente.

Ver também Lima Barreto (escritor)

Referências

Bibliografia CAMPATO JR., João Adalberto. Lima Barreto: Retórica e Literatura Militante nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Curitiba: CRV, 2013. CRUZ, Izabel Cristina Cavalcanti. Isaías Caminha e o mal-estar na civilização brasileira no limiar do século XX. Rio de Janeiro: Rizoma Editorial, 2015.

Recordacoes do Escrivao Isaias Caminha Categoria:Romances do Brasil Categoria:Literatura afro-brasileira

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