João Cruz Costa (São Paulo, 13 de fevereiro de 1904 – 10 de outubro de 1978) foi um filósofo e professor universitário brasileiro. É conhecido também apenas por seu apelido composto, Cruz Costa.
Foi o aluno "número um" da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, tornando-se, posteriormente, professor catedrático da mesma instituição.
Sua produção intelectual versou sobre diversas áreas, especialmente sobre o desenvolvimento da filosofia no Brasil, "procurando estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história. Ensaísta, crítico, sociólogo, biógrafo, além de filósofo, indicando com isso a diversidade dos seus conhecimentos. Divulgava-os pela docência e artigos em linguagem simples por meio de importantes jornais da época: O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo (então Folha da Manhã), Jornal de São Paulo, Minerva de Buenos Aires e Jornadas do México. Membro da Sociedade Paulista de Escritores, da Sociedade de Biologia, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Sociedade de História das Idéias, do México". Foi precocemente aposentado por vias da ditadura militar em 1965, vindo a falecer em 1978.
Biografia Nascido em 1904 em São Paulo, era filho de pai português e mãe descendente de italianos. Inicialmente, Cruz Costa tinha a intenção de se tornar médico. Provavelmente, seu interesse pela medicina viera do fato de seu pai, José da Cruz Costa, ter falecido moço em 1922, aos 49 anos, acometido por crises derivadas da sífilis, que se manifestara já a partir de 1920. Conforme relatos familiares, José era republicano e fugira de Portugal por haver surrado um adversário monarquista, pensando tê-lo matado. Fora um comerciante bem sucedido, natural da vila de Palheira, perto da cidade de Coimbra, e fundou em São Paulo a loja de móveis "O Grande Oriente".
Aos 18 anos, com a intenção de estudar Ciências Sociais, Matemática e Medicina na Universidade de Jena, na Alemanha, João Cruz Costa partiu para a Europa. Não tendo obtido visto no consulado alemão, ficou em Paris e iniciou sua preparação para a Faculdade de Medicina. Inquieto, frequentou cursos de Ciências Naturais do Museu de História Natural e, simultaneamente, assistiu a conferências na Sorbonne e Colégio de França sobre temas filosóficos e sociológicos. Em 1925, já no Brasil, matriculou-se na Faculdade de Medicina de São Paulo e, dois anos depois, deixou o curso. Seu interesse estava em outro campo.
A carreira que o tornaria famoso nacional e internacionalmente teve início simultâneo ao da criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Em 1934, Cruz Costa matriculou-se no curso de Filosofia, licenciando-se em 1937. O contato com os professores da missão francesa, em especial Jean Maugüé, foi de extrema importância para ele. Por outro lado, o mestre francês encantou-se com o novo aluno e o indicou para uma Bolsa de Estudo na França que, infelizmente, não pôde aceitar. Outras oportunidades foram surgindo: tornou-se professor do Instituto de Educação e, mais adiante, assistente de Jean Maugüé na Cadeira de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, além de professor do Colégio Mackenzie. A partir de então, preparou-se para o doutoramento com a tese Crítica das idéias políticas tomistas de Suarez e a defendeu na USP, em 1940.
Considerava que sofria influencia do que lia, ao invés de formular um pensamento original, conforme suas próprias palavras em entrevista para a Revista Trans/Form/Ação (1975):
Em 1951, tornou-se finalmente catedrático da mesma universidade, num concurso que contou com nomes como Vicente Ferreira da Silva, Oswald de Andrade, Renato Cirell Czerna, Luís Washington Vita e Heraldo Barbuy. Cruz Costa era o único que havia feito doutorado em filosofia dentre os participantes.
Carreira
Nos idos de 1958, enfrentou os desmandos do então governador de São Paulo, Jânio Quadros. Em janeiro daquele ano, o professor Cruz Costa recebera uma pena de repreensão por haver concedido uma entrevista aos Diários Associados. Chamou de levianas as palavras do governador, que havia se dirigido de maneira ríspida ao então Diretor da FFLC Eurípedes Simões de Paula.
O caso ganhou grande repercussão, tendo sido capa da Folha da Manhã em 3 de janeiro de 1958. Cruz Costa se viu obrigado a se defender e levou o caso para o Supremo Tribunal Federal, que deferiu seu pedido em 3 de setembro de 1958, cancelando sua punição. Em janeiro de 1959, Jânio Quadros acatou a decisão e o professor fulminou seu comentário na Folha da Manhã: "Sempre foi hábito do sr. governador ser breve, como testemunham seus famosos bilhetes. Desta vez, entretanto, houve por bem s.exa. estender-se em longos reparos à decisão do Egregio Supremo Tribunal que, por unanimidade, o compeliu a cancelar o ato que me levara a apelar para aquela alta Corte de Justiça."
No dia 20 de janeiro de 1964, o professor Cruz Costa foi obrigado a depor no DOPS acerca de um manifesto de apoio ao registro do Partido Comunista do Brasil, feito em setembro de 1961, supostamente assinado por diversos intelectuais, entre eles o próprio Cruz Costa, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, líderes estudantis, advogados, sindicalistas, entre outros. Com naturalidade, declarou que "alguns dos signatários têm posição política ou filosófica diferentes das apresentadas pelos comunistas, que é, aliás, o caso do declarante; que, em todo caso, crê, ainda hoje, que mais valia o Partido Comunista estivesse na legalidade do que na clandestinidade, como acontece na Itália, na França, na Inglaterra e em outros países verdadeiramente democráticos."
Em 1965, Cruz Costa deixou suas atividades docentes, afastado arbitrariamente pelos adeptos do golpe militar de 1964. Foi denunciado pelos seus colegas de universidade mais reacionários e teve que se refugiar por seis meses em 1964 na França, onde passou a dar aulas. O regime militar instaurou inquéritos policial-militares (IPM) acusando alunos, professores e funcionários da USP, os quais foram iniciados no segundo semestre daquele ano, sem poupar o professor Cruz Costa:
Em 3 de setembro de 1965, o Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria da 2ª Região Militar decretou sua prisão preventiva, conforme consta de sua ficha no DOPS, arquivada no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Nesta ficha, é falsamente acusado como "comunista grandemente relacionado com a Rússia".
Sua contribuição mais importante foi o livro Contribuição à História das Ideias no Brasil, publicado em 1956 e posteriormente editado e traduzido para vários idiomas. Nele, defendeu um pensamento crítico e mais voltado para a realidade brasileira, não necessariamente rejeitando os autores estrangeiros (europeus e estadunidenses) ou aceitando-os acriticamente, mas sim criando algo novo, original e brasileiro. Segundo Daniel Pansarelli:
Com sua preocupação de viabilizar um pensamento nacional autônomo, deu destaque ao advento do positivismo como "momento de maior transformação da história brasileira", nas palavras do próprio Cruz Costa. Tinha grande interesse na evolução das ideias filosóficas brasileiras e exercia a reflexão permanentemente, fosse entre estudantes, família ou amigos, como descreve José Arthur Giannotti:
Cruz Costa tinha uma preocupação importante em aplicar a reflexão à realidade brasileira, o que era a sua mania, como lembrado pelo crítico literário Antônio Cândido: "(...) o Professor Cruz Costa insistia sem parar na necessidade de aplicar a reflexão ao Brasil, mesmo que para isso fosse preciso sair da filosofia (ou da sociologia) estritamente concebida. Daí termos sido confirmados na vocação de críticos."
Em sala de aula, o professor Cruz Costa referia-se em suas aulas a "modas filosóficas", produtos de importação que absorvíamos no Brasil:A Filosofia no Brasil sempre foi um produto de importação. Eu procurei mostrar isso em meu livro. Na Colônia, a escolástica importada de Coimbra; no Império, o ecletismo; a seguir o positivismo e o evolucionismo, que chegaram até a República. Depois, o neo-kantismo, um pouco de bergsonismo, muito ralo; o marxismo, o existencialismo e até Husserl, Hartmann e Heidegger! Ouvi dizer que vão traduzir Heidegger! Será um trabalho de Hércules. Mais recentemente, o estruturalismo. Até a fundação da Faculdade de Filosofia, o filoneísmo dominou nossa cultura. Era importante haver lido a obra mais recentemente publicada e, de preferência, no original. Mas não se indagava muito se o leitor assimilava o que lera. Assim, a Filosofia, como muito mais, era privilégio de raríssimas pessoas. Com o advento dos cursos regulares de Filosofia, a situação modificou-se em parte. Começamos então a nos vestir mais simplesmente, mais moderadamente, tendo em conta, por certo, a moda, mas sem os atavios e falsos luxos filoneístas. Fugir a moda não é fácil, mas vestir-se com exagero é ridículo. Foi por isso que terminei o meu livro citando Macunaíma, que se farta de todas as comezainas, de todas as frutas. Fala de indumentária, mas veste-se pouco. Canta todas as canções e dança todas as músicas. É o herdeiro latino, mas ignorante de todas as culturas...
João Cruz Costa desempenhou funções relevantes, como a de conselheiro da Biblioteca do Congresso em Washington (foi convidado pelo governo dos EUA em 1948), membro da Comissão de Historia das Idéias do Instituto Pan-americano de Geografia e História, delegado por São Paulo no 1º Congresso Brasileiro de escritores e correspondente da Cátedra Alejandro Korn, de Buenos Aires. Ainda, foi condecorado com o título de doutor honoris causa da Universidade de Rennes I e duas vezes homenageado pelo governo francês, como Cavaleiro da Legião de Honra e Palmas Acadêmicas no grau de cavaleiro.
Últimos anos Em seus últimos anos, ficou amargurado com a seriedade uniformizada que tomara conta do Brasil e era suspeito por seus colegas dedo-duros de faculdade, como descreve José Arthur Gianotti:
Morte João Cruz Costa morreu em 10 de outubro de 1978, na capital paulista, aos 74 anos.
Sua biblioteca, com mais de 9.000 livros, pode ser acessada e consultada na Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH.
Obras 1938 - Alguns aspectos da filosofia no Brasil. São Paulo : Ed. da Faculdade de Filosofia. 1940 - Crítica das idéias tomistas de Suarez (Tese de doutorado). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - Universidade de São Paulo. 1942 - Ensaio sobre a vida e obra de Francisco Sanches, São Paulo: Editora Faculdade de Filosofia. 1945 - A filosofia no Brasil; ensaios. Porto Alegre : Globo, 1945. 177 p. (Coleção tucano, 15). 1946 - O pensamento brasileiro – Boletim da USP – LXVII –Filosofia nº 2 – São Paulo. 1951 - Augusto Comte e as origens do positivismo. São Paulo : J. Magalhães, 1951. 1954 - O desenvolvimento da filosofia no Brasil no século XIX e a evolução histórica nacional. São Paulo : Faculdade de Filosofia, 1954. (Tese de concurso à cátedra de filosofia geral). 1956 - O positivismo na república, notas sobre a história do positivismo no Brasil. São Paulo : Nacional, 1956. 203 p. (Biblioteca pedagógica brasileira, série 5ª. Brasiliana, 291). 1956 - Contribuição à história das idéias no Brasil; o desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórico nacional. Rio de Janeiro : José Olympio, 1956. 484 p. (Coleção documentos brasileiros, 86). 1957 - Vom Werden des Brasilianischer. Porto Alegre : Globo, 1957. 1960 - Panorama da História da Filosofia no Brasil – São Paulo: Editora Cultrix. 1962 - Panorama of the history os phylosophy in Brazil. Tradução Fred G. Stum. Washington : Pan American Union, 1962. 111 p. (Pensamiento de America) 1968 - Pequena História da República – Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.
Estudos e Livros Sobre Cruz Costa ACERBONI, Lídia. Cruz Costa e a história das idéias. In : _____. A Filosofia Contemporânea no Brasil. Tradução João Bosco Feres. Prefácio Miguel Reale. São Paulo : Grijalbo, 1969. p. 108-111.