thumb|right|300px|Figura 1. Resgate aeromédico. O transporte aeromédico consiste no resgate ou na remoção de doentes graves, por meio de helicópteros ou aeronaves, em locais que ambulâncias tradicionais não possam facilmente ou rapidamente alcançar (transporte primário), ou mesmo em situações em que o doente necessite de um transporte inter-hospitalar que seja mais adequado por via aérea (transporte secundário). É considerado um transporte seguro, e apesar de ter algumas desvantagens é bastante rápido, o que proporciona uma assistência quase imediata aos feridos/pacientes, podendo salvar muitas vidas. Por trás deste tipo de transporte, encontra-se uma tripulação competente e em sintonia, que cumpre determinados requisitos, e equipamentos e materiais especializados, que tornam possível que todo o transporte seja feito sem qualquer incidente.
A sofisticação do transporte aeromédico, depende das necessidades e das características de cada país. Uma das principais distinções diz respeito às dimensões territoriais, mas não só a extensão territorial é um factor importante. A distribuição populacional, a existência de povoações isoladas e o elevado número de acidentes rodoviários, também são características importantes.
As aeronaves sofreram uma grande transformação, passando de equipamentos rudimentares para helicópteros, jactos e aviões com equipamentos de alta tecnologia, de modo a poderem responder a qualquer tipo de situação.
Em média, são realizados nos Estados Unidos cerca de 16 mil transportes aeromédicos e no Brasil cerca de cinco a sete mil por ano. Em Portugal, desde que os helicópteros do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) entraram em funcionamento, até ao ano de 2007 terão sido realizados cerca de 4562 mil transportes aeromédicos.
História Militar Os primeiros dados históricos do transporte aeromédico datam de 1870, em Paris, durante a guerra Franco-Prussiana, em que o transporte de feridos era feito através de balões para o exterior de Paris. Os registos dos 67 balões, no entanto, não mencionam o transporte de feridos ou doentes. Mais tarde, em 1890, um médico holandês propôs que os feridos das batalhas fossem transportados em balões, mas também não existe qualquer tipo de documento que prove que tal proposta tenha sido executada <span id=refbINEM2007>(INEM, 2007). Apesar de, no início de 1900, Paul Bert (Pai da Fisiologia da Altitude) ter efectuado experiências do efeito da altitude nos seres humanos, só com o advento do avião, em 1906, e já durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, há conhecimento da primeira remoção aérea, em rudimentares mono-motores <span id=refbFERRARI2005>(Ferrari, 2005). Desde cedo, estas evacuações aéreas mostraram resultados mais favoráveis na recuperação do paciente, em comparação com aqueles que eram transportados por via terrestre. Esta constatação foi o elemento impulsionador da construção de um avião que fosse capaz de transportar duas macas em vez de apenas uma. Em 1917, o French Dorand ARII já transportava feridos na frente de Amiens <span id=refbINEM2007>(INEM, 2007).
Foi na Segunda Guerra Mundial, que surgiram unidades maiores que permitiam a inserção de uma equipa aeromédica com um médico e um enfermeiro a bordo. Em 1939, foi inventado o helicóptero pelo engenheiro russo Igor I. Sikorsky, surgindo a modalidade de transporte com asa rotativa. Estes helicópteros conseguiam efectuar o transporte de dois feridos ao mesmo tempo <span id=refbFERRARI2005>(Ferrari, 2005) e como tal, foram utilizados para transportar os feridos da Guerra da Coreia para os seus hospitais. Cerca de 17 mil feridos terão sido transportados entre 1951 e 1953 <span id=refbINEM2007>(INEM, 2007). Com a evolução tecnológica, surgimento de desfibriladores, monitores e ventiladores mecânicos, o conflito do Vietname viu nascer as UTIs (Unidade de Tratamento Intensivo) aéreas <span id=refbFERRARI2005>(Ferrari, 2005). Os helicópteros presentes nesta guerra, só nos últimos três meses de 1965, realizaram cerca de 25 mil evacuações <span id=refbINEM2007>(INEM, 2007).
Civil thumb|right|150px|Figura 2. O reverendo e aviador John Flynn. Em 1911, o reverendo (Figura 2) iniciou a sua actividade na zona norte do Sul da Austrália, onde prestou trabalho missionário. Rapidamente, verificou que as pessoas das localidades do interior não conseguiam ter um fácil e rápido acesso às unidades de saúde ou a hospitais. Flynn fez desta situação o seu projecto de vida, mas apesar de demonstrar constantemente a necessidade de cuidados médicos no interior só em 1928 cumpriu o seu sonho. thumb|left|150px|Figura 3. Marie Marvingt, a mulher mais condecorada da história francesa. A 15 de Maio de 1928 nasceu o Royal Flying Doctor Service. Esta entidade sem fins lucrativos começou a prestar serviço na área remota de Conclurry, Queensland, no continente australiano <span id=refbROYAL>(Royal, ). O Royal Flying Doctor Service prestava não só assistência médica de urgência, como também cuidados primários a pessoas que não conseguiam ter acesso às unidades médicas ou aos hospitais devido a se encontrarem a grandes distâncias.
No continente africano, (Figura 3), em 1934, realizou o primeiro transporte aeromédico. Além de ser a mais condecorada mulher na história francesa, Marie Marvingt foi também a primeira mulher em missões de combate, como piloto de bombardeiros. Era também uma enfermeira qualificada, especializada em medicina aeronáutica, o que fazia dela a candidata ideal para este serviço. O serviço médico foi, inicialmente, estabelecido em Marrocos que tinha, na altura, áreas muito isoladas.
Na América do Norte, o transporte aeromédico foi estabelecido pelo governo, em 1946, em Regina, Canadá. Apenas um ano mais tarde, em 1947, nascia, em Los Angeles, a Schaefer Air Service, fundada por J. Walter Schaefer, tornando-se, mais tarde, a primeira empresa, dos Estados Unidos, certificada pela Federal Aviation Administration (FAA).
Na Alemanha, o transporte aeromédico civil iniciou-se a 1 de Novembro de 1970, ao serviço do Hospital de Harlaching, em Munique. Este serviço teve um rápido crescimento e, em 1975, já possuía dez helicópteros, todos eles com o nome do santo padroeiro dos viajantes, São Cristóvão.
Em 1977, em Denver, Colorado, criou-se o primeiro hospital com plataforma de aterragem para helicópteros. Com o passar dos anos, os helicópteros foram evoluindo para aeronaves e em 1998 o permitiu, que qualquer paciente tivesse, independentemente do seu destino de viagem (Ásia ou Pacífico), tivesse acesso ao transporte aeromédico e à assistência médica aérea. <span id=refbBANGKOK>(Bangkok, [2009a?]).
No Brasil e Portugal
O transporte aeromédico, no Brasil, teve início em 1950, no Pará, com a criação do Serviço de Busca e Salvamento (SAR), que tinha como principal função a localização de aeronaves e embarcações desaparecidas e o transporte de sobreviventes de acidentes aéreos e marítimos. Em 1988, foi criado o Grupo de Socorro de Emergência (GSE) que realizou, em sete anos, cerca de 1 200 remoções/resgates. Um ano depois, em São Paulo, foi estabelecido o Projecto Resgate com o objectivo de diminuir a mortalidade no resgate de vítimas em vias públicas. No início da década de 1990 começaram a surgir os serviços de transporte aeromédico particulares (que ficaram conhecidos popularmente no Brasil como UTIs aéreas), com o objectivo de dar resposta às necessidades dos pacientes que se encontravam a grandes distâncias de unidades hospitalares <span id=refbTHOMAZ99>(Thomaz, 1999).
Em Portugal, o INEM dispõe de dois helicópteros próprios, um localizado no aeródromo de Tires, em Lisboa, outro no Hospital Pedro Hispano (Figura 4), no Porto e um terceiro, apenas em período nocturno, na zona Centro, do Serviço Nacional de Bombeiros, em Santa Comba Dão <span id=refbEMERGENCIA>(Emergência, ). Sempre que é necessário pode-se recorrer aos helicópteros da Força Aérea Portuguesa <span id=refbINEM2007>(INEM, 2007).
Modalidades thumb|250px|Figura 5. Resgate aeromédico. O transporte aeromédico compreende duas modalidades básicas: o resgate e a remoção.
O resgate (Figura 5) consiste no transporte dos doentes desde o local da ocorrência do incidente até à unidade de saúde (transporte primário). Este transporte é feito através de equipamentos e de pessoal médico e paramédico especializado. O transporte primário de pacientes é solicitado nas seguintes situações <span id=refbWEIR2003>(Weir, 2007): Locais de difícil acesso a ambulâncias; Colisões frontais fora da localidade; Encarceramentos em veículos; Acidentes de viação a velocidades superiores a 30 km/h; Quedas superiores a 6 metros ou ao terceiro andar de prédios; Morte de algum ocupante; Explosões; Afogamentos ou acidentes de mergulho; Exposições a produtos tóxicos; Inalações ou queimaduras graves; Lesões penetrantes na cabeça, pescoço ou tronco; Fracturas na coluna vertebral, do fémur ou da pélvis (bacia); Comatoso; Pressão arterial sistólica inferior a 95 mm Hg ou pulsação superior a 120 batimentos por minuto; Perdas de sangue superiores a 1 litro; Dificuldades respiratórias.
thumb|left|200px|Figura 6. Remoção aeromédica.O atendimento e a estabilização inicial do paciente são feitas no local, seguidas do preparo e transporte para uma unidade de saúde ou hospital, previamente contactada pelo médico a bordo para estar devidamente preparada para continuar o atendimento do doente <span id=refbNETO2000>(Neto, 2000).
A remoção - transporte secundário - (Figura 6) é sempre feita entre unidades de saúde, quando o hospital onde se encontra o paciente não tem recursos humanos, diagnósticos ou terapêuticos necessários para o seu tratamento e desde que o paciente apresente condições para tal procedimento. A remoção é da responsabilidade do médico e envolve diversos aspectos, nomeadamente, éticos, logísticos, financeiros, técnicos, operacionais e legais. O prognóstico do paciente não deve ser comprometido com a remoção, e esta só pode ser efectuada com o consentimento ou do paciente (caso esteja consciente) ou do representante legal, que devem estar previamente esclarecidos sobre os seus riscos e benefícios <span id=refbJUNIOR2001>(Júnior, 2001).
Condições médicas e situações críticas necessárias de transporte aeromédico
Não existem regras específicas para requerer este tipo de transporte, pois cada paciente independentemente do seu estado de saúde, apresenta características singulares, que tornam impossível fazer qualquer tipo de comparações. No entanto podem-se considerar algumas condições em que os médicos possam preferir o transporte aeromédico. Algumas dessas condições podem ser de pacientes <span id=refbBANGKOK2>(Bangkok, [2009b?]): Com problemas respiratórios que necessitem de ventiladores; Com problemas neurológicos que necessitem de monitorização intra-craniana; Com traumatismos; Com fracturas múltiplas; Recentemente sujeitos a um transplante; Da unidade de obstetrícia que necessitem de cuidados intensivos; Da unidade de cuidados intensivos.
Cuidados a ter com a vítima/paciente thumb|left|210px|Figura 7. Oxímetro de pulso. Se a vítima estiver consciente deve ser esclarecida quanto ao transporte. Se a vítima se encontrar em estado agitado deve ser sedada e contida, especialmente em helicópteros devido ao piloto e ao painel de controlo estarem ao alcance da mesma; As vítimas de traumas devem ser adequadamente imobilizadas; O paciente deve ter no mínimo um acesso venoso calibroso (com jelco ou abocath – tipos de seringas). Os procedimentos invasivos devem ser realizados antes do embarque;thumb|right|140px|Figura 8.Monitor de pressão arterial electrónico não invasivo As medicações de urgência, com uso previsível para a situação, devem estar prontas para administração. O material para ventilação mecânica, aspiração e oxigenação deve encontrar-se em locais acessíveis. É desejável que se disponha de um aspirador manual portátil para as situações de falha do equipamento;