A língua tártara (em tártaro: татарча tatarça ou татар теле tatar tele) é uma língua túrquica do ramo quipechaco falada pelos tártaros do Volga, localizados principalmente na República do Tartaristão, onde é um idioma oficial. A língua tártara é falada por mais de 4,8 milhões de pessoas e é classificada como vulnerável pela UNESCO. Oficialmente, o idioma é escrito com o alfabeto cirílico, apesar de também serem utilizados os sistemas de escrita latino e árabe. Similarmente às demais línguas túrquicas, o tártaro apresenta harmonia vocálica, possui uma estrutura morfológica aglutinante e prefere a ordem sujeito-objeto-verbo.

O tártaro possui dois dialetos, ocidental e central, este último sendo a base da língua literária. A língua tártara não deve ser confundida com a língua tártara da Crimeia, que é um idioma diferente, apesar de também pertencer ao ramo quipechaco. A língua tártara da Sibéria é, por vezes, considerada um dialeto da língua tártara.

Etimologia A palavra "tártaro" não possui uma origem precisa. O primeiro uso do termo ocorreu no século VII, se referindo à Confederação Tártara, localizada no Planalto Mongol, que veio a compor o Império Mongol posteriormente. Após a expansão e declínio do Império Mongol e a subsequente formação da Horda Dourada, o termo passou a ser utilizado para se referir vagamente aos povos túrquicos da região.

O endônimo tatar (татар) possui a mesma origem. Para se referir à própria língua em tártaro, pode-se utilizar tatar tele (татар теле) — sendo tele (теле) a forma de tel (тел), com a marcação de um possessor de terceira pessoa singular — ou tatarça (татарча) — com o sufixo -ça (-ча) que forma diversos tipos de advérbios, mas, quando designando o nome de idiomas, pode ser utilizado também como adjetivo ou substantivo.

No caso do português e outras línguas da Europa Ocidental, houve uma adição de um "r" na primeira sílaba, provavelmente por relação ao Tártaro mitológico.

Distribuição A língua tártara é falada principalmente na Rússia, onde é a segunda língua nativa mais falada após o russo. Também existem comunidades nativas e diaspóricas significativas no Cazaquistão, China, Turquia, Finlândia, Uzbequistão, dentre outros países. Em território russo, o tártaro está especialmente presente na região ao redor do rio Volga e a oeste dos montes Urais, além de partes da Sibéria, o que corresponde politicamente ao Tartaristão, Bascortostão e outras subdivisões vizinhas.

No censo demográfico de 2010, 69% dos tártaros russos declararam ter pelo menos algum conhecimento da língua tártara. No Tartaristão, onde é um idioma oficial junto ao russo, 93% dos tártaros e 3,6% dos russos alegaram entender o tártaro. No Bascortostão, 67% dos tártaros, 27% dos basquires e 1,3% dos russos alegaram entender o idioma.

Línguas relacionadas O tártaro pertence ao ramo quipechaco da família túrquica. Entre as línguas quipechacas, está no sub-ramo norte, assim como o basquir e o tártaro da Sibéria, sendo esses os idiomas mais próximos ao tártaro. Apesar do nome, o tártaro da Crimeia não é particularmente próximo ao tártaro.

O árabe, persa e russo, que não pertencem à família túrquica, tiveram grandes influências sobre o tártaro, especialmente no vocabulário. Empréstimos do árabe e do persa são numerosos e já estão melhor incorporados à língua por sua presença histórica, exemplos incluem tarix (тарих) "história" e kitap (китап) "livro" do árabe e cihan (җиһан) "mundo" e şähär (шәһәр) "cidade" do persa. Palavras de origem árabe também estão associadas à difusão e conversão ao islamismo. Influências russas são mais recentes e contínuas, já que a maioria dos falantes de tártaro estão na Rússia e são bilíngues, costumam não serem adaptadas nem foneticamente nem ortograficamente. De qualquer forma, existem empréstimos russos mais antigos e mais bem adaptados ao idioma, como eşläpä (эшләпә) "chapéu", östäl (өстәл) "mesa" e ıştan (ыштан) "calça". Além disso, é pelo russo chegam ao tártaro diversos termos de outras línguas da Europa, como advokat (адвокат) "advogado", radio (радио) "rádio" e statistika (статистика) "estatística". Outras influências dessas três línguas, que evidenciam o grande impacto que tiveram no tártaro, podem ser vistas, por exemplo, no fato de o idioma possuir diversos fonemas que ocorrem apenas em estrangeirismos e a harmonia vocálica ser comumente não seguida nessas palavras.

Dialetos thumb|Mapa da distribuição subétnica dos tártaros do Volga na região do Volga-Ural.

O tártaro possui dois dialetos principais: central e ocidental. O dialeto central ou dialeto Qazan (Казан) é a base da língua literária moderna, seus subdialetos variam pouco em relação ao padrão. O dialeto ocidental ou dialeto Mişär (Мишәр) é falado principalmente fora do Tartaristão em regiões vizinhas a oeste e na Finlândia, tem seus subdialetos divididos em três grupos dependendo da pronúncia da consoante escrita ç (ч), que pode ser [tɕ], [ts] ou mista, enquanto no dialeto central é pronunciada [ɕ]. Algumas outras diferenças do dialeto ocidental em relação ao dialeto central incluem a ausência de /q/ e /ʁ/, monotongação de ditongos decrescentes e /j/ inicial no lugar de /ʑ/ no início de palavras.

Por vezes, a língua tártara da Sibéria é considerada como o dialeto oriental da língua tártara. Foneticamente, o tártaro da Sibéria é marcado pelas pronúncias /ts/ e /j/ equivalentes a /ɕ/ e /ʑ/ do dialeto central, além do desvozeamento de diversas consoantes. De qualquer forma, as principais diferenças entre todas essas variedades são lexicais e fonéticas, apesar de haver algumas diferenças gramaticais.

+Comparação lexical entre os dialetos tártarosOcidentalCentralOriental (Tártaro Siberiano)Tradução ao PortuguêsPrincipal Fenômeno Observadoyäy (яй)cäy (җәй)yäy (йәй)verãoCorrespondência de /j/ ocidental e oriental a /ʑ/ centralbälä (бәлә)bäylä (бәйлә)päylä (пәйлә)amarrar, dar nóMonotongação no ocidentalbiyä (бия)biyä (бия)пейә (peyä)éguaDesvozeamento de /b/ para /p/ no orientalmügüz (мүгүз)mögez (мөгез)möyös (мөйөс)chifreDesvozeamento de /z/ para /s/ e palatalização de /g/ para /j/ no orientalsüwäk (сүвәк)söyäk (сөяк)söyäk (сөйәк)ossoCorrespondência de /j/ central e oriental a /w/ ocidentalkurik (курик)qoyrıq (койрык)qoyroq (ҡойроҡ)rabo, caudaMonotongação e correspondência de /q/ a /k/ no ocidentalçäçäk (чәчәк)çäçäk (чәчәк)tsitsäk (цицәк)florCorrespondência de /ɕ/ central a /tɕ ~ ts/ ocidental e /ts/ oriental

Vale notar que o tártaro ocidental não possui uma ortografia padronizada e o tártarto da Sibéria possui um alfabeto similar ao do tártaro central.

História

Os tártaros chegaram à região que habitam atualmente durante uma série de migrações túrquicas que partiam de uma área ao sul da Sibéria e ao norte da atual Mongólia em direção ao resto da Eurásia. A migração mais importante para a formação do povo tártaro ocorreu após a invasão mongol da Bulgária do Volga, de 1223 a 1236. Apesar de haver debates sobre a composição étnica desses grupos nomádicos, sabe-se que povos que viriam a ser tártaros tiveram grande presença em diversas entidades políticas, como o Império Mongol no século XIII e a Horda Dourada do século XIII ao início do século XVI. Por todo esse período, a língua escrita da região era o chagatai, do ramo carluque, que também era utilizada por outros povos túrquicos da Ásia Central. Mais ou menos juntamente com a formação do Canato de Cazã, no início do século XVI, a língua literária passou a incorporar elementos locais, porém sem refletir precisamente a língua falada, fato que torna difícil a determinação de qual foi o primeiro texto escrito no idioma tártaro.

Os tártaros do Volga foram incorporados ao Czarado da Rússia em 1552 com a conquista do czar Ivã IV. No Império Russo, os tártaros do Volga, com mais de dois milhões de habitantes em 1897, eram considerados um dos povos não russos mais avançados culturalmente e economicamente do Império, principalmente pelo desenvolvimento comercial como intermediários entre a Rússia e o Extremo Oriente. Na primeira metade do século XIX, tomou força o processo de substituição da antiga norma literaria por uma nova baseada no dialeto central, tornando-a mais acessível. O primeiro jornal em tártaro foi publicado em 1905, apesar de a primeira tentativa ter ocorrido quase um século antes.

Com a formação da União Soviética, os tártaros ganharam autonomia por meio da República Socialista Soviética Autônoma Tártara estabelecida em 1920. O uso do tártaro foi incentivado nas duas primeiras décadas da União Soviética durante a política de nativização ou korenizatsiya (коренизация), nessa época foi substituída a escrita árabe pelo alfabeto latino. Porém, após esse período, o tártaro foi alvo de russificação, havendo a implementação de um novo alfabeto cirílico e o incentivo do uso da língua russa por todos povos do país. Com a dissolução da União Soviética, iniciou-se uma nova onda de valorização e revitalização da língua tártara.

O tártaro é ensinado desde 1769 por diversas instituições acadêmicas russas de ensino secundário e superior, desse período datam as primeiras gramáticas, dicionários e cartilhas de alfabetização. O idioma compõe o currículo das escolas do Tartaristão, mas, desde 2017, passou a ser facultativo por influência direta do governo central russo. Atualmente, a principal ameaça ao tártaro é a sua substituição pela expansão do uso do russo, em resposta a isso, diversos grupos de preservação da língua tártara e da cultura tártara continuam fortes na região.

Considerando a evolução fonética do tártaro, a principal característica que marca o idioma é a transformação das vogais fechadas do túrquico antigo, língua ancestral de todas as línguas túrquicas comuns, em semifechadas e as médias em fechadas. Ou seja, as vogais *i, *ü, *ï, *u tornaram-se /e, ø, ɤ, o/ e *e, *ö, *o tornaram-se /i, y, u/. Essa evolução pode ser vista ao comparar cognatos entre as línguas túrquicas, por exemplo, o número "dois" em tártaro da Crimeia eki (эки) e em tártaro ike (ике), "palavra" em turco söz e em tártaro süz (сүз) ou "esquerda" em cazaque sol (сол) e em tártaro sul (сул). Outra mudança é labialização de /ɣ/ e /ɡ/ do túrquico antigo em /w/, como em aɣïz gerando awız (авыз) "boca" e *tāg gerando taw (тау) "montanha".

Fonologia

Consoantes O tártaro possui um inventário consonantal amplo, incluindo seis consoantes que ocorrem apenas em empréstimos de outras línguas. Entre as consoantes, também há variação dialetal notável, a tabela abaixo representa o sistema do dialeto central do tártaro.

Os fonemas /ts/, /tɕ/, /v/, /ʒ/, /h/ e /ʔ/ ocorrem apenas em empréstimos, /f/ é mais comum em palavras estrangeiras, mas está em algumas palavras nativas, como yafraq (яфрак) "folha". Alguns falantes podem substituir /ts/, /tɕ/, /v/ e /ʒ/ pelos fonemas nativos /s/, /ɕ/, /w/ e /ʑ/. As consoantes /ɕ/ e /ʑ/ do dialeto central são equivalentes a /tɕ/ e /dʑ/ ou /ts/ e /dz/ no dialeto ocidental. Além disso, /w/ pode ser pronunciado palatal [ɥ] com vogais anteriores e /l/ torna-se [ɫ] velarizado com vogais posteriores.

Em palavras nativas, as consoantes uvulares [q] e [ʁ] estão em distribuição complementar com as consoantes velares /k/ e /ɡ/, as uvulares ocorrem junto a vogais posteriores e as velares junto a vogais anteriores, por isso as uvulares são por vezes consideradas apenas alofones e não fonemas. De qualquer forma, exceções a essa tendência são comuns em palavras de origem estrangeira, assim possivelmente indicando que as velares e uvulares são realmente fonemas diferentes. Em empréstimos russos, /k/ e /ɡ/ ocorrem com vogais posteriores, como em gaz (газ) "gás" pronunciado /ˈɡɑz/ e não */ˈʁɑz/. Em empréstimos árabes, /q/ e /ʁ/ ocorrem com vogais anteriores em empréstimos árabes, como em säğät (сәгать) "hora, relógio", pronunciado /sæˈʁæt/ e não */sæˈɡæt/. As consoantes /q/ e /ʁ/ não estão presentes no dialeto ocidental, pronunciando-se sempre /k/ e /ɡ/.

Vogais