miniaturadaimagem|290x290px|Antigas províncias ultramarinas portuguesas. Retornados é a designação dada aos cidadãos portugueses que, entre a revolução do 25 de Abril de 1974 incentivada pelo MFA e 1976, após a Descolonização portuguesa de África e a respectiva independência das colónias dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, em especial, Angola e Moçambique) com o fim do Império Português tiveram de voltar para Portugal. Apesar de a designação retornados evocar regresso, muitos retornados portugueses nasceram nas antigas colónias e alguns teriam mesmo a família lá há várias gerações.

O regresso deste número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda. Desta forma, contribuiu para a modernização de aldeias e cidades de todo o país, o fornecimento de peritos nas áreas da Saúde e Educação, o lançamento de novos negócios, transformação da rádio e televisão e a liberalização de costumesRevista Sábado (31 de Janeiro de 2019). O impacto que os retornados tiveram no País..

Conceito No período colonial os habitantes não-indígenas eram designados por colonos, brancos, comunidade branca ou população de origem europeia. Após a Revolução passaram a ser descritos por desalojados ou deslocados e, posteriormente, de repatriados e ‘retornados’. Esta última categorização perdurou até hoje, apesar de ser mal recebida por conter uma conotação pejorativa e estigmatizante. Em alternativa ao termo que se tornaria um estereótipo negativo, muitos reclamaram a condição de apátridas, deslocados ou desalojados de guerraLourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Não se pode neglicenciar a especificidade da dimensão colonial.

História

Deslocação Entre maio de 1974 e novembro de 1975 terão saído de Angola para Portugal mais de 300 mil pessoas e 160 mil de Moçambique para Portugal. Muitos portugueses migraram para outros destinos, como a África do Sul, Rodésia, Índia, Brasil, Paquistão, Venezuela, etc. Cerca de 100 500 militares regressaram, em cerca de um ano, a PortugalMeneses, Maria Paula, Gomes, Catarina (2013). Regressos? Os retornados na (des)colonização portuguesa, Universidade de Coimbra..

As pontes aéreas permitiram o regresso de um número elevado de pessoas, quase 174 000 ultramarinosLourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto., nomeadamente entre Lisboa e Luanda e Luanda e Porto.

Muitos portugueses regressaram de barco, trazendo milhares de caixotes que ficavam espalhados pela cidade de Lisboa, no Porto de Alcântara.

O apoio do Estado Português Os governos agiram. O Decreto-Lei n.º 169/75 cria o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) A 31 de março de 1975, para prestar apoio social, alojamento e integração aos cidadãos que regressavam das antigas colónias após o 25 de Abril. Desenvolvimentos subsequentes foram a criação da Secretaria de Estado dos Retornados em outubro de 1975 (decreto-lei 584-B/75) e o Comissariado para os Desalojados, em setembro de 1976 (decreto-lei 683-B/76). O Estado iria alocar uma verba significativa para estas questões.Delaunay, M. (2024). Les retornados: accueil et intégration des rapatriés de la décolonisation portugaise. Presses universitaires de Rennes.

Edifícios estatais (INATEL, instalações militares, parques de campismo municipais), pensões e hotéis a expensas do Estado, incluindo os de 4 e 5 estrelas, especialmente em Lisboa e no Porto. Isso incluiu o Inatel da Costa da Caparica ou na cadeia do Forte de Peniche.. Outros dirigiram-se às zonas de origem familiar, beneficiando do amparo familiar e comunitário.

Críticas A descolonização tardia de Portugal gerou uma maioria de apoio ao processo quer a nível interno, quer a nível da comunidade internacional, incluindo a ONU.

Apesar disso, houve críticas ao processo. Instalados em Portugal, muitos retornados viveram situações dramáticas, ao nível da falta de assistência médica, emprego, habitação e muita burocracia para obtenção de documentos de identificação, cartas de condução, etc. Por exemplo, os retornados de Angola tiveram problemas associados às dificuldades de conversão da moeda angolana para portuguesa, chegando mesmo a ocupar o Banco de Angola. Existiu ainda dificuldade no pagamento de pensões de aposentação dos funcionários das colónias.

De realçar, o contexto de crise inflacionária internacional ou até queixas dos residentes que se sentiram ultrapassados pelos que "retornavam".

Entidades estrangeiras procuraram prestar auxílio aos retornados, nomeadamente a Cruz Vermelha Internacional, a ONU, embaixada dos EUA em Lisboa (Frank Carlucci), governo do Canadá, etcLourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto ..

Influência na cultura Cinema Os retornados das colónias portuguesas africanas foram objeto de um tratamento nos seguintes filmes: Os Demónios de Alcácer Quibir (1977); Um Adeus Português (1985); Matar Saudades (1988); Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990); e nos documentários: Adeus, até ao Meu Regresso (1974); O Fim do Colonialismo (1976); Retornados - Instrumentos e Vítimas (1981); Retornados ou os Restos do Império (2002).

Televisão Série Depois do Adeus (2013).

Literatura Apesar de prevalecer a ideia do vazio editorial sobre a questão dos retornados, existem diversos livros relevantes: Caderno de Memórias Coloniais (2009) e A Gorda (2016) de Isabela Figueiredo O Retorno (2011), de Dulce Maria Cardoso Retornados, Desalojados, Expoliados - a tragédia nacional dos retornados, portugueses expulsos de Angola (1976) de António Pires Retornar (1976) de Modesto Navarro A Sombra dos Dias 1981) de Guilherme de Melo Percursos: do luachismo ao luena (1981) de Wanda Ramos Rudolfo (1985) de Olga Gonçalves O Cavaleiro Andante (1983) de Almeida Faria De Passo Trocado de Carlos Vaz Ferraz As Naus (1988) de António Lobo Antunes A Casa da Tinta (1992) de João dos Reis Tocata para Dois Clarins (1992) de Mário Cláudio Angola: No entretanto do tempo (1994) de Maria Filomena Cabral O Monhé das Cobras (1997) de Rui Knopfli

Ver também Descolonização portuguesa de África Guerra Colonial Portuguesa Pied-noir Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais

Ligações externas Retornados após o fim do império, Dicionário de Abril - Letra I, por António Reis/ Maria Inácia Rezola/ Paula Borges, Produção: Braveant/ RTP, 2012 Quem eram os "retornados"?, Retornar, por Luís Caetano, RTP A ponte aérea entre Luanda e Lisboa, Ponte aérea da TAP trouxe centenas de milhares de retornados de África, por Sérgio Vicente, RTP, 2015 A casa dos retornados, RTP, 2005

Categoria:Diáspora portuguesa Categoria:Colonização portuguesa em África