thumb|Convento de São Gonçalo (detalhe), s.a., s.d. (início do ) thumb|Convento de São Gonçalo: exterior thumb|Igreja de São Gonçalo: painel de azulejos thumb|Igreja de São Gonçalo: detalhe dos painéis de azulejos thumb|Convento de São Gonçalo: colunata do claustro

O Convento de São Gonçalo, também referido como Mosteiro e Igreja de São Gonçalo, localiza-se no centro histórico da cidade e no município de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores.Ficha na base de dados SIPA

É considerado o maior e mais antigo convento da cidade e o maior do arquipélago, tendo chegado a abrigar mais de cem religiosas. Constituiu-se em reputado centro de educação e de belas-artes, chegando a reunir duas centenas de educandas, que aqui tinham aulas de música, canto, desenho, pintura e humanidades.

O Convento de São Gonçalo encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1971.

História O seu estabelecimento deve-se a Brás Pires do Canto, que em 1542 obteve do Papa Paulo III a bula de autorização para a fundação do que seria o primeiro convento de freiras de Angra. Foi destinado a freiras Clarissas (de clausura), e aí se recolheram as suas duas filhas, uma das quais foi a sua primeira abadessa.Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., p. 1.

O aumento do número de religiosas que se registou durante os séculos XVI e XVII, levou à ampliação das primitivas instalações, que ocuparam o local onde a primitiva igreja (orientada a Leste) estava situada, e da qual ainda existem vestígios integrados nas paredes do claustro Sul. Após essa ampliação, uma nova igreja foi iniciada em fins do , estando a sua decoração interior concluída em meados do século seguinte. A Igreja de São Gonçalo foi inaugurada em 1776 e abriga a antiga Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, atualmente venerável arquiconfraria.

A primeira referência escrita às freiras do convento de São Gonçalo é de Louis-Philippe de Ségur, conde de Ségur (1753-1830), que quando de sua passagem pela Terceira em 1782 rumo aos Estados Unidos, registou a clausura e a beleza das freiras, classificando-as de "não tanto obsequiosas como licenciosas".SÉGUR, Louis-Philippe de. Mémoires ou souvenirs et anedoctes.

No contexto da Guerra Civil Portuguesa, durante os dois anos da presença das forças liberais portuguesas na Terceira (1830-1832) de acordo com o historiador terceirense Francisco Ferreira Drummond, as freiras deste convento desenvolveram um "ardente desejo da liberdade do século, não se contentando muitas d'ellas com a sua profissão que cobriam de pragas e anátemas". À época, o convento foi "refrigério de emigrados", nele vivendo-se "vida galante", tendo nele o próprio Pedro IV de Portugal a sua "freira dilecta", com quem partilhava "melodiosos accentos de poesia".DRUMMOND, Francisco Ferreira. Anais da Ilha Terceira (fac-simile da edição de 1859), Angra do Heroísmo (Açores), SREC, 1981.

Teotónio de Ornelas Bruges Paim da Câmara, futuro visconde de Bruges e depois conde da Praia da Vitória, um rico terratenente da Terceira e apoiante da causa liberal, tinha também o seu derriço em S. Gonçalo, para onde entrava, segundo é tradição, escondido no cesto da roupa.

Testemunha coeva, José Trasimundo Mascarenhas Barreto, marquês da Fronteira, recordou elogiosamente os dotes das freiras deste convento, no tocante à música, doçaria, confeitaria e licores, mas ressalvou:

"O convento das freiras de S. Gonçalo era um grande recurso para a officialidade dos Corpos, principiando pelo General. Todos ali tinham um derriço, como lhe chamavam, e nunca vi nada mais ridículo do que uma quinta feira de Endoenças na Egreja de S. Gonçalo. As lamentações eram applaudidas com o mesmo enthusiasmo com que são as árias e cavatinas no Theatro de S. Carlos."Memórias do marquês de Fronteira e de Alorna. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928.

A tradição oral refere que uma professa, muito bela, ciente dos hábitos românticos de Pedro IV de Portugal, recusou-se a comparecer a uma entrevista com ele, tendo se fechado em sua cela, razão pela qual foi objeto de pesado corretivo por parte da Madre Abadessa.BRAZ, Henrique. Ruas da Cidade, Notas para a toponímia da cidade de Angra da ilha Terceira e outros escritos. Angra do Heroísmo (Açores): Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1985.

Vitorino Nemésio, em seu ensaio "A Terceira durante a Regência", regista que, naquele tempo, "o palratório de S. Gonçalo era mais buliçoso e meiguiceiro que uma gaiola de rolas", complementando que, em vésperas de partida para a guerra daqueles que viriam a ser conhecidos pelos "bravos do Mindelo", eram "as pias madres de S. Gonçalo as grandes mestras do escândalo", recebendo com grande alvoroço, nos seus braços, os "estoicos e azougados oficiais", enquanto a soldadesca, "carne de embarque e matança, sumir-se-ia pelas tabernas dos Quatro Cantos e da Rua das Frigideiras" (hoje rua dos Minhas Terras).NEMÉSIO, Vitorino. Sob os Signos de Agora, Obras Completas, vol. XIII. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1995.

Ao serem extintos os mosteiros em Portugal, em 10 de maio de 1832, este foi o único conservado, recebendo as reclusas de todos os demais da ilha.

Nos finais do , o seu claustro foi muito danificado por um terramoto, sendo necessária a substituição das colunas toscanas com arcos conupiais, a este, por pilastras.

Encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 516/71, de 22 de Novembro, classificação consumida por inclusão no conjunto classificado da Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, conforme a Resolução n.º 41/80, de 11 de junho, e artigo 10.º e alínea a) do artigo 57.º do Decreto Legislativo Regional n.º 29/2004/A, de 24 de agosto.

Características Apresenta dois claustros, cerca e graneis sendo a igreja, com coros alto e baixo, em estilo barroco e conventual, considerados dos melhores exemplos, no arquipélago, da arquitetura do reinado de João V de Portugal.

Três parlatórios, de dupla grade e roda, permitiam o contato entre o grupo de reclusas, filhas da melhor nobreza da ilha, e a comunidade.

No coro baixo da igreja, cujo lajeado em pedra cobre as sepulturas das religiosas, destaca-se uma imagem processional do Senhor dos Passos, junto à grade. O coro alto, assobradado em madeira de cedro ("Juniperus brevifolia"), possui na parede dos fundos um oratório/altar com diversa imaginária religiosa e alfaias cultuais em prata, em grande parte proveniente do antigo Convento de Jesus, na Praia da Vitória, de onde vieram aquando da extinção dos conventos no . Neste coro, está o cadeiral da Congregação, com figuras míticas (grifos, quimeras) esculpidas nos braços dos assentos. Neste Coro também se pode ver uma original "chinoiserie" no interior do óculo da grade, e um órgão setecentista, assim como uma estante em exótica. A pintura do teto, posterior à do teto da igreja, valoriza o conjunto.Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., p. 3.

No retábulo em talha da capela-mor, da época em que o rococó se afirmava, vê-se uma escultura seiscentista do Crucificado como Divino Imperador, com a coroa e o ceptro em prata dourada, sobre uma cruz revestida a prata filigranada, num conjunto de grande equilíbrio atribuído a escola espanhola, possivelmente de origem sul-americana. Dispostas nos nichos do retábulo da capela-mor estão as imagens setecentistas de São Francisco de Assis e de Santa Clara.Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., p. 9.

Do início do , as interessantes pinturas sobre tela, emolduradas pela talha dourada do corpo da igreja figuram, do lado da Epístola, o "Menino entre os Doutores", a "Fuga para o Egito", e a "Apresentação no Templo" e, do lado do Evangelho, a "Visitação", a "Anunciação pelo Anjo" e o "Casamento da Virgem". A talha dourada do púlpito e a da respectiva escada é anterior à da nave da igreja.Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., p. 10.

A decoração setecentista da igreja está ainda representada pelos painéis em azulejos, da época joanina, atribuídos por José Meço a Teotónio dos Santos, discípulo de António Bernardes, que terá realizado esta obra entre 1720 e 1730. Os quatro painéis contam a história de José do Egito, que se inicia do lado do Evangelho, com o rebanho e os irmãos de José, o poço onde este foi aprisionado e narração do sucedido ao pai.Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., p. 12.

Do lado oposto vê-se o sonho do faraó e a interpretação por José do mesmo. No último painel está representado o triunfo de José do Egito. No chão lajeado da nave, junto à grade, existe uma invulgar pedra tumular, esculpida em mármore relevado.

Ver também Lista de património edificado nos Açores Lista de edificações de carácter religioso dos Açores

Bibliografia Angra do Heroísmo: Janela do Atlântico entre a Europa e o Novo Mundo. Horta (Açores): Direcção Regional do Turismo dos Açores. s.d.. Igreja de São Gonçalo. Angra do Heroísmo (Açores): Recolhimento de São Gonçalo, s.d., 16p.

Ligações externas

São Goncalo Categoria:Edifícios monásticos cristãos classificados como imóvel de interesse público em Portugal Categoria:Património edificado em Angra do Heroísmo