Abede Almotalibe ibne Galibe (; Meca, – janeiro/fevereiro de ) foi um xarife dos zaídidas (Du Zaíde) e emir de Meca em três períodos, brevemente em 1827, de 1851 a 1856 e de 1880 a 1882. Filho do emir Galibe ibne Muçaíde, passou parte da juventude e da vida adulta afastado do Hejaz em consequência das disputas entre os xarifes de Meca e o governo egípcio de Maomé Ali Paxá. Escolhido interinamente para o emirado após a deposição de Iáia ibne Surur em 1827, foi substituído por Maomé ibne Abede Almuine e posteriormente estabeleceu-se em Constantinopla. Embora novamente nomeado pela Sublime Porta em 1832, não conseguiu assumir o governo e só retornou efetivamente ao poder em 1851. Seu segundo governo foi marcado por conflitos com as autoridades otomanas do Hejaz e terminou durante a crise provocada pela tentativa de restringir o tráfico de escravos na região.
Deposto em 1855, resistiu militarmente até ser capturado no ano seguinte e novamente afastado de Meca. Em 1880, o sultão restaurou-o no emirado após o assassinato de Huceine ibne Maomé. Durante seu terceiro governo, Abede Almotalibe entrou em conflito com o governador Osmã Nuri Paxá, que o acusou de manter contatos com os britânicos e preparar uma revolta contra o governo otomano. Foi deposto e preso em 1882, sendo substituído definitivamente pelos Du Aune. Passou seus últimos anos em prisão domiciliar em Meca e morreu em 1886. Seu neto Ali Haidar Paxá seria posteriormente o último emir de Meca nomeado pelo Império Otomano.
Vida
Abede Almotalibe era filho do emir Galibe ibne Muçaíde e pertencia aos zaídidas (Du Zaíde), ramo dos catádidas da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Nasceu em Meca em 1209 A.H. (1794). Quando seu pai foi deposto em 1813, acompanhou-o a Salonica, mas posteriormente retornou ao Hejaz. Após a deposição de Iáia ibne Surur em 1243 A.H. (1827), Abede Almotalibe foi escolhido interinamente para assumir o Emirado de Meca. A escolha recebeu o apoio de autoridades e xarifes locais, mas não foi aceita por Maomé Ali Paxá, governante do Egito, que preferia entregar o emirado a Maomé ibne Abede Almuine, dos Du Aune. Abede Almotalibe procurou resistir à substituição e, juntamente com seus irmãos e partidários tribais, entrou em conflito com o novo emir. Derrotado, retirou-se para Assir e posteriormente dirigiu-se a Constantinopla, receando novas represálias de Maomé Ali. Em 1246 A.H. (1831), acompanhou a caravana síria do haje até Damasco e seguiu dali para Constantinopla.
Em junho de 1832, no contexto da rebelião de Maomé Ali contra o governo otomano, a Sublime Porta destituiu Maomé ibne Abede Almuine e nomeou Abede Almotalibe emir de Meca. A nomeação, contudo, não pôde ser efetivada, pois o controle exercido por Maomé Ali sobre o Hejaz impediu Abede Almotalibe de assumir o governo, e ele teve de permanecer nos territórios diretamente controlados pelos otomanos. Somente em 1267 A.H. (1851), depois da morte de Maomé Ali e da restauração da autoridade direta da Sublime Porta sobre o Hejaz, Abede Almotalibe pôde retornar a Meca e assumir novamente o emirado. Seu segundo governo desenvolveu-se num período de crescente intervenção da administração otomana nos assuntos do Hejaz. O emir entrou repetidamente em conflito com os governadores otomanos da região, numa conjuntura em que a autoridade política permanecia dividida entre o xarife de Meca e os representantes do governo imperial. Estes controlavam as forças militares regulares, as alfândegas e parte da administração, enquanto o emir conservava ampla influência sobre Meca, as tribos e outros assuntos internos do Hejaz.
A crise que encerrou seu segundo governo esteve relacionada à tentativa otomana de restringir o tráfico de escravos no Hejaz. Em 1855, o governador recebeu ordens para proibir a importação e a venda de escravos, permitindo que o último carregamento autorizado desembarcasse em Gidá em 29 de outubro. A medida provocou forte oposição em Meca. Estudiosos da cidade pressionaram o cádi a considerar a ordem incompatível com a xaria, enquanto ocorreram manifestações e ataques contra propriedades de europeus e de pessoas sob proteção consular. Abede Almotalibe, que se encontrava em Taife, apoiou a oposição à medida e procurou conservar o emirado em meio à crise. O governo otomano decidiu então restaurar Maomé ibne Abede Almuine. Sua nomeação foi anunciada em Gidá em 15 ou 17 de novembro de 1855, mas Abede Almotalibe recusou-se a reconhecer sua deposição e reuniu partidários para resistir militarmente. A controvérsia sobre o tráfico de escravos tornou-se, assim, parte da disputa mais ampla pelo controle político do emirado. Maomé chegou a Meca em 17 de abril de 1856, mas a resistência de Abede Almotalibe prosseguiu até maio, quando este foi capturado e enviado a Constantinopla. Foi posteriormente obrigado a residir em Salonica. Enquanto ali se encontrava, escreveu ao grão-vizir solicitando autorização para voltar a Constantinopla. O pedido foi concedido, e Abede Almotalibe permaneceu na capital otomana durante aproximadamente 25 anos.
Após o assassinato do emir Huceine ibne Maomé em Gidá, em 1880, o sultão decidiu restaurar Abede Almotalibe no emirado. Sua nomeação encontrou oposição entre algumas autoridades otomanas do Hejaz, mas foi mantida pela corte imperial, e ele retornou a Meca depois de aproximadamente 25 anos de afastamento. Apesar de sua atuação durante a crise de 1855, Abede Almotalibe não se opôs publicamente, nesse terceiro governo, às medidas otomanas e britânicas destinadas a restringir o tráfico de escravos no Hejaz. Ochsenwald relaciona essa mudança de atitude à situação política do emir, que necessitava do apoio do governo central em suas disputas com os governadores otomanos da região. Durante seu terceiro governo, Abede Almotalibe procurou ampliar sua influência sobre a administração regional e entrou sucessivamente em conflito com representantes otomanos. A disputa tornou-se particularmente grave com Osmã Nuri Paxá, governador do Hejaz. Osmã Nuri acusou o emir de manter contatos com os britânicos, procurar obter armas e preparar uma revolta contra o governo otomano. A interpretação dessas acusações é controversa: documentação britânica examinada por al-Ghālibī não confirma a existência do alegado acordo e levou a autora a interpretar o episódio no contexto da disputa política entre o governador e Abede Almotalibe.
Em 2 de setembro de 1882, Osmã Nuri organizou uma operação contra Abede Almotalibe, que se encontrava em sua residência em Taife. Cercado pelas forças do governador, o emir foi deposto e preso sem oferecer resistência. Osmã Nuri colocou inicialmente Abede Alilá ibne Maomé à frente do emirado, mas sua nomeação não foi confirmada pela corte otomana, que escolheu seu irmão mais velho, Aune Arrafique Paxá. Abede Almotalibe permaneceu inicialmente sob custódia em Taife e foi depois transferido para Meca, onde ficou em prisão domiciliar em seu palácio de , em , até sua morte. Abede Almotalibe morreu em Meca em Rabi Alarrir de 1303 A.H. (1886), depois de ter exercido o emirado em três períodos distintos. Entre seus filhos estavam Haxime, Ali Jabir e Fuaide, que receberam o título de paxá e alcançaram o grau otomano de beilerbei. Seu neto Ali Haidar Paxá, filho de Ali Jabir, seria posteriormente o último emir de Meca nomeado pelo governo otomano.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XVIII Categoria:Árabes do século XIX Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Zaídidas Categoria:Árabes do Império Otomano