De Optimo Genere Oratorum ("O melhor gênero de oradores") é um breve texto de Cícero, escrito em 46 a.C. como prefácio a suas traduções latinas de dois discursos gregos rivais: o Contra Ctesifonte, de Ésquines, e o Sobre a Coroa, de Demóstenes. O texto intervém na polêmica sobre o aticismo que opunha Cícero a oradores romanos mais jovens e sustenta que o melhor orador é o que imita Demóstenes. As traduções se perderam, mas o prefácio sobreviveu. Nele Cícero afirma ter traduzido "não como intérprete, mas como orador", sem verter palavra por palavra, e a passagem tornou-se um dos textos fundadores da tradução sentido por sentido.
Contexto Segundo Brunno Vieira e Pedro Zoppi, a obra foi escrita em 46 a.C., depois do Bruto e do Orator. Bruto, amigo de Cícero, teria considerado o Orator inacabado e falho, e Cícero redigiu então um opúsculo dedicado à disputa com os chamados neoáticos. Esses jovens oradores, liderados por Bruto e Calvo, entendiam o aticismo como um estilo conciso e direto, calcado nos oradores atenienses clássicos, e criticavam o estilo mais amplo e ornado de Cícero.Vieira e Zoppi (2011), pp. 4 e 7, nota 8. Cícero, influenciado pelas escolas asiática e ródia, declarava-se partidário da estética ática, mas considerava canhestra a leitura literal que os neoáticos faziam dela. Para os tradutores, o texto é também uma apologia do próprio estilo de Cícero, que se apresenta como o Demóstenes latino.
Christopher van den Berg situa o De Optimo Genere Oratorum ao lado do Bruto e do Orator como as três obras em que Cícero discute o aticismo. Em todas, segundo ele, o propósito retórico é diminuir o aticismo romano e, ao mesmo tempo, apropriar-se de seus valores.
Conteúdo miniaturadaimagem|upright=0.8|Busto de Cícero nos Museus Capitolinos, em Roma O texto tem 23 parágrafos, tradicionalmente agrupados em sete capítulos.
O orador perfeito Cícero começa distinguindo a oratória da poesia. Na poesia há gêneros distintos, como a tragédia, a comédia e a épica, cada um com seu tom próprio. Na oratória, porém, há um único gênero, e os oradores diferem entre si pelo grau de excelência, não pelo gênero. O melhor orador é o que, ao discursar, instrui, deleita e comove o público: instruir é um dever, deleitar é uma cortesia e comover é uma necessidade (docere debitum est, delectare honorarium, permovere necessarium).Vieira e Zoppi (2011), pp. 5–6. A eloquência consiste em palavras e ideias, e o orador deve cuidar da correção, da elegância, do ritmo e da ordenação dos argumentos. De tudo isso, a memória é o alicerce, e a ação, a luz.Vieira e Zoppi (2011), pp. 6–7.
Aticismo e asianismo O único gênero de orador é o que floresceu em Atenas. Cícero recomenda imitar os oradores áticos, de saúde íntegra, e não aqueles de abundância viciosa que a Ásia produziu em grande número.Vieira e Zoppi (2011), pp. 7–8. Entre os áticos, Lísias tem estilo simples porque escreveu sobretudo causas pequenas e privadas. Demóstenes, ao contrário, podia falar com simplicidade, enquanto Lísias talvez não conseguisse falar com elevação.Vieira e Zoppi (2011), pp. 8–9. Nesse ponto, Cícero rebate os críticos de sua defesa de Milão, o Pro Milone, de 52 a.C. Segundo ele, quem julga que aquele discurso, pronunciado com o exército posicionado no Fórum, deveria ter o tom de uma causa privada mede a força da eloquência pela própria capacidade, e não pela natureza do assunto. Giuseppe La Bua lê a passagem como uma defesa do estilo grandioso contra as críticas aticistas, fundada no contraste entre Demóstenes, capaz de contenção, e Lísias, incapaz de elevação.
Cícero conclui que falar ao modo ático não é falar de modo apenas enxuto e sutil, pois também é ático falar com amplitude e ornamento. Como Demóstenes é o maior dos oradores atenienses, quem o imitar falará ao modo ático e da melhor maneira; "falar bem é falar ao modo ático".Vieira e Zoppi (2011), p. 10.
A tradução Para mostrar qual é esse gênero de discurso, Cícero anuncia ter traduzido os dois discursos contrários de Ésquines e Demóstenes. O parágrafo 14 contém a formulação mais citada da obra:
Em seguida, Cícero exclui Tucídides e Isócrates do modelo que procura. Tucídides é admirável como historiador, mas narrar fatos não é o mesmo que acusar ou defender no foro. Isócrates, embora louvado por Platão, não combate com lâminas: seu discurso é como uma espada de treino.Vieira e Zoppi (2011), pp. 11–12. Cícero também responde a duas objeções a seu trabalho. Aos que dizem que os gregos são melhores, pergunta se eles poderiam ser melhores em latim. Aos que preferem ler os originais, lembra que o mesmo público lê Ênio, Pacúvio e Ácio, adaptadores latinos do teatro grego, em vez de Eurípides e Sófocles.Vieira e Zoppi (2011), pp. 12–13.
Os parágrafos finais expõem a causa. Ctesifonte propusera que Demóstenes, responsável pela reconstrução dos muros de Atenas, recebesse uma coroa de ouro no teatro, antes de prestar contas de sua magistratura. Ésquines acusou-o de violar a lei, mas usou o processo para atacar Demóstenes, seu inimigo. A acusação foi apresentada quatro anos antes da morte de Filipe da Macedônia, e o julgamento só ocorreu alguns anos depois, sob Alexandre, diante de gente vinda de toda a Grécia.Vieira e Zoppi (2011), pp. 13–14. Cícero encerra dizendo que, se conseguir exprimir os discursos preservando todas as suas qualidades, isto é, os argumentos, as figuras e a ordem, e acompanhando as palavras até onde não destoem do uso latino, a tradução servirá de regra para quem quiser falar ao modo ático.Vieira e Zoppi (2011), pp. 14–15.
As traduções perdidas As traduções dos dois discursos não chegaram até nós; restou apenas o prefácio.
Importância para a teoria da tradução Jeremy Munday situa o De Optimo Genere Oratorum na origem da distinção entre tradução palavra por palavra e tradução sentido por sentido, que atravessou a teoria da tradução até o século XX. O "intérprete" de que Cícero se distancia é o tradutor literal. Como os romanos costumavam ler as traduções ao lado dos originais gregos, a tradução palavra por palavra substituía cada termo grego pelo equivalente gramatical latino mais próximo. O "orador", ao contrário, procurava produzir um discurso capaz de comover os ouvintes.
Em 395, Jerônimo invocou a autoridade de Cícero para justificar sua própria maneira de traduzir. Na carta a Pamáquio, citou o prefácio aos discursos de Ésquines e Demóstenes antes de declarar que vertia do grego "não palavra por palavra, mas sentido por sentido".Munday (2001), p. 20. A carta de Jerônimo ficou conhecida como De optimo genere interpretandi.
Traduções para o português Cícero. "De optimo genere oratorum / O melhor gênero de oradores". Tradução de Brunno Vinicius Gonçalves Vieira e Pedro Colombaroli Zoppi. Scientia Traductionis, n. 10, 2011, pp. 4–15. Edição bilíngue, com o texto latino estabelecido por Albert Yon.
Bibliografia Cicéron. L'orateur. Du meilleur genre d'orateurs. Texto estabelecido e traduzido por Albert Yon. Paris: Les Belles Lettres, 1964. Cicero. De Inventione. De Optimo Genere Oratorum. Topica. Tradução de H. M. Hubbell. Loeb Classical Library 386. Londres: Heinemann, 1949. Hendrickson, G. L. "Cicero De Optimo Genere Oratorum". American Journal of Philology, v. 47, n. 2, 1926, pp. 109–123.
Ligações externas Texto latinona The Latin Library Texto latinono Perseus Digital Library
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