O Incêndio no Edifício Terezinha Gladys, também conhecida como a Tragédia do Flamengo, foi um incêndio criminoso ocorrido em 3 de maio de 1984, no condomínio residencial Edifício Terezinha Gladys, localizado no bairro Flamengo, na capital homônima do estado do Rio de Janeiro, no Brasil. Gravado, fotografado e posteriormente exibido na televisão, mostrando o prolongado desespero e as mortes das quatro vítimas, o caso ganhou grande repercussão nacional naquele mesmo ano.
Orivaldo Basílio de Souza, o responsável pelo incêndio, estava em uma festa no décimo andar do Edifício Terezinha Gladys, no apartamento 1004, quando alguns dos participantes resolveram tentar roubá-lo. Orivaldo, que estava armado, reagiu, iniciando um tiroteio e chamando a atenção dos moradores do edifício, que chamaram a polícia. Sabendo que era procurado pelos seus antecedentes criminais, Orivaldo ficou com medo de ser reconhecido pelas autoridades, e assim colocou móveis na frente do apartamento 1006, onde as vítimas do incêndio moravam, para depois atear fogo neles, em uma tentativa de distrair os policiais.
As vítimas, quatro mulheres jovens, se trancaram no apartamento com medo de serem assaltadas, e pediram por socorro pela janela, mas os bombeiros não chegaram a tempo. A tragédia gerou revolta dos moradores e das famílias das vítimas.
Orivaldo Basílio de Souza Orivaldo Basílio de Souza nasceu aproximadamente no ano de 1964 ou 1965, no estado do Espírito Santo. Perdeu seu pai aos dois anos de idade em um assalto. Ele foi para o mundo do crime durante sua adolescência, aos 13 ou 15 anos, passando a ser conhecido como "Bigodinho".
As vítimas Marilene Mendes França nasceu em uma família humilde no município de Palmeirândia, no estado do Maranhão, aproximadamente no ano de 1956. Desejando uma vida melhor, ela decidiu migrar para o Rio de Janeiro, convencendo parentes e familiares a irem junto: sua irmã Raimunda França, seu irmão Roque França, sua prima Marlene Barros e sua amiga Raimunda de Menezes.
Marilene se mudou para o apartamento 1006 do Condomínio Residencial Edifício Terezinha Gladys, no bairro do Flamengo. Ela compartilhava o local com sua prima, sua irmã e sua amiga. Na época, Marlene e Marilene eram funcionárias da Acir Administradora de Imóveis. Raimunda França era funcionária da Yamamoto Veículos, estudava em um curso de datilografia, e tinha um namorado, Renato César Cunha. Já Raimunda de Menezes era desempregada e estava procurando por trabalho.
Incêndio Na noite de 3 de maio de 1984, Marlene e Marilene voltaram para casa juntas depois de um dia de trabalho após não poderem visitar as suas colegas de trabalho. Raimunda França também decidiu voltar para a casa ao invés de ir para sua aula de datilografia. O dia de Raimunda de Menezes, que gastou seu tempo procurando por um emprego, foi corriqueiro.
Enquanto isso, na mesma noite, Orivaldo foi convidado para uma festa no apartamento 1004 do edifício onde as jovens moravam. De acordo com o seu depoimento, os participantes da festa consumiram cocaína e maconha, e ele também estava drogado. Alguns participantes da festa, vendo que o jovem tinha o dinheiro para pagar as drogas que comprou minutos antes, tentaram assaltá-lo. Orivaldo reagiu com a arma que tinha, um revólver Smith Wesson calibre 32, assim iniciando um tiroteio, já que um dos outros participantes também estava armado. Os disparos chamaram a atenção dos moradores do edifício, que chamaram a polícia.
Sabendo que ele era procurado pelos seus atos criminosos no passado, Orivaldo, desesperado e com o intuito de distrair os policiais, colocou móveis leves na frente da porta do apartamento 1006 e molhou-os com latas do inseticida Repelex antes de atear fogo nesses. Pelo outro lado da porta, as quatro moradoras decidiram se trancar dentro do apartamento, pensando que o tiroteio era de um assalto. Contudo, percebendo o incêndio, elas começaram a gritar por ajuda pela janela do apartamento, abanando panos e enviando bilhetes de papel. Dois deles diziam "Ajude-nos, pelo amor de Deus. Tem alguém forçando a porta" e "Por favor, ajudem-nos. Estão tentando arrombar o apartamento 1006".
Com a demora dos bombeiros, e o fogo se alastrando pelo apartamento, as moradoras começaram a ameaçar se atirar do prédio. A multidão de pessoas que assistia a cena gritava em coro para elas se acalmarem. Marilene, desesperada e com queimaduras nas costas, tirou sua camisa e se jogou pela janela. Renato Cunha, com ajuda de uma outra moradora, jogou uma mangueira do topo do prédio para que as outras três jovens saíssem pela janela e descessem para o apartamento 906. Entretanto, Raimunda França e Raimunda de Menezes escorregaram e cairam. Marlene tentou quebrar a janela do andar de baixo com o pé, mas a mangueira queimou, e ela também acabou caindo. A gravação da tragédia mostrou que a escada Magirus não chegou a tempo de resgatá-la.
Investigação
Tentativa de fuga de Orivaldo
Gravemente ferido após levar cinco tiros, Orivaldo foi levado para uma ambulância. A polícia agiu com rigor para que a multidão não o tirasse do veículo para linchá-lo.
Em 23 de janeiro de 1986, no 3.° Tribunal do Jari, Orivaldo foi julgado sob a presidência do juiz Augusto César Leite. Todos os seis júris presentes consideraram-no culpado, apesar de ele se declarar inocente, alegando que não sabia da existência das vítimas do incêndio. O réu foi condenado a 65 anos e 9 meses de prisão, com mais 30 dias de multa, por incêndio doloso, cinco tentativas de homicídio, resistência à prisão, violação de domicílio, porte de tóxico, vadiagem e responsabilidade pela morte das quatro mulheres. "Matar ou morrer, pra mim, agora, é a mesma coisa", disse ele após a sentença.
Corpo de bombeiros Um dia após a tragédia, o comandante do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, o Coronel BM José Halfed Filho, esteve em entrevista no Palácio Guanabara, com o secretário de justiça Vivaldo Barbosa, o comandante da Polícia Militar Carlos Magno Nazareth Cerqueira, e o secretário de Polícia Civil Arnaldo de Poli Campana. José admitiu a culpa de seus comandados, e responsabilizou o capitão-bombeiro Fernando Passos pela tragédia, acusando-o de estar mais preocupado com o tiroteio do que com o incêndio, pois demorou a pedir a escada Magirus e tomar outras providências.
Consequências
Estragos e revolta popular Roque, irmão de Marilene, soube da tragédia pela televisão, quando estava voltando do jogo do Flamengo.
Assim quando os bombeiros chegaram no apartamento 1006, que estava completamente destruído pelo fogo, para retirar o ar condicionado, receberam vaias e xingamentos dos moradores do edifício e dos vizinhos, que chamaram-nos de "incompetentes". Depois, uma faixa preta foi erguida no prédio em sentido vertical (para acompanhar o percurso da queda das vítimas), que dizia "estamos de luto devido à incompetência dos bombeiros e PMs".
O advogado das famílias das vítimas, Ezequias Gomes de Lima, acusou os bombeiros de elitismo classista. "Se eles agissem com maior rapidez, tudo poderia ter sido evitado. Se naquele prédio morasse gente de posse, um Figueiredo, um Pelé ou um Zico, os bombeiros teriam usado todo o equipamento necessário. Houve negligência porque se tratava de pessoas humildes, pobres, que morreram mesmo com a presença dos bombeiros", afirmou.
Cerca de 300 pessoas acompanharam o enterro das quatro jovens no Cemitério do Catumbi, que ocorreu um dia depois da tragédia. Outro advogado, Paulo Gomes, discutiu com Alcides Fonseca, deputado do Partido Democrático Trabalhista, assim quando o último acusou Leonel Brizola como o responsável pelo ocorrido. Paulo acusou Alcides de "estar faturando politicamente em cima de quatro cadáveres, num momento de dor familiar".
Impacto cultural A gravação da queda das vítimas do incêndio, filmada pelo cinegrafista Carlos Cardoso, está incluída em alguns filmes mondo, também conhecido como shockumentaries, como Traços da Morte 2, The Worst of the Many Taboos of Death e Unsung Heroes.
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