Geraldo Campos de Oliveira foi um professor, jornalista, diretor de teatro, intelectual e ativista do movimento negro brasileiro.
Nasceu em Franca, filho de Orozimbo Campos, funcionário público e destacado ativista negro, e conviveu desde a infância com Abdias do Nascimento, estudando juntos até a adolescência. Orozimbo deu orientação política para Nascimento e providenciou o seu primeiro emprego.Binazzi, Biancamaria. "Teatro de Babel #12: a presença negra no Teatro Musicado". Jornal da USP, 2 de fevereiro de 2026 Em torno de 1936 Oliveira estava em São Paulo, atuava como professor, era filiado ao Partido Libertador e presidia o Clube Cultural Recreativo do Negro. Nesta época deu apoio à fundação da Associação de Empregadas Domésticas, idealizada por Laudelina de Campos, a quem Oliveira apoiou em suas viagens pelo Brasil para mobilizar trabalhadoras domésticas e ajudar a fundar novas associações.<ref>Brito, Bianca Maria Santana de. [https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-01032021-161836/publico/BiancaMariaSantanadeBritoVC.pdf A escrita de si de mulheres negras: memória e resistência ao racismo ']. Universidade de São Paulo, 2020, p. 171</ref> Silva, Estevam. "120 anos de Laudelina de Campos, pioneira da luta pelos direitos das empregadas domésticas". Opera Mundi, 14 de outubro de 2024 Em 1937 mudou-se com Abdias do Nascimento para o Rio de Janeiro, onde começaram uma militância contra o governo de Getúlio Vargas, sendo presos e postos na mesma cela. Libertados em 1938, ambos se dirigiram para Campinas, onde organizaram com outros ativistas o Congresso Afro-Campineiro, que não teve grande repercussão mas foi um dos primeiros em seu gênero em São Paulo.Rocha, Gabriel dos Santos. O negro como tema e sujeito na produção intelectual de Abdias do Nascimento, 1944-1968. Universidade de São Paulo, 2016, pp. 74-75
Abdias do Nascimento em 1944 fundou no Rio de Janeiro o Teatro Experimental do Negro, fazendo também uma experiência mal sucedida em São Paulo. Oliveira então apresentou em 1945 uma proposta de fundação de um grupo similar em São Paulo, divulgada no jornal Folha da Manhã, logo após o fim da II Guerra Mundial, quando se abriam novas possibilidades de discussão sobre a cultura e o racismo. No entanto, o preconceito racial continuava forte, e circulava no país o mito da democracia racial, que pregava a existência de uma suposta harmonia e igualdade entre as etnias. A proposta de Oliveira envolvia um projeto de educação e profissionalização teatral associado com o ativismo negro antirracista.Silva, Mário Augusto Medeiros da. "O Teatro Experimental do Negro em São Paulo, 1945-1966". In: Novos Estudos CEBRAP, 2022; 412 (2): 389-410
Previsivelmente, o projeto encontrou muitas dificuldades, a começar pela escassez de dramaturgia que atendesse aos interesses do movimento negro e falta de um local estável para os ensaios, mas o Teatro Experimental do Negro de São Paulo dirigido por Oliveira acabou frutificando, e a partir de 1945 apresentou peças com foco no experimentalismo, além de pretender dignificar o teatro negro e equipará-lo ao teatro moderno branco. Colaborou com vários diretores de teatro e com o Teatro do Estudante do Rio, recebendo frequente atenção da imprensa e frequentes elogios pela qualidade de seus atores e suas montagens, especialmente depois da apresentação de Todos os filhos de Deus têm asas, de Eugene O'Neill, em 1949. Em 1950 o TEN-SP se juntou a várias organizações em ato público contra o racismo e o antissemitismo. Várias outras manifestações políticas se sucederam. Na década de 1950 o TEN-SP havia crescido a ponto de poder ensaiar três peças simultaneamente. O TEN-SP também mantinha um Coral Declamatório e realizava recitais de música e poesia. Segundo Santos & Diniz, o grupo "produziu mais de vinte espetáculos, participando ativamente da cena teatral moderna na cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo que atuou como um agente fundamental e ativo na construção de um vibrante circuito cultural e político negro-atlântico, manifesto em múltiplas e significativas frentes. Destacamos a escolha de um repertório de dramaturgos negros de Nova York, como Richard Wright, Langston Hughes, Lorraine Hansberry e James Baldwin".Santos, William Santana & Diniz, Guilherme. "Dramas Afro-Atlânticos: o teatro de James Baldwin desembarca na cena de São Paulo (1966)". In: Ephemera - Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, 2026; 9 (18): p. 26-41 Também montaram peças de Augusto Boal, Tasso da Silveira e Milton Gonçalves."Teatro Experimental do Negro: histórico". Jornal GGN, 14 de junho de 2010 A partir da instalação da ditadura militar em 1964, o TEN-SP passou a enfrentar novas dificuldades e foi dissolvido em 1966.
Sempre envolvido no ativismo, Oliveira foi um dos signatários do Manifesto à Nação, elaborado na Convenção Nacional do Negro Brasileiro realizada no Rio em 1945, contendo várias reivindicações relacionadas às lutas por direitos e políticas sociais afirmativas;Sobrinho, Gilberto Alexandre. "O legado do Teatro Experimental do Negro (TEN): lições de estética, política e comunicação". In: Conceição|Conception, 2023; 12 (2) em 1950 foi candidato a deputado federal por São Paulo,Rocha, p.101 e no mesmo ano serviu de secretário da seção paulista do I Congresso do Negro Brasileiro.
Foi um dos fundadores, um dos líderes e o primeiro presidente da Associação Cultural do Negro, fundada em 1954 como uma reação ao apagamento do negro nas comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, e que depois desenvolveria marcante atuação cultural, política e literária, procurando lutar contra o racismo e a desigualdade e recuperar a dignidade, a identidade, a cultura e a memória do negro no país.Silva, Mário Augusto Medeiros da. "Fazer História, Fazer Sentido: Associação Cultural do Negro (1954-1964)". In: Lua Nova: Revista de Cultura e Política, 2012 (85)Campos, Antônia Junqueira Malta. "A colaboração com intelectuais dos movimentos sociais do meio negro durante a pesquisa UNESCO em São Paulo e sua importância para a obra A Integração do Negro na Sociedade de Classes". In: 38º Encontro Anual da Anpocs, 2014
Em 1957 foi o representante brasileiro no II Congresso de Escritores e Artistas Negros, realizado em Roma e patrocinado pela Sociedade Africana de Cultura, em 1959 colaborou na criação do Grupo Cultural do Negro Campinense,Pinto, Elisabete Aparecida. "Política, raça e gênero: Laudelina de Campos e a presença negra nas organizações política-partidárias". In: Revista da ABPN, 2018; 10 (25): 101-140 e em 1975 esteve entre os fundadores do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas, sendo eleito para o Conselho Fiscal na primeira Diretoria. O Instituto foi criado com objetivo de reunir ativistas sociais e acadêmicos e desenvolver um programa de enfrentamento do racismo, bem como estudos e divulgação de conhecimento sobre o problemas do negro e sobre a história e cultura africanas.Vieira, Cleber Santos. "Clóvis Moura e a fundação do IBEA — Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas". In: Revista da ABPN, 2017; 9 (22): 349-368
Foi também diretor da revista Senzala, dedicada à literatura, às mulheres, à divulgação de eventos artísticos, bailes, formaturas e congressos culturais, além de promover o culto aos abolicionistas e a outras personalidades influentes da comunidade negra, mas teve muito breve existência. Reis, Carlos Antonio dos. A África impressa: identidades e representações da África na imprensa negra paulista (1916-1978). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2016, p. 142 Foi um dos principais colaboradores do jornal O Novo Horizonte, fundado pela Associação do Negro Brasileiro com uma proposta unificadora e emancipadora da comunidade negra, escrevendo artigos onde combatia o racismo e defendia a criação de condições estruturais favoráveis para o fomento da educação e do esporte e a fundação de instituições culturais negras. O Novo Horizonte'', segundo Lima & Silva, "teve ampla atuação na representatividade da raça negra na imprensa brasileira dos anos 1940". Foi ainda assessor de Imprensa do Gabinete do Ministro do Trabalho no governo de Jânio Quadros, e foi nomeado pelo presidente João Goulart para o cargo de diretor do Instituto de Previdência dos Comerciários.Lima, Nilsângela Cardoso & Silva, Geovane Pereira da. "O Novo Horizonte: identidade e memória coletiva da raça negra na imprensa". In: Animus — Revista Interamericana de Comunicação Midiática, 2022; 21 (46)
Ver também Movimento negro no Brasil Imprensa negra no Brasil Teatro Experimental do Negro
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