A resistência indígena ao colonialismo compreende o conjunto de ações, estratégias e formas de oposição desenvolvidas pelos povos indígenas diante da dominação colonial, do esbulho territorial e da assimilação cultural. Essas respostas variaram conforme o contexto histórico, o território e a relação estabelecida com os estados coloniais, e foram da confrontação armada e das alianças diplomáticas às migrações, aos litígios judiciais e às estratégias de preservação cultural, inclusive alianças com os próprios colonizadores ou com outros povos.
Em alguns casos, as comunidades indígenas foram deslocadas de seus territórios, realocadas em reservas e aldeamentos ou incorporadas como mão de obra forçada aos sistemas coloniais. Algumas etnias indígenas sofreram destruição total e genocídio. Ainda assim, muitas mantiveram suas estruturas sociais, crenças e práticas tradicionais, adaptando-as aos novos marcos políticos e religiosos.
Ao longo dos séculos, a resistência indígena assumiu expressões diversas, dos levantes e rebeliões aos movimentos contemporâneos pela autodeterminação, e constituem um processo histórico contínuo de defesa cultural e territorial que persiste até hoje. Em época recente, esses movimentos convergiram com o marco internacional dos direitos humanos, sobretudo no que toca ao reconhecimento dos direitos coletivos, à proteção do território e à participação política dos povos indígenas. thumb|250x250px|Os kiowas, os comanches, os apaches, os cheienes e os arapahos assinaram três tratados sucessivos com o governo dos Estados Unidos em 1867.
Contexto histórico da resistência indígena
Os povos indígenas são os primeiros habitantes conhecidos de um território que foi ou continua sendo colonizado por grupos dominantes. Antes do colonialismo, existiam centenas de nações e tribos com línguas, religiões e culturas diversas. Essas sociedades desenvolveram formas próprias de organização política, como cidades-estado, cacicados, estados, reinos, repúblicas, confederações e impérios, e mantinham sistemas sociais e econômicos complexos. A colonização provocou um colapso demográfico generalizado e o deslocamento de numerosos povos de seus territórios ancestrais. Os povos indígenas existiram dentro de um estado colonial de povoamento, já que são «indígenas» apenas ao experimentar a prática do colonialismo, isto é, quando não dispõem de soberania e de autodeterminação.
Nas últimas décadas, a historiografia passou a dar mais atenção à agência indígena. Se antes os povos indígenas eram analisados sobretudo como sujeitos da dominação colonial, hoje se reconhece seu papel ativo nos processos de adaptação, negociação e resistência, o que deu origem a campos como a história indígena e os estudos de fronteira.
Com a expansão europeia, os colonos impuseram-se pela conquista, pela ocupação ou pela invasão, e geraram conflitos prolongados com os povos originários. Muitos deles foram vítimas de violência, de deslocamentos e, em alguns casos, de genocídios documentados. Ainda assim, as comunidades indígenas sobreviveram e mantêm processos de revitalização cultural e política. Segundo dados do Banco Mundial, somam cerca de 476 milhões de pessoas em cerca de 90 países e falam mais de 5.000 línguas, embora numerosas comunidades tenham desaparecido. Entre as línguas indígenas sobreviventes estão o aimará, o guarani, o quíchua e o mapuche na América do Sul; o lacota e o navajo na América do Norte; o maia e o nauatle na Mesoamérica; as línguas inuítes na região circumpolar; as línguas sami no noroeste da Eurásia; o enga em Papua-Nova Guiné, o kalaw lagaw ya do Estreito de Torres e o maori na Oceania.
Apesar dos avanços no reconhecimento jurídico e cultural, os povos indígenas continuam enfrentando discriminação estrutural e desigualdade econômica. Segundo o Banco Mundial, representam cerca de 19 % da população em situação de pobreza no mundo, embora constituam menos de 6 % da população mundial.
Descobrimento e conquista de nações indígenas e sua resistência
esquerda|thumb|300x300px|Guerreiros astecas liderados por um guerreiro-águia, cada um com uma maça macuahuitl. Códice florentino, livro IX, F, 5v. Manuscrito escrito por Bernardino de Sahagún. Antes de os europeus se proporem a descobrir o que outros já haviam povoado em sua Era dos Descobrimentos e antes da colonização europeia, os povos indígenas residiam em grande parte do território mundial. Nas Américas, por exemplo, estima-se uma população de até 100 milhões de pessoas. A resposta indígena à colonização foi variada e mudou com o tempo, pois cada grupo optou por fugir, lutar, submeter-se, apoiar ou buscar soluções diplomáticas. Um exemplo de grupo indígena que fugiu é o dos beothuks da Terra Nova, hoje praticamente extinto. Os charruas foram massacrados no atual Uruguai e exterminados. Já os nenetses adaptaram-se ao Estado russo. Diante dos massacres e dos processos de extermínio, os povos indígenas resistiram de formas que iam da guerra aberta à escolha da morte antes da submissão. Em Bali, perante o avanço colonial neerlandês, as cortes reais praticaram o puputan, um suicídio ritual coletivo preferível à humilhação da rendição: em 1906, em Badung, e em 1908, em Klungkung, os rajás, suas famílias e seus seguidores — vestidos com roupas brancas cerimoniais — marcharam contra as tropas holandesas até a morte; só em 1906 morreram cerca de mil pessoas. A historiografia interpreta o puputan como um ato final de resistência, e não de desespero. thumb|250x250px|Malinche traduzindo para Hernán Cortés. Durante muito tempo, os estudiosos explicaram que novas doenças infecciosas vindas do exterior causaram as altas taxas de mortalidade dos povos indígenas ao entrarem em contato com os colonos. Os estudos recentes concentraram-se em examinar a natureza das duras condições de vida impostas aos povos indígenas pela colonização, que os tornaram mais vulneráveis a qualquer doença, inclusive às novas. Fatores como o trabalho forçado somado à fome, que convergiram durante o processo de colonização, debilitaram os povos indígenas e os tornaram menos resistentes às doenças. Os estudiosos sustentam, por exemplo, que a varíola provavelmente matou um terço da população no México colonial, mas admitem que não há evidência para quantificar o impacto com certeza. Jeffrey Ostler dá o exemplo da colonização da Califórnia como causa de doenças no contexto de um genocídio estrutural. esquerda|thumb|Cuitláhuac, tlatoani asteca que conduziu à vitória na batalha. Durante a colonização da Nova Espanha, do século XVI ao XVIII, os colonizadores dedicaram-se à agricultura, à pecuária, à mineração e à construção de infraestrutura, explorando a mão de obra indígena. A escravidão foi um dos principais fatores que dizimaram a população indígena da América do Norte. A escravidão indígena precedeu e sobreviveu ao comércio de escravos africanos até o século XX. A coroa espanhola permitiu escravizar os povos indígenas capturados nas chamadas guerras justas, que incluíam a resistência indígena ao colonialismo, por exemplo à conversão religiosa forçada. O trabalho forçado indígena ocorreu em repartimientos, encomiendas, missões espanholas e haciendas. As mulheres e as crianças indígenas foram obrigadas a realizar trabalhos domésticos. Mesmo depois de o Império Espanhol e, em seguida, ex-colônias independentes como os governos do México e dos Estados Unidos proibirem a escravidão, quem se beneficiava dela recorreu a instrumentos legais para evitar sua aplicação, como as leis contra a vadiagem, o arrendamento de condenados e a servidão por dívida. alt=|thumb|Francisco Tenamaztle, líder indígena na Guerra do Mixtón, estátua na praça principal de Nochistlán de Mejía, Zacatecas. As nações indígenas buscaram a diplomacia ou alianças militares para sobreviver, procurando aliados em outras nações, inclusive em nações indígenas vizinhas e também em outras potências colonizadoras, como na Guerra Franco-Indígena e na Guerra de 1812. Na América do Norte, os indígenas por vezes aliaram-se aos franceses para resistir à colonização inglesa. Na América Central, os misquitos aliaram-se aos ingleses para resistir ao colonialismo espanhol. As alianças foram buscadas quando melhoravam as chances de sobrevivência ou trabalhavam em benefício próprio. Algumas nações indígenas procuraram demonstrar lealdade à potência colonizadora tornando-se aliadas militares em ataques a outras nações indígenas, como no caso dos tlaxcaltecas no vale central do México. Outras vezes aliaram-se a escravos africanos fugidos, como no caso dos seminoles. thumb|Como último tlatoani, ou imperador, dos astecas, Cuauhtémoc liderou a defesa final de Tenochtitlán contra as forças espanholas. Em algumas ocasiões, os povos indígenas venceram batalhas contra exércitos liderados por europeus. Entre os exemplos estão a Noite Triste (1520), a Batalha de Colhuacatonco (1521), a Batalha de Ollantaytambo (1537), a Batalha de Tucapel (1553), a Batalha de Marihueñu (1554), a Guerra Chichimeca (1550-90), a Batalha de Curalaba (1598), a Batalha de Mbororé (1641), a Revolta dos Pueblos (1680), a rebelião de Juan Santos Atahualpa (1742-1752), a Batalha de Monongahela (1755), a Batalha de Sangarará (1780), a Batalha do rio Wabash (1791), a Batalha de Nsamankow (1824), a Batalha de Sierra Chica (1855), a campanha de Tauranga nas Guerras da Nova Zelândia (1864), a Guerra de Nuvem Vermelha (1866-68), a Batalha de Little Bighorn (1876) e a Batalha de White Bird Canyon (1877).
Algumas nações indígenas resistiram à conquista durante décadas ou séculos, como os mapuches na Guerra de Arauco, os maoris nas Guerras da Nova Zelândia, os iaquis na Guerra do Yaqui, os incas no Estado neo-inca e os seminoles nas Guerras seminoles. Ainda assim, em muitas partes do mundo os povos indígenas deslocaram-se de territórios férteis e ricos em recursos para territórios inacessíveis e inóspitos, como pântanos, florestas e desertos. Foram expulsos de lugares férteis da Argentina, do Brasil, das Filipinas e da África temperada. Muitos migraram para territórios isolados e hostis para sobreviver. Entre os exemplos estão pequenos grupos indígenas que se deslocaram para partes da bacia amazônica, da Austrália, da América Central, do Ártico e da Sibéria. Outros entraram em conflito com grupos indígenas vizinhos quando, deslocados à força, ocuparam territórios já habitados. Em algumas ocasiões, a reação dos povos indígenas aos ataques levou-os a transformar-se em culturas equestres guerreiras que usaram armas de fogo europeias para resistir a novas invasões de seus territórios. O estereótipo do nativo americano representado nas Guerras Indígenas aparece montado a cavalo. Os povos das Grandes Planícies e os mapuches, por exemplo, adotaram o cavalo em suas culturas e chegaram a empregá-lo na guerra. thumb|Lautaro e Guacolda. Os povos indígenas também incorporaram à sua dieta animais domésticos recém-introduzidos quando os europeus trouxeram galinhas, vacas, porcos, cabras e ovelhas no intercâmbio colombiano. Como caçavam em seu território havia séculos ou milênios, muitas vezes mataram animais pertencentes aos colonos, o que causou numerosos conflitos entre colonos e povos indígenas.
Os povos indígenas nem sempre foram conquistados militarmente, como mostra a existência de tratados firmados entre algumas potências coloniais, como a Grã-Bretanha e a França, e diversas nações indígenas. Na maioria dos casos, esses acordos foram negociados em condições de desigualdade e refletiram as relações de poder coloniais da época. O Tratado de Waitangi dos maoris, de 1840, e o Tratado de Bosque Redondo dos navajos, de 1868, são dois exemplos de tratados que continuam vigentes.