Mario Alberto Arregui Vago (Trinidad, 15 de outubro de 1917 – Montevideo, 8 de fevereiro de 1985) foi um escritor uruguaio, autor de uma obra narrativa concentrada no conto, caracterizada pelo equilíbrio entre o realismo rural do interior uruguaio e a densidade psicológica e existencial do ser humano.
Ao lado de autores como Francisco Espínola e Juan José Morosoli, Arregui é considerado um dos grandes renovadores da narrativa de temática rural (criollismo) no Uruguai, distanciando-a do mero folclore e elevando-a à profundidade existencial.
Biografia Descendente de imigrantes bascos e lombardos, Arregui era filho de Martín Arregui Escondeur e Carolina Vago. Viveu sua infância e adolescência na cidade de Trinidad, capital do Departamento de Flores, onde cursou os estudos primários e secundários. Neste período, frequentou também o estabelecimento agropecuário de seu pai, onde se familiarizou com diversas tarefas rurais às quais se dedicaria pelo resto da vida.
Mudou-se para Montevideo em 1935 com a finalidade de estudar Direito, mas abandonou o curso pouco depois. No marco da ditadura de Gabriel Terra e da Guerra Civil Espanhola, Arregui aderiu ao comunismo. Mais tarde reconheceria que abandonou aos poucos os estudos para se dedicar à política e à literatura.
Entrou em contato com a corrente literária que posteriormente seria denominada Geração de 45. Nessa época conheceu e manteve forte amizade com Juan Carlos Onetti, Francisco Espínola, Carlos Maggi, Ángel Rama, María Inés Silva, Amanda Berenguer, Carlos Denis Molina e Líber Falco.
Em 1947 casou-se com a poetisa Gladys Castelvecchi. Com ela teve seus quatro filhos: Martín, Alejando, Vanina e Román.
Em 1956 publicou seu primeiro livro, Noche de San Juan y otros cuentos, sob o editorial da revista Número. Nessa época colaborou frequentemente com o semanário Marcha, dirigido por Carlos Quijano, a quem Arregui professava um enorme respeito.
Em 1964 compilou seus contos no livro La sed y el agua.
Entre 1959 e 1971 militou ativamente na política, produto de sua simpatia pela Revolução Cubana. Esteve no Brasil, Chile e Peru. Viajou também a Cuba, convidado para atuar como jurado da categoria «contos» na Casa de las Américas, que nesse mesmo ano publicou uma antologia sua. Em 1971 viajou à Europa, onde permaneceu por alguns meses. De volta ao Uruguai, acabou sendo preso pela ditadura civil-militar uruguaia. Mais tarde, em 1977, foi submetido a severas torturas. durante oito meses de confinamento.
Em 1979 publicou La escoba de la bruja.
A partir de 1981, desenvolveu uma profunda amizade epistolar com o escritor riograndense Sergio Faraco, que traduziu diversos de seus contos ao português, publicados nas coletâneas Cavalos do amanhecer e A cidade silenciosa. A correspondência entre ambos foi doado em 2022 por Faraco à Biblioteca Nacional do Uruguai. "Un diálogo fronterizo", Pablo Rocca, El País Cultural, 29 de janeiro de 2010. Sergio Faraco e Mario Arregui: a fronteira, o gaúcho e o gaucho", Eoná Moro Ribeiro, Website do Centro de Estudos de Literatura e Psocanálise Cyro Martins.
Arregui faleceu em Montevidéu, em 8 de fevereiro de 1985. Havia preparado um volume de contos e artigos intitulados Ramos generales, que foi publicado postumamente.
Crítica Os contos mais destacados de Arregui possuem um cunho rural, ainda que com frequência o protagonismo cênico seja encarnado pelo povo e a cidade. Nas palavras de José Ramón Mediza, «se Arregui escolheu o campo como âmbito de seus contos, o fez porque sua experiência lhe permitia ver seus segredos e seus mistérios e transmitir plenamente o sentir e o fazer de sua gente».
O escritor e crítico literário Ángel Rama sintetizou a obra de Arregui como «arte transparente, limpa e grave», agregando que, nela, «a literatura tem algo de cauteloso mistério».
Oscar Brando, por sua vez, advertiu em Arregui «uma aproximação às zonas primitivas, algo assim como um regresso aos estados interiores mais despidos do ser humano».
A professora Margarita Romero agregou, neste sentido, que «Arregui permite que nos assomemos à maneira particular que teve de combinar as palavras para criar seus universos participativos»."El mejor libro de Mario Arregui", Elvio Gandolfo, prólogo a Tres libros de Cuentos, Irrupciones, 2010.
No prólogo da edição brasileira de Cavalos do amanhecer, de 1982, Sérgio Faraco menciona que «Mario Arregui, como Jorge Amado, Vargas Llosa, García Márquez e outros escritores americanos que iluminam a cena regional, lega à literatura universal o substrato do gaúcho como tipo humano. Mas não se trata de um criollista, na acepção maledicente que tem-se dado ao termo. Arregui é um resultado da melhor mistura da ordem regional com o hausto cultural da modernidade, aberto esse caminho literário pela sua sensibilidade ao político e pelo seu talento de grande escritor»."Quando o silêncio e a dor destroem uma família...", dissertação de mestrado de Sandra Ines Borges, Curso de Letras da Universidade de Santa Cruz, 2015. Em uma entrevista concedida no mesmo ano à revista Matinal, Faraco o descreve como «uma figura extraordinária, paradoxal, um selvagem letrado, capaz de recitar William Blake enquanto apagava o palheiro em teu carpete»."Sergio Faraco: Um escritor sempre pensa que vai salvar alguém de alguma coisa", Website da revista Matinal, 17 de julho de 2020.
O próprio Mario Arregui, mais parco em sua autoavaliação, definiu sua obra, simplesmente, como «literatura a secas».
Obras
Noche de San Juan (Número, Montevideo, 1956). Hombres y caballos (Alfa, Montevideo, 1960). La sed y el agua (Alfa, Montevideo, 1964). La puerta abierta (1966). Tres libros de cuentos (Arca, Montevideo, 1969), reeditado por Irrupciones (Montevideo, 2010) com prólogo de Elvio Gandolfo. Cuentos (Col. La Honda, Casa de las Américas, Havana, Cuba, 1971), seleção de contos. El narrador (Biblioteca de Marcha, Montevideo, 1972), antologia com alguns contos inéditos. Veinte cuentos (Editorial Arte y Literatura, Havana, Cuba, 1978). Seleção e prólogo de Virgilio López Lemus. La escoba de la bruja, (Ácali Editorial, Montevideo, 1979). Líber Falco (Arca, Montevideo, 1980), emotivo esboço biográfico do poeta. Ramos Generales (Arca, Montevideo, 1985). Correspondencia, 1981-1985 (1990). Los mejores cuentos, (Ediciones de la Banda Oriental, 1996). Un cuento con un pozo y otros escritos (Biblioteca Artigas, Coleção de Clássicos Uruguaios, Vol. 182, Montevideo, 2009), antologia. Diálogos sem fronteira. Mario Arregui y Sergio Faraco: Correspondencia. (L&PM, 2009) (em português).
Bibliografia
Paganini, Alberto; Paternain, Alejandro; Saad, Gabriel (1969). 100 autores del Uruguay.Montevideo: Centro Editor de América Latina. pp. 13-14. Mediza, José Ramón.Escritor Mario Arregui (1129). Flores: Ecos Regionales. Periodismo de Integración. Original arquivado em 4 de outubro de 2008. Rocca, Pablo.La obra de Mario Arregui: La pasión de contar, Montevideo: El País cultural.
Referências
Ligações externas
[http://www.anaforas.fic.edu.uy/ Mario Arregui, Website dedicado a Mario Arregui em Anáforas (biblioteca digital de autores uruguaios). CUESTIÓN DE RESPETO - Mario Arregui, uno de los mejores
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