A Batalha de Maranduba foi um confronto entre o grupo de Lampião e forças policiais ocorrido em 9 de janeiro de 1932, na Fazenda Maranduba, no município de Poço Redondo, no estado de Sergipe. O combate é considerado um dos confrontos mais importantes entre cangaceiros e forças volantes durante a fase final do cangaço.

O confronto envolveu o grupo de Lampião e forças policiais provenientes principalmente de Pernambuco e Sergipe, incluindo integrantes da chamada volante de Nazaré, comandada pelo a época tenente Manoel Neto. As fontes sobre o episódio divergem quanto ao número exato de combatentes e às baixas de cada lado.

Contexto

No início da década de 1930, Lampião continuava sendo perseguido por forças policiais de diferentes estados do Nordeste. A perseguição ao seu grupo era particularmente intensa nos sertões de Sergipe, Bahia e Pernambuco, onde diversas volantes realizavam operações para localizar os cangaceiros.

Entre as forças que participaram das operações contra Lampião estavam os chamados Nazarenos, policiais e combatentes originários da região de Nazaré do Pico, em Pernambuco. O grupo possuía experiência em confrontos contra o bando de Lampião e era comandado pelo tenente Manoel Neto, um dos mais conhecidos perseguidores do cangaceiro.

A região de Maranduba apresentava características favoráveis à movimentação dos cangaceiros, com vegetação de caatinga e terreno conhecido por Lampião e seus homens. O conhecimento do território desempenhou papel importante durante o confronto.

O confronto

No início de janeiro de 1932, o grupo de Lampião encontrava-se na região da Fazenda Maranduba. Segundo o depoimento posteriormente atribuído ao ex-cangaceiro Ângelo Roque, conhecido como Labareda, os cangaceiros perceberam a aproximação das forças policiais e organizaram posições defensivas antes da chegada dos soldados.

De acordo com esse relato, Lampião e seus homens conheciam detalhadamente o terreno e utilizaram a vegetação e as formações naturais da região para ocultar suas posições. O grupo teria se distribuído entre os umbuzeiros existentes na área, dificultando a identificação das posições dos cangaceiros pelas forças policiais.

As forças policiais avançaram sobre a região e entraram em contato com os cangaceiros. O confronto prolongou-se por várias horas e envolveu intenso tiroteio.

A literatura sobre o episódio destaca a utilização do terreno pelos homens de Lampião como um dos fatores que contribuíram para a resistência do grupo diante de uma força policial numericamente superior.

Forças envolvidas

As fontes não apresentam consenso sobre o número exato de combatentes.

Segundo o depoimento de Labareda, o grupo de Lampião presente em Maranduba era composto por aproximadamente 32 homens. Entre os cangaceiros citados no relato estão Lampião, Ezequiel, Zé Baiano, Luís Pedro e o próprio Labareda.

Do lado das forças policiais, participaram combatentes pernambucanos e integrantes da volante de Nazaré. Entre os comandantes mencionados pelas fontes estão Manoel Neto e o capitão ou tenente Liberato de Carvalho.

A presença de diferentes forças estaduais refletia a cooperação entre os governos nordestinos na perseguição aos grupos de cangaceiros que atravessavam as fronteiras estaduais.

Os Nazarenos

A participação dos Nazarenos tornou o confronto particularmente significativo. O grupo era conhecido por sua experiência no combate ao cangaço e por possuir uma longa história de confrontos com Lampião e seus homens.

Manoel Neto era um dos principais comandantes dessa força. A literatura sobre o episódio destaca sua experiência e a de seus subordinados em operações contra o cangaço.

A presença dos Nazarenos também tinha importância simbólica, pois Lampião mantinha uma antiga rivalidade com integrantes daquela região. Os confrontos entre o bando e os homens de Nazaré constituíram alguns dos episódios mais conhecidos da perseguição ao cangaceiro.

Resultado

As fontes tradicionalmente favoráveis à narrativa de uma vitória de Lampião afirmam que as forças policiais foram obrigadas a abandonar o campo de batalha depois de sofrerem baixas significativas.

O pesquisador Rodrigues de Carvalho considerou Maranduba uma das mais intensas batalhas ocorridas durante a campanha contra o cangaço no eixo Sergipe–Bahia, destacando a vantagem tática obtida pelos homens de Lampião em razão de sua posição e conhecimento do terreno.

Entretanto, a interpretação do resultado não é completamente uniforme. Registros e memórias posteriores apresentam versões diferentes sobre as perdas de cada lado e sobre o significado militar do confronto.

Baixas

As informações sobre as baixas são divergentes.

Uma tradição baseada no depoimento de Labareda afirma que três cangaceiros morreram e outros ficaram feridos, enquanto as forças policiais teriam sofrido um número maior de baixas.

Outras pesquisas sobre o episódio contestam parte desses números. Segundo levantamento apresentado por pesquisadores ligados à memória dos Nazarenos, quatro integrantes da força de Nazaré morreram no combate: Hercílio de Souza Nogueira, Adalgiso de Souza Nogueira, João Cavalcanti de Albuquerque e Antônio Benedito da Silva.

A divergência entre os relatos demonstra a dificuldade de estabelecer números definitivos para as perdas da batalha. Parte das informações foi transmitida por memórias de participantes e testemunhas, décadas depois do acontecimento.

Tática e terreno

A utilização do terreno é frequentemente apontada como um dos elementos centrais da batalha.

Segundo relatos sobre o confronto, os cangaceiros conheciam previamente a área e puderam utilizar a vegetação da caatinga para dificultar sua identificação pelas forças policiais. Os chamados umbuzeiros de Maranduba tornaram-se posteriormente um dos símbolos da batalha.

Estudos sobre a memória do episódio destacam justamente a representação de Lampião como um combatente que conhecia profundamente o ambiente sertanejo e utilizava as características naturais da região para compensar sua inferioridade numérica.

Memória

A Batalha de Maranduba tornou-se parte importante da memória do cangaço em Sergipe. O local do confronto continuou sendo visitado por pesquisadores e interessados na história de Lampião e das forças policiais que o perseguiam.

Os umbuzeiros associados ao combate passaram a ser considerados elementos simbólicos do local. Também existe na região uma cruz relacionada aos integrantes da força de Nazaré mortos durante o confronto.

A memória da batalha também foi preservada por depoimentos de antigos participantes do cangaço, entre eles Labareda, posteriormente entrevistado pelo médico e pesquisador Estácio de Lima.

Importância histórica

Maranduba é frequentemente apresentada como uma das maiores demonstrações da capacidade de resistência militar do grupo de Lampião durante os últimos anos de sua atuação. O episódio ocorreu aproximadamente dois anos antes da morte de Lampião, em Angicos, em 1938.

O combate também demonstra a complexidade da chamada Guerra contra o cangaço, na qual diferentes forças policiais estaduais perseguiam grupos que possuíam grande mobilidade pelo sertão nordestino.

Do ponto de vista historiográfico, o episódio também é relevante por permitir o estudo das relações entre memória e história. Relatos posteriores de cangaceiros, policiais e pesquisadores apresentam diferenças importantes sobre o número de participantes, as baixas e o desenvolvimento do confronto.

Ver também

Cangaço Lampião Maria Bonita Manoel Neto Ângelo Roque Guerra contra o cangaço Volante (polícia) Massacre de Angicos

Bibliografia

COSTA, Alcino Alves. Lampião além da versão: mentiras e mistérios de Angicos.

LIMA, Estácio de. O mundo estranho dos cangaceiros. Salvador: Itapoã.

CARVALHO, Rodrigues de. Sertão Sangrento: luta e resistência.

DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião: entre a espada e a lei.

Categoria:Cangaço Categoria:História de Sergipe Categoria:Conflitos em 1932