Catada ibne Diama (), de nome completo Abu Alcatabe Catada ibne Diama ibne Catada Açaduci Albáceri (; 679–680 ou 680–681 – Uacite, 735/6), foi um tabi, exegeta do Alcorão, transmissor de hádice e estudioso árabe associado a Baçorá. De origem beduína, pertencia aos saducitas, grupo ligado aos xaibanitas, e era cego desde o nascimento. Estudou durante doze anos com Haçane de Baçorá e recebeu conhecimentos de numerosos estudiosos, entre eles Anas ibne Maleque, Ibne Sirine e Saíde ibne Almuçaíbe. Tornou-se conhecido por sua memória e por seus conhecimentos de exegese e leituras corânicas, hádice, língua árabe, poesia da Jailia, genealogia e história dos árabes.
Catada destacou-se sobretudo como exegeta e tradicionalista. Sua exegese recorria ao próprio texto corânico, aos hádices, às opiniões dos companheiros de Maomé e dos tabis, à língua e à poesia árabes, às genealogias, aos Dias Árabes e aos costumes dos árabes. Suas opiniões foram extensamente preservadas pela tradição exegética posterior, particularmente no Jāmiʿ al-bayān de Atabari. Como transmissor de hádice, foi considerado confiável por autoridades da disciplina, e tradições transmitidas por ele foram incorporadas aos Seis Livros. Alguns aspectos de seus métodos de transmissão foram, contudo, objeto de discussão, sobretudo por ter transmitido relatos de pessoas das quais não os teria ouvido diretamente. Também foi contado entre os juristas tabis de Baçorá e teve posições próprias em questões de leitura e ab-rogação corânicas e jurisprudência.
Entre seus numerosos transmissores figuraram Xuba ibne Alhajaje, Mamar ibne Raxide, , , Alauzai e Abu Hanifa. Embora tenha vivido num período de conflitos políticos e controvérsias religiosas, a tradição apresenta-o como afastado das disputas políticas de seu tempo. Morreu durante uma epidemia de peste, tradicionalmente em Uacite, em 117 A.H. (735), embora também sejam transmitidas outras informações sobre o local e a data de sua morte. Foram-lhe atribuídas diversas obras sobre o Alcorão e os ritos islâmicos, entre elas o Kitāb al-Tafsīr, al-Nāsikh wa-l-mansūkh fī kitāb Allāh, ʿAwāshir al-Qurʾān e Kitāb al-Manāsik.
Vida e formação
Catada ibne Diama nasceu em 60 A.H. (679–680) ou 61 A.H. (680–681), cego desde o nascimento, numa família beduína. Pertencia aos saducitas, grupo ligado aos xaibanitas, e sua família teria migrado inicialmente do deserto para junto destes e, posteriormente, acompanhado os saducitas até Baçorá. Sua cúnia era Abu Alcatabe, e seu nome completo é registrado como Abu Alcatabe Catada ibne Diama ibne Catada Açaduci Albáceri. Charles Pellat igualmente o identifica como Catada Açaduci e afirma que era de origem beduína, acrescentando que passou a vida em Baçorá, onde teria permanecido ausente apenas durante cerca de um ano. Demonstrando grande interesse pelo aprendizado, Catada permaneceu durante doze anos junto de Haçane de Baçorá, de quem recebeu ensinamentos sobre leituras corânicas, tafsir, hádice e outras disciplinas. Também recebeu tradições relativas às leituras corânicas de Anas ibne Maleque, Abu Alalia Arriai, Haçane de Baçorá e Ibne Sirine. Entre aqueles dos quais ouviu hádices e recebeu conhecimentos figuraram ainda Saíde ibne Almuçaíbe, , Atá ibne Abi Rabá e , além de numerosos outros estudiosos. Pellat destaca igualmente Haçane de Baçorá como seu mestre e menciona sua transmissão de tradições de Anas ibne Maleque, Ibne Sirine e outros.
Catada adquiriu reputação particularmente elevada por sua memória. Segundo relatos preservados pela tradição biográfica, afirmava memorizar tudo aquilo que ouvia, e Saíde ibne Almuçaíbe, depois de tê-lo mantido consigo durante oito dias, teria considerado que Catada já havia absorvido todo o conhecimento que podia transmitir-lhe. Pellat também salienta sua memória prodigiosa e registra que Catada possuía conhecimentos de genealogia, lexicografia, tradição histórica, exegese corânica, leituras do Alcorão e hádice. A TDV apresenta-o sobretudo como especialista em tafsir, mas também como um dos principais estudiosos de seu tempo da língua árabe, da poesia da Jailia, da história dos árabes e da genealogia. Entre os numerosos estudiosos que transmitiram conhecimentos de Catada figuraram Xuba ibne Alhajaje, Mamar ibne Raxide, , , , Aiube Açaquetiani, Alauzai e Abu Hanifa. Apesar de ter vivido num período marcado por grandes conflitos políticos, a tradição afirma que Catada não tomou partido nas disputas de seu tempo e permaneceu dedicado aos estudos até o fim da vida. Morreu durante uma epidemia de peste em Uacite em 117 A.H. (735), embora também seja transmitido o ano de 118 A.H. (736). Pellat igualmente situa sua morte em Uacite, em 117/735, durante uma epidemia, mas observa que tanto o local quanto a data de sua morte são contraditos por outras informações preservadas pelas fontes.
Atuação intelectual
Hádice
Catada ocupou posição destacada também como transmissor de hádice. As autoridades da disciplina o qualificaram como um transmissor confiável (thiqa) e como hafiz, designação aplicada aos estudiosos reconhecidos pelo amplo domínio das tradições. Ali ibne Almadini incluiu-o entre seis estudiosos nos quais convergiam as principais cadeias de transmissão das grandes cidades. Seus hádices foram incorporados aos Seis Livros, embora uma parcela particularmente numerosa das tradições transmitidas por ele tenha sido preservada no Musannaf de Abede Arrazaque Açanani. A reputação de Catada como tradicionalista é igualmente assinalada por Charles Pellat, que inclui o hádice entre os campos nos quais adquiriu conhecimentos durante sua permanência em Baçorá. Apesar de sua reputação, alguns aspectos de sua transmissão foram objeto de críticas. Entre os companheiros de Maomé, Catada teria recebido hádices diretamente apenas de Anas ibne Maleque, mas transmitiu relatos cuja formulação podia sugerir que os tivesse recebido também de outros companheiros. Abu Daúde Assijistani enumerou cerca de trinta pessoas das quais Catada teria transmitido hádices sem tê-los ouvido pessoalmente. Catada, contudo, empregava diferentes fórmulas de transmissão, como ḥaddathanā e qāla, que permitiam distinguir as tradições cuja cadeia estava completa daquelas em que havia uma interrupção. Xuba ibne Alhajaje, um de seus transmissores, afirmava por isso ser capaz de distinguir os relatos mursais dos demais hádices transmitidos por Catada. A TDV observa ainda que formas de transmissão posteriormente associadas ao tadlis não eram vistas com a mesma severidade naquele período e que, apesar dessas críticas, a incorporação das tradições de Catada às obras dos principais estudiosos de hádice indica a confiança de que desfrutava como transmissor.
Exegese corânica
A principal área de especialização de Catada foi a exegese do Alcorão. A tradição posterior colocou-o no início da quarta geração de exegetas, e numerosos estudiosos elogiaram seus conhecimentos nessa disciplina. Embora Amade ibne Hambal preserve uma declaração de Ismail ibn Ulayya segundo a qual seus companheiros desaprovavam o tafsir de Catada, seus pareceres exegéticos foram amplamente transmitidos pelas principais coleções de hádice e exegese. Uma parcela particularmente extensa encontra-se no Jāmiʿ al-bayān de Atabari; segundo uma contagem apresentada por Abdullah Abū al-Suʿūd Badr, a obra contém cerca de cinco mil opiniões atribuídas a Catada. Na interpretação do Alcorão, Catada recorria, como outros exegetas entre os tabis, primeiramente ao próprio texto corânico e, em seguida, aos hádices, às opiniões dos companheiros e dos tabis, à língua e à poesia árabes, às genealogias, aos Dias Árabes e aos costumes dos árabes, utilizando comparativamente pouco sua própria opinião. Ao explicar uma passagem por meio de outra, procurava não apenas esclarecer seu sentido, mas também estabelecer paralelos de vocabulário, estilo e retórica e examinar as relações entre diferentes versículos. Sua familiaridade com a língua e a literatura árabes permitia-lhe recorrer a palavras, expressões e usos provenientes de diferentes regiões e tribos para explicar vocábulos de significado obscuro. Em vez de desenvolver longas explicações gramaticais, frequentemente procurava esclarecer o contexto histórico ou cultural dos usos linguísticos empregados no texto.
Catada utilizou também, embora em proporção limitada, tradições de origem israelita e relatos transmitidos por outros tabis. Recorreu a tradições relativas às circunstâncias da revelação e, em alguns casos, transmitiu relatos considerados fracos. Na interpretação de passagens de caráter moral, seguiu em determinados pontos a orientação de Haçane de Baçorá, formulando exortações, enquanto demonstrou pouco interesse por interpretações de caráter racional. Possuía ainda escolhas próprias em matéria de leitura corânica. Entre elas, lia com kasra a palavra arjulikum no versículo relativo à ablução da sura Al-Ma'ida (5:6), em contraste com a leitura no acusativo adotada pela maioria dos leitores. A concepção de Catada acerca da ab-rogação corânica abrangia diferentes sentidos, entre eles a supressão, o esquecimento, a substituição por algo considerado melhor, a transferência e a substituição de uma determinação por outra. Um exemplo atribuído a ele é a interpretação segundo a qual a parte dos versículos da sura Al-Isra (17:23–24) referente à oração e ao pedido de perdão pelos pais teria sido ab-rogada pelo versículo de At-Tawba (9:113), que proíbe pedir perdão pelos politeístas, ainda que fossem parentes próximos.
Jurisprudência e posições doutrinárias
incluiu Catada entre os juristas tabis de Baçorá. Ao utilizar o Alcorão como fonte jurídica, Catada teria demonstrado em algumas interpretações uma forte preferência pelo sentido aparente do texto. Com base no versículo que ordena responder a uma saudação (4:86), por exemplo, sustentava que uma pessoa em oração deveria responder em voz alta a uma saudação que lhe fosse dirigida, sem que isso invalidasse sua prece. As fontes preservam também controvérsias acerca de suas posições sobre a predestinação. Foi-lhe atribuída a concepção de que o mal deveria ser imputado aos seres humanos e, nesse sentido, colocado fora do âmbito da predestinação, posição posteriormente considerada incompatível com a doutrina sunita. Iacute Alhamaui afirma que Catada abandonou essa opinião, enquanto Adaabi sustenta que permaneceu adepto dela até a morte. A TDV observa, por outro lado, que Catada geralmente evitava apresentar suas próprias opiniões em suas exposições e respostas, não participava das controvérsias de seu tempo e se mantinha afastado dos mutazilitas.
Obras
Diversas obras foram atribuídas a Catada. Seu Kitāb al-Tafsīr é mencionado por Ibne Anadim, que conhecia duas linhas de transmissão do texto: uma através de e outra por meio de e Mamar ibne Raxide. Fuat Sezgin observou que a obra foi utilizada por , mas não se sabe se chegou à atualidade. Outra obra atribuída a Catada é al-Nāsikh wa-l-mansūkh fī kitāb Allāh, dedicada aos versículos considerados ab-rogantes e ab-rogados do Alcorão. O texto foi editado por Ḥātim Ṣāliḥ al-Ḍāmin e publicado juntamente com outras obras sobre o mesmo tema em Baguedade, em 1985. São-lhe atribuídos ainda ʿAwāshir al-Qurʾān, mencionado por Ibne Sade, e o Kitāb al-Manāsik, do qual a TDV registra um manuscrito conservado na .
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VII Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Saducitas