Dudo de Saint-Quentin (também grafado Dudon de Saint-Quentin; nascido por volta de 960 no Vermandois e falecido depois de 1015, antes de 1043) foi um clérigo, cronista e poeta franco, cónego e depois deão da colegiada de Saint-Quentin, autor da Historia Normannorum (também conhecida como De moribus et actis primorum Normanniae ducum), considerada a mais antiga história completa da Normandia e dos seus primeiros duques.
Biografia Pouco se sabe com segurança sobre a vida de Dudo, devido à escassez de fontes. Terá nascido em Vermandois por volta de 960, integrando mais tarde o cabido da colegiada de Saint-Quentin como cónego. Segundo alguns autores, terá estudado na escola catedralícia de Reims.
Por volta de 987, o conde Alberto I enviou Dudo em missão diplomática à corte de Ricardo I, duque da Normandia, com o objetivo de obter o apoio normando contra Hugo Capeto, fundador da dinastia capetíngia. A missão foi bem-sucedida e Dudo passou a frequentar regularmente a corte ducal normanda nos anos seguintes.
Tendo conquistado a confiança do duque, Dudo foi incumbido por Ricardo I de escrever uma história dos normandos, narrando os "costumes e feitos da terra normanda" desde o tempo do seu avô Rolão da Normandia. Em recompensa pelos seus serviços, recebeu domínios no Pays de Caux. Após a morte de Ricardo I, em 996, a obra foi retomada por incentivo dos filhos deste, Ricardo II e Roberto, arcebispo de Ruão, a quem Dudo dedicou também poemas laudatórios, tal como a Gunnor, viúva de Ricardo I, e a Raul de Ivry, meio-irmão do duque. Sob Ricardo II, Dudo tornou-se capelão da corte ducal, além de redigir diplomas para os condes normandos.
Regressou por fim a Saint-Quentin, onde exerceu o cargo de deão da colegiada. Quanto à data da sua morte, as fontes divergem: para alguns autores terá falecido por volta de 1026, enquanto outros consideram que sobreviveu além dessa data, situando o seu falecimento algures antes de 1043, ano em que as fontes documentam já outro deão à frente da colegiada.
Obra Historia Normannorum A obra pela qual Dudo é conhecido circula sob dois títulos: De moribus et actis primorum Normanniae ducum ("Dos costumes e feitos dos primeiros duques da Normandia"), título tradicionalmente empregue pelos editores modernos, e Historia Normannorum ("História dos Normandos"), designação que surge em vários manuscritos.
Encomendada por Ricardo I no final do século X e prosseguida, após a morte deste, a pedido dos seus filhos, a redação da obra é tradicionalmente situada entre 1015 e 1026, ainda que estudos mais recentes sobre a tradição manuscrita sugiram a existência de uma primeira versão anterior, talvez já da década de 990. A obra é dedicada a Adalberão de Laon, bispo de Laon e superior eclesiástico de Dudo.
O texto narra a história dos normandos entre 852 e a morte do duque Ricardo I, em 996, organizando-se essencialmente em torno de quatro figuras biografadas: Hasting, viquingue pagão apresentado como cruel e bárbaro; Rolão da Normandia, o viquingue convertido ao cristianismo que se torna o primeiro chefe normando de Ruão; Guilherme Longa-Espada, seu filho, apresentado como mártir da dinastia; e Ricardo I, filho deste último, retratado como modelo de príncipe cristão. Comissionada pela corte ducal, a narrativa constitui essencialmente uma apologia dos normandos e da jovem dinastia ducal, exaltando as origens e os feitos dos primeiros duques.
Escrita alternadamente em prosa e em verso de diversos metros latinos — género conhecido como prosimetria —, a obra revela o cuidado de Dudo em demonstrar o seu domínio da retórica latina, evidenciando conhecimento de autores como Virgílio e Tito Lívio, ainda que o seu estilo seja considerado, por vários comentadores, afetado e por vezes obscuro. Segundo a investigação de Benjamin Pohl, o manuscrito mais antigo conhecido da obra, proveniente da abadia de Jumièges (atualmente na Biblioteca Municipal de Ruão), foi preparado para receber ilustrações, o que levou a propor que Dudo concebera originalmente a sua história como um chronicon pictum — uma crónica latina, em prosa e verso, acompanhada de imagens e legendas explicativas, algo excecionalmente raro na historiografia altomedieval e carolíngia.
Fontes utilizadas Dudo não parece ter consultado documentação escrita sistemática para os períodos mais antigos, baseando-se sobretudo em tradição oral recolhida na própria corte normanda, nomeadamente junto de Gunnor, viúva de Ricardo I, e de Raul de Ivry, apresentado no texto como relator dos feitos familiares. Para o enquadramento cronológico dos acontecimentos, recorreu ainda a fontes escritas como os Anais de Flodoardo, os Anais de Saint-Vaast e os Anais de Saint-Bertin.
Influência posterior A Historia Normannorum teve um sucesso editorial considerável na Idade Média, tendo sobrevivido em cerca de quinze manuscritos, a maioria dos séculos XI e XII. A obra serviu de base, numa versão revista e abreviada, à Gesta Normannorum Ducum do monge Guilherme de Jumièges, posteriormente atualizada por Ordérico Vidal e Roberto de Torigni. Foi também amplamente utilizada por cronistas como Wace, Guilherme de Poitiers e Hugo de Fleury.
Receção crítica e historiografia A fiabilidade histórica da obra de Dudo tem sido objeto de debate desde o século XIX. Historiadores alemães como Ernst Dümmler e Georg Waitz consideraram-na pouco fidedigna, ao passo que outros, como Jules Lair e Johannes Steenstrup, lhe reconheceram valor considerável para a história dos normandos, sem deixar de assinalar o seu carácter lendário. O historiador francês Henri Prentout, em obra crítica publicada em 1916, apresentou Dudo como um fabulador ao serviço da propaganda ducal, juízo que durante décadas prevaleceu na historiografia normanda.
Mais recentemente, autores como Pierre Bouet, François Neveux e Pierre Bauduin têm reabilitado parcialmente o valor histórico da obra, salientando que vários factos nela relatados encontram confirmação noutras fontes, sem que isso dispense uma leitura crítica do texto. O estudo codicológico de Benjamin Pohl, publicado em 2015, trouxe ainda novos elementos sobre a génese e a receção manuscrita da obra ao longo da Idade Média.
Edições A obra de Dudo foi editada pela primeira vez em 1619, em Paris, por André Duchesne, na colectânea Historiae Normannorum scriptores antiqui. Foi posteriormente incluída na Patrologia Latina, tomo CXLI, de Jacques Paul Migne (Paris, 1844). A edição de referência é, contudo, a de Jules Lair, publicada em Caen em 1865. Uma tradução inglesa anotada, da autoria de Eric Christiansen, foi publicada em 1998 sob o título History of the Normans.
Ver também Normandia Ducado da Normandia Rolão da Normandia Guilherme Longa-Espada Ricardo I da Normandia Gesta Normannorum Ducum
Referências
Bibliografia NEVEUX, François. La Normandie des ducs aux rois, Xe–XIIe siècle. Rennes: Ouest France, 1998. ISBN 2-7373-0985-9. BAUDUIN, Pierre. La Première Normandie, Xe–XIe siècle. Caen: Presses Universitaires de Caen, 2004. ISBN 2-84133-145-8. PRENTOUT, Henri. Étude critique sur Dudon de Saint-Quentin et son histoire des premiers ducs normands. Paris: Picard, 1916. POHL, Benjamin. Dudo of St Quentin's Historia Normannorum: History, Tradition and Memory. Woodbridge: Boydell and Brewer, 2015. ISBN 9781903153543. CHRISTIANSEN, Eric (trad.). Dudo of St Quentin: History of the Normans. Woodbridge: Boydell Press, 1998. ISBN 0-85115-552-9.
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