Lylian Zulma Doris Coltrinari (Santa Fé, 11 de junho de 1934 – 12 de janeiro de 2022) foi uma geógrafa argentina naturalizada brasileira, pesquisadora e professora universitária. Especializada em geomorfologia, atuou no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde desenvolveu pesquisas sobre cartografia geomorfológica, evolução do relevo, dinâmica do Quaternário, mudanças ambientais e geoindicadores.
Sua produção integrou a formação da geomorfologia brasileira entre o final do século XX e o início do século XXI. Em 2023, a revista William Morris Davis republicou um de seus trabalhos na seção “Clássicos da Geomorfologia”, classificando-o como um texto basilar e destacando sua contribuição para a área. Em 2025, um estudo sobre a trajetória da Revista Brasileira de Geomorfologia incluiu Coltrinari entre os autores do primeiro número do periódico, publicado em 2000, ao lado de outros pesquisadores de destaque da área.
Formação acadêmica
Coltrinari nasceu em Santa Fé, na Argentina, em 11 de junho de 1934. Licenciou-se em História e Geografia pela Universidad Nacional del Litoral, situada na mesma cidade. No final da década de 1960, realizou estudos de especialização na Universidade de Estrasburgo, na França, sob orientação do geógrafo Jean Tricart. Segundo a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, sua passagem pela instituição francesa ocorreu entre 1967 e 1968.
Naturalizou-se brasileira e, em 1974, concluiu o doutorado em Geografia Física na FFLCH-USP, sob orientação de Aziz Ab'Saber. Sua tese, intitulada Contribuição à geomorfologia da região de Guaratinguetá-Aparecida, foi publicada em 1975 pelo Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo.
Em 2003, apresentou seu memorial de livre-docência na área de Geografia na FFLCH-USP. O trabalho, intitulado Evolução geomorfológica do planalto de São José dos Campos (SP), abordou a evolução do relevo e das paisagens tropicais na região da Bacia de Taubaté.
Carreira na Universidade de São Paulo
Coltrinari iniciou sua atividade docente na FFLCH-USP em 1974, vinculando-se ao Departamento de Geografia. Sua atuação esteve associada ao ensino e à pesquisa em Geografia Física, especialmente no campo da geomorfologia.
Após a aposentadoria de Aziz Ab'Saber, assumiu a coordenação do Laboratório de Geomorfologia da FFLCH-USP. Posteriormente, a coordenação do laboratório foi transferida ao professor Adilson Avansi de Abreu.
Mesmo depois de se aposentar, continuou colaborando com o Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da universidade, participando da formação de pesquisadores e do desenvolvimento de estudos em sua área de especialização.
Pesquisa e contribuições
Cartografia geomorfológica e evolução do relevo
As primeiras pesquisas de Coltrinari concentraram-se na análise das formas de relevo do Vale do Paraíba. Sua tese de doutorado tratou da geomorfologia da região de Guaratinguetá e Aparecida, examinando a organização e a evolução do relevo regional.
Em 1982, publicou o artigo “Um exemplo de carta geomorfológica de detalhe: a carta do médio vale do rio Parateí, SP (1:25.000)”, no primeiro volume da Revista do Departamento de Geografia. O trabalho apresentou um mapeamento geomorfológico detalhado do médio vale do rio Parateí, integrante da Bacia de Taubaté.
A evolução do relevo na Bacia de Taubaté também constituiu o tema de sua livre-docência, apresentada em 2003. Nesse trabalho, Coltrinari analisou o planalto de São José dos Campos e as relações entre formas de relevo, materiais de alteração, processos geoquímicos e condições ambientais tropicais.
Quaternário e paisagens tropicais
Coltrinari investigou a relação entre os processos geomorfológicos e a evolução das paisagens durante o Quaternário. Em 1992, publicou “Geomorfologia e dinâmica quaternária no Sudeste do Brasil”, no qual abordou a dinâmica do relevo e os registros quaternários presentes na região Sudeste.
Nos estudos sobre o planalto de São José dos Campos, examinou a evolução de paisagens tropicais úmidas, relacionando os mantos de intemperismo e a formação de solos aos processos químicos e geoquímicos responsáveis pela transformação do modelado. Também discutiu a presença de feições pseudocársticas e a participação da circulação subterrânea da água na evolução do relevo.
Mudanças ambientais e geoindicadores
A partir da década de 1990, Coltrinari passou a abordar de forma mais sistemática as relações entre a Geografia, as ciências da Terra e as mudanças ambientais. Em 1990, publicou “A geografia e as mudanças ambientais”, na revista Terra Livre, discutindo as transformações ambientais como objeto de investigação geográfica.
Em 1995, publicou com Joseph McCall o artigo “Geo-indicadores: ciências da Terra e mudanças ambientais”. O trabalho tratou do uso de geoindicadores na identificação e no acompanhamento de alterações ocorridas no meio físico.
Coltrinari voltou ao tema em “Geomorfologia e mudanças globais: algumas considerações”, publicado em 1997, no qual discutiu a contribuição da geomorfologia para o estudo das mudanças ambientais em diferentes escalas.
Atuação acadêmica e formação de pesquisadores
Na pós-graduação, Coltrinari orientou pesquisas relacionadas à geomorfologia aplicada, à cartografia geomorfológica, ao planejamento ambiental, aos processos morfodinâmicos e à utilização de geoindicadores. Entre os trabalhos desenvolvidos sob sua orientação encontram-se a tese de Kátia Canil sobre indicadores para o monitoramento de processos morfodinâmicos na bacia do ribeirão Pirajuçara, a pesquisa de Benjamim Capellari sobre geoindicadores na bacia do sistema hidrográfico Arantes–São Domingos, em Minas Gerais, e o estudo de Esmeralda Buzato sobre impactos ambientais e geoindicadores no município de Ubatuba.
Também participou da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE), na qual exerceu a função de tesoureira na gestão de 2000–2001, presidida por Ariovaldo Umbelino de Oliveira.
Além da produção científica especializada, discutiu aspectos metodológicos da pesquisa geográfica. No artigo “O trabalho de campo na geografia do século XXI”, publicado em 1998, analisou o papel do trabalho de campo diante das mudanças técnicas e científicas ocorridas na Geografia.
Publicações selecionadas
Legado
Coltrinari participou do primeiro número da Revista Brasileira de Geomorfologia, publicado em 2000, com o artigo “Geomorfologia: caminhos e perspectivas”. No texto, examinou o estado da disciplina, os instrumentos e as técnicas disponíveis aos pesquisadores e as perspectivas da geomorfologia tropical. Uma análise histórica publicada em 2025 situou-a entre os pesquisadores que participaram da criação do periódico e da ampliação dos temas abordados pela geomorfologia brasileira.
Em 2023, o artigo sobre a evolução do relevo do planalto de São José dos Campos foi republicado pela revista William Morris Davis como parte da seção “Clássicos da Geomorfologia”. O editorial da edição descreveu o trabalho como um texto basilar e associou a produção da pesquisadora ao desenvolvimento da geomorfologia no Brasil.
Após sua morte, a FFLCH-USP, a Associação dos Docentes da USP, a Associação dos Geógrafos Brasileiros e a ANPEGE publicaram manifestações de pesar. Depoimentos de antigos alunos destacaram seu rigor acadêmico e sua atuação na formação de geógrafos e professores de Geografia.
Ligações externas
Fundo Lylian Zulma Doris Coltrinari no Centro de Apoio à Pesquisa em História da FFLCH-USP Perfil de Lylian Zulma Doris Coltrinari na Biblioteca Virtual da FAPESP Perfil de Lylian Zulma Doris Coltrinari no Google Acadêmico Memorial de livre-docência no acervo de memoriais da FFLCH-USP
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