Abedalá ibne Rauá (; m. ) foi um companheiro de Maomé, poeta, escriba e comandante militar pertencente aos cazerajitas, membro do prestigioso clã dos alharitas. Figura entre os mucadrame, poetas que viveram tanto no período pré-islâmico quanto no islâmico, sendo considerado um dos principais poetas da comunidade muçulmana primitiva ao lado de Haçane ibne Tábite e Cabe ibne Maleque. Escolhido como um dos doze naquibes no Segundo Pacto de Ácaba, participou das principais campanhas militares dos primeiros anos do islão e morreu na Batalha de Muta, após suceder Zaíde ibne Harita e Jafar ibne Abi Talibe no comando do exército muçulmano.
Vida
Filho de Rauá ibne Salaba, Abedalá pertencia ao ramo dos alharitas da tribo dos cazerajitas, um dos clãs mais prestigiados de Iatrebe (atual Medina). Já gozava de elevada posição entre seus conterrâneos antes da conversão ao islão, prestígio que se manteve e se ampliou após aceitar a nova religião. No Segundo Pacto de Ácaba, realizado em março de 622, foi escolhido como um dos doze naquibes representantes dos muçulmanos de Iatrebe, incumbidos de auxiliar Maomé na organização da comunidade. Por saber ler e escrever, habilidade relativamente rara na Arábia da época, foi também escolhido como um dos escribas do profeta. Após a Hégira, tornou-se um dos mais próximos colaboradores de Maomé, que lhe confiou numerosas missões militares, administrativas e diplomáticas. Participou das batalhas de Badre, Uude, Trincheira e Caibar, bem como do Tratado de Hudaibia e da Unra da Compensação. Depois da vitória em Badre, foi enviado juntamente com Zaíde ibne Harita para anunciar o triunfo em Medina. Durante a chamada Segunda Expedição de Badre permaneceu na cidade como representante de Maomé e, no início do cerco de Medina, integrou a delegação encarregada de averiguar a fidelidade dos curaizaítas.
Antes da conquista de Caibar, Maomé colocou-o à frente de uma pequena expedição encarregada de reunir informações sobre os habitantes do oásis, missão que levou alguns autores a sugerirem que dominava o hebraico. Posteriormente, foi enviado novamente a Caibar como chefe de uma delegação de trinta homens e, após a conquista, recebeu a responsabilidade de avaliar a produção agrícola para a repartição entre os judeus que permaneceram cultivando as terras e a comunidade muçulmana. Também integrou a delegação enviada aos curaizaítas durante a Batalha da Trincheira. No ano de 629, Maomé nomeou Zaíde ibne Harita comandante da expedição enviada a Muta, determinando que, em caso de sua morte, o comando passasse sucessivamente a Jafar ibne Abi Talibe e, por fim, a Abedalá ibne Rauá. Durante a batalha, após a morte dos dois primeiros comandantes, Abedalá assumiu o estandarte do exército muçulmano. Segundo a tradição, quando alguns combatentes cogitaram recuar diante da superioridade numérica bizantina, pronunciou um discurso conclamando-os a perseverar, afirmando que a força dos muçulmanos não provinha do número nem das armas, mas da fé e da esperança do martírio. Pouco depois, lançou-se ao combate e morreu lutando.
Poesia
Abedalá ibne Rauá pertenceu ao grupo dos mucadrame, poetas que viveram tanto no período pré-islâmico quanto no islâmico. Após sua conversão, passou a dedicar quase integralmente sua produção poética à defesa de Maomé e do islão e à crítica dos adversários da nova religião. Segundo a tradição, Maomé afirmou que seus versos eram "mais eficazes contra os politeístas do que flechas" e elogiou sua sinceridade ao declarar que "vosso irmão não profere palavras falsas nem vãs". Quando foram revelados os versículos 224–226 da sura ash-Shu'ara, que censuram determinados poetas, Abedalá receou estar incluído entre eles e manifestou sua aflição. Segundo a tradição islâmica, sua preocupação foi dissipada com a revelação do versículo seguinte, que exclui da condenação aqueles que creem, praticam boas obras e defendem a verdade. Além de poeta, era reconhecido como orador de grande eloquência, qualidade demonstrada pelo discurso que, segundo as fontes, pronunciou diante do exército muçulmano antes da Batalha de Muta.
Maomé teria considerado Abedalá um poeta do mesmo nível de Haçane ibne Tábite e Cabe ibne Maleque. Entretanto, enquanto estes frequentemente satirizavam os coraixitas por defeitos pessoais ou tribais, Abedalá dirigia suas críticas principalmente contra sua incredulidade e persistência na rejeição do islão. Seus poemas, em grande parte improvisados na forma de rajaz, caracterizam-se pela linguagem simples, direta e facilmente compreensível, sem recorrer a elaborados recursos retóricos. Embora as fontes antigas não mencionem a existência de um divã organizado, seus poemas permaneceram dispersos em obras de biografia, história e campanhas militares. Cerca de cinquenta versos foram preservados por Ibne Hixame, enquanto Walid Ibrahim Kassab reuniu posteriormente trinta e sete composições, totalizando 217 versos, na obra Dîvânü ʿAbdillâh b. Revâḥa ve dirâse fî sîretihî ve şiʿrih. Seis desses poemas pertencem ao período pré-islâmico e respondem às sátiras de , ao passo que os demais foram compostos após sua conversão.
Legado
Algumas tradições medievais afirmam que os descendentes de Abedalá ibne Rauá viveram durante séculos no Alandalus. Entretanto, as fontes biográficas mais antigas registram que, apesar de lhe atribuírem as cunhas Abu Maomé, Abu Rauá e Abu Anre, ele morreu em Muta sem deixar filhos. Os autores da TDV İslâm Ansiklopedisi observam que as referências posteriores aos seus ahfad devem ser entendidas como alusões aos descendentes de sua irmã Anra binte Rauá, casada com , e não aos seus próprios descendentes. Entre esses parentes figurava Anumane ibne Baxir, cuja morte durante o califado de levou parte da família a refugiar-se no Alandalus, onde ficou conhecida como Banu Abedessalame.
Bibliografia
Categoria:Ançares Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Cazerajitas Categoria:Poetas árabes Categoria:Mucadrame Categoria:Naquibes Categoria:Unra da Compensação Categoria:Tratado de Hudaibia