Antipolítica é um termo usado para descrever a oposição à política tradicional ou a desconfiança em relação a ela. O conceito está intimamente ligado ao sentimento antissistema e ao afastamento do público da política formal. A antipolítica pode indicar práticas e atores que buscam remover a contestação política da arena pública, levando à apatia política entre os cidadãos; quando utilizado dessa forma, o termo é semelhante à despolitização. Alternativamente, se a política for entendida como algo que abrange todas as instituições sociais e relações de poder, a antipolítica pode significar uma atividade política decorrente da rejeição da "política de sempre".
A antipolítica tende a centrar-se em avaliações negativas dos políticos e das elites políticas por parte das organizações cívicas, dos meios de comunicação social e dos cidadãos, enquanto a apatia política pode envolver o descontentamento com outros elementos de um sistema político, como o sistema eleitoral ou o sistema partidário. Desde os anos 2000, a crescente insatisfação com a democracia tem sido um tema de estudos acadêmicos tanto nas Américas quanto na Europa, com alguns cientistas políticos descrevendo os elevados níveis de antipatia política como uma "crise" que ameaça a desconsolidação democrática. A antipolítica tornou-se um conceito-chave nas análises da disfunção política nas democracias liberais, referindo-se tipicamente à insatisfação com a política e à desconfiança em relação aos políticos.
As possíveis causas do sentimento antipolítico incluem os processos associados à despolitização, especialmente o aumento de formas tecnocráticas de governança, bem como a percepção dos cidadãos quanto à incompetência na gestão pública e ao desempenho insatisfatório dos políticos. A desconfiança política pode originar-se de — e aumentar o apoio a — uma variedade de ideologias políticas diferentes, incluindo tanto posições de esquerda quanto de direita, bem como os extremos de ambas. Níveis saudáveis de desconfiança na política são frequentemente vistos como ceticismo legítimo e considerados benéficos para o funcionamento democrático. Níveis elevados de desconfiança podem ampliar o fosso entre os formuladores de políticas (políticos ou o establishment político) e os cidadãos, criando oportunidades para retórica populista. A antipolítica manifesta-se frequentemente por meio de apelos ao "povo" e está, consequentemente, associada ao populismo — particularmente, embora não exclusivamente, ao populismo de direita.
Histórico do conceito miniatura|alt=consulte a legenda|Apoiadores de Jair Bolsonaro em Londres (2018), exibem cartazes solicitando "fim da política de pão e circo" e "disciplina militar já". A ideia ganhou destaque com a publicação de The Anti-Politics Machine, do antropólogo James Ferguson, em 1990. Ferguson desenvolveu a tese de que os projetos de desenvolvimento rural financiados pelo Banco Mundial e pela Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional no Lesoto aumentaram o poder burocrático do Estado no país e despolitizaram tanto o Estado quanto a pobreza, fazendo com que se tornassem questões apolíticas. Consequentemente, Ferguson descreveu o desenvolvimento como uma "máquina antipolítica". O modelo de Ferguson foi aplicado a outros países em desenvolvimento, como a Índia; o conceito de antipolítica também tem sido utilizado para criticar a gestão compartilhada de recursos envolvendo povos indígenas no Canadá e na América do Norte.
Na primeira década dos anos 2000, estudiosos da geografia humana, como Andrew Barry, estabeleceram uma distinção entre a "política" convencional (as práticas e instituições de eleições, partidos políticos e governos) e o "político" (cenários onde a dissidência e o debate são permitidos), argumentando que algumas formas de política poderiam ser antipolíticas, na medida em que negavam a validade de alternativas. A substituição do debate público pela economia de mercado sob o neoliberalismo, ou pelo gerencialismo tecnocrático conduzido por especialistas e cientistas, ou pela liderança de figuras carismáticas, são exemplos dessa teoria. Barry argumentou que, enquanto a política convencional girava em torno da estruturação de questões, uma ênfase maior na mensuração econômica estava levando à fusão entre economia e política. Em 2009, Erik Swyngedouw argumentou que esses processos haviam tornado a política ocidental "pós-política".
A negatividade em relação às instituições políticas formais é um fenômeno significativo na Europa, na América do Norte, na Australásia e em outras regiões. Essa tendência surgiu em muitas democracias durante a segunda metade do século XX, e é amplamente reconhecido que diversos fatores contribuíram para o aumento da desconfiança na política ao longo desse extenso período. Em Why We Hate Politics (2007), o cientista político Colin Hay escreveu que o rótulo "político" havia passado a ser associado, no imaginário popular, a conotações negativas, como corrupção, ganância, interesse próprio e ineficiência. Hay contrastou isso com os ideais positivos associados à "democracia". Ele também analisou uma ligação entre o sentimento antipolítico e o desengajamento político, incluindo a queda na participação eleitoral, a redução da filiação a partidos políticos e formas mais informais de participação política.
Causas Assim como ocorre com outros fenômenos políticos, a exemplo do populismo, os cientistas políticos frequentemente dividem as possíveis causas da antipolítica em fatores relacionados à demanda (provenientes dos cidadãos) e à oferta (provenientes da política). As explicações centradas na oferta incluem a natureza restrita ou excludente das elites políticas, o uso de manipulação da narrativa política e a despolitização deliberada de questões por parte de políticos que buscam reduzir as expectativas e a capacidade de agência dos cidadãos. Estudiosas como Wendy Brown sugerem que as políticas neoliberais são antipolíticas, uma vez que elevam a economia acima da política por meio de processos como a desregulamentação e a privatização, e buscam eliminar oportunidades de contestação legítima.
As explicações centradas na demanda incluem o declínio das instituições coletivas, o questionamento da ordem política por parte de ativistas e a atração dos cidadãos por líderes populistas. Em Bowling Alone (2000), o cientista político Robert D. Putnam apresentou uma explicação centrada na demanda para a insatisfação política, argumentando que o declínio da participação cívica e a crescente atomização da sociedade eram responsáveis pelo desengajamento político nos Estados Unidos. Os cientistas políticos Emma Vines e David Marsh argumentaram que a distinção entre explicações baseadas na demanda e na oferta é enganosa, uma vez que o crescimento da antipolítica está relacionado a uma relação disfuncional entre cidadãos e autoridades políticas — centrada, em particular, na falta de diálogo sobre questões políticas complexas que são apresentadas como tendo soluções simples.
+ Fatores que causam declínios de longo prazo na confiança política nas democracias Lado da demanda (mudanças nos cidadãos) Lado da oferta (mudanças na política) Intermediárias (mudanças na forma como a política é comunicada) Cidadãos mais abastados e com maior nível de instrução e, consequentemente, mais críticos Maiores expectativas em relação aos governos, que apresentam desempenho inferior diante de um conjunto mais amplo de critérios Política cada vez mais mediada por jornalistas e comentaristas Enfraquecimento do alinhamento entre cidadãos e partidos políticos tradicionais Transferência de poder dos governos nacionais para outros atores Mídia retrata a política cada vez mais em termos negativos; crescimento das mídias sociais Cidadãos adotando uma postura consumista em relação à política Menor distinção ideológica entre diferentes políticos e partidos Profissionalização das campanhas políticas; ocorrem cada vez mais em nível nacional e concentram-se em situações controladas
Relação com o populismo miniatura|Protesto em Londres após o escândalo da Cambridge Analytics e Facebook, por interferência no Brexit (2018). Existe uma forte ligação entre a antipolítica e o sentimento antissistema. Diversos teóricos políticos descreveram a antipolítica como uma parte fundamental da ideologia populista. Já o cientista político Blendi Kajsiu argumenta que o populismo não é a dimensão ideológica dominante da antipolítica, uma vez que a rejeição da política formal e dos políticos pode ser justificada por meio de várias ideologias, não apenas populistas, conservadoras, nacionalistas, liberais ou socialistas (ou por uma combinação destas), e que somente ao distinguir entre populismo e antipolítica é que se poderia "identificar as múltiplas dimensões ideológicas desta última".
Na década de 2010, o conceito de antipolítica foi adotado por cientistas políticos que levantavam a hipótese de conexões entre as presidências de Donald Trump e Jair Bolsonaro, eventos políticos como o Brexit e o crescimento da política de extrema-direita, e um contexto de declínio da confiança e da participação nos sistemas políticos representativos. Nessas análises, a antipolítica é frequentemente associada a movimentos reacionários, nativistas e nacionalistas, apresentados como reações às desigualdades de poder geradas pela globalização e por políticas como a austeridade.
Alguns estudiosos associaram os protestos antivacina e contra o confinamento durante a pandemia de COVID-19 à disseminação de um sentimento antipolítico — particularmente por meio das redes sociais — nas democracias ocidentais.
Bibliografia
Ligações externas
Categoria:Ciência política Categoria:Terminologia política Categoria:Conceitos políticos Categoria:Populismo