Maria Mikhailovna Manasseina (também conhecida como Marie de Manacéïne; São Petersburgo, 1841 – 17 de março de 1903) foi uma neurocientista especializada em pesquisas sobre privação do sono.
Manasseina esteve entre as primeiras mulheres do Império Russo a concluir a formação em medicina. Inicialmente, recebeu uma certificação especial que a autorizava a exercer a profissão como "médica", já que, na época, as mulheres ainda enfrentavam restrições para obter o diploma pleno. Posteriormente, conquistou oficialmente o grau em Medicina, pela Academia Médico-Cirúrgica de São Petersburgo.
É reconhecida como uma importante neurocientista nas áreas de química fisiológica, bioquímica e em medicina do sono. Publicou numerosos artigos em francês, russo e alemão, utilizando diferentes formas de seu nome, como Marie de Manacéïne, Maria Manàsseina e Marie von Manassein. Em diversas ocasiões, chegou a ser identificada como um médico do sexo masculino. Apesar da relevância de suas contribuições científicas, sua obra permaneceu relativamente pouco citada durante grande parte do século XXI.
Enquanto ainda era estudante, casou-se com outro estudante, o sr. Poniatovsky. Ambos participaram dos círculos revolucionários dos Narodniki, um movimento de orientação socialista que defendia uma sociedade organizada em comunidades economicamente autônomas, reunidas em uma espécie de federação em substituição ao Estado centralizado.
Entretanto, já na vida adulta, Manasseina passou a adotar uma posição fortemente contrária aos movimentos revolucionários. Ela forneceu ao Ministério da Educação informações e estudos sobre formas de controlar e reprimir manifestações estudantis e atividades revolucionárias. Também declarou publicamente sua lealdade ao governo czarista, recebendo, em contrapartida, significativo apoio financeiro.
Essas aparentes contradições em sua trajetória podem indicar uma mudança gradual para posições políticas mais conservadoras. No entanto, considerando as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para consolidar uma carreira científica e acadêmica na época, também é possível que Manasseina tenha demonstrado apoio público ao governo como forma de obter financiamento para suas pesquisas e dar continuidade ao seu trabalho científico.
Seu primeiro marido, Poniatovsky, foi preso e morreu durante o exílio político. Em 1856, ela casou-se com Vyacheslav Avksentievich Manassein, um renomado médico russo.
Biografia Manasseina nasceu em 1841, em São Petersburgo. Era filha de Mikhail Andreevich Korkunov, historiador e arqueólogo, professor universitário bastante conhecido na Rússia do século XIX. Era irmã de Nikolai Mikhailovich Korkunov (1853–1904), importante jurista, filósofo do direito e professor da Universidade de São Petersburgo.
Primeiro casamento Enquanto estudava medicina, casou-se com um estudante de sobrenome Poniatovsky (ou Poniatovski). Curiosamente, nenhuma fonte conhecida informa seu prenome. O casal participou dos círculos revolucionários dos Narodniki, movimento populista russo do século XIX. Posteriormente, Poniatovsky foi preso por suas atividades políticas e morreu durante o exílio.
Segundo casamento Em 1865, casou-se com Vyacheslav Avksentievich Manassein (1841–1901), um dos médicos mais respeitados da Rússia, professor da Academia Médico-Militar de São Petersburgo e editor da influente revista Vratch.
Relação com Ivan Tarkhanov Após passar um período em Viena, Maria passou a trabalhar com o fisiologista Ivan Romanovich Tarkhanov e acabou deixando o marido para viver com ele. No entanto, ela nunca se divorciou oficialmente de Vyacheslav Manassein. Ao mesmo tempo, Manassein manteve durante quase 30 anos uma união estável com Ekaterina Mikhailovna Dostoiévskaia, irmã do escritor Fiódor Dostoiévski. Assim, os quatro permaneceram ligados por uma situação conjugal bastante incomum para a Rússia czarista. Uma hipótese levantada por Vladimir Kovalzon é que Maria evitou o divórcio porque, na legislação russa da época, mulheres divorciadas podiam perder diversos direitos civis e sociais.
Contribuições para a ciência A contribuição mais importante de Manasseina para a neurociência foi sua pesquisa sobre os efeitos da privação do sono. Ela foi uma das primeiras cientistas a afirmar que o cérebro permanece ativo durante o sono. Para realizar essa investigação, trabalhou ao lado do professor Ivan Romanovich Tarkhanov, que também estudava os distúrbios do sono. Juntos, submeteram dez filhotes de cães, com idade entre dois e quatro meses, a um estado contínuo de insônia, mantendo-os permanentemente acordados. Os animais haviam sido previamente alimentados e recebiam todos os cuidados necessários, mas morreram após quatro ou cinco dias sem dormir.
Como grupo de comparação, outros filhotes foram privados apenas de alimento. Embora permanecessem em jejum durante cerca de 20 a 25 dias, esses animais puderam ser recuperados e voltaram a apresentar boas condições de saúde. Os resultados demonstraram claramente que o sono é indispensável para a manutenção da vida e que sua privação provoca a morte mais rapidamente do que a falta de nutrientes.
Pesquisas posteriores mostraram que a privação do sono provocava, entre outras alterações, redução da temperatura corporal entre quatro e seis graus, sugerindo comprometimento dos mecanismos de homeostase, além da diminuição do número de glóbulos vermelhos, hemorragias localizadas no cérebro, lesões nos gânglios cerebrais e outras alterações fisiológicas.
Com base nesses estudos, Manasseina concluiu que o sono é tão essencial quanto a alimentação para a regeneração das células cerebrais. Também defendeu que existe uma atividade específica do cérebro durante o sono, contrariando a concepção predominante da época, segundo a qual dormir seria apenas um estado passivo do organismo. Ela argumentava ainda que somente as estruturas cerebrais responsáveis pela manutenção da consciência permanecem inativas durante o sono; assim, dormir corresponderia essencialmente ao repouso da consciência. Essa hipótese mostrou-se notavelmente avançada para sua época, especialmente porque o eletroencefalograma ainda não havia sido desenvolvido. Seu trabalho exerceu grande influência sobre a comunidade científica e serviu de base para pesquisas posteriores.
Em 1896, os psicólogos norte-americanos George T. W. Patrick e J. Allen Gilbert realizaram o primeiro experimento de privação do sono em seres humanos. Em 1898, os pesquisadores italianos Lamberto Daddi e Giulio Tarozzi, além de Cesare Agostini, ampliaram os achados de Manasseina ao realizarem análises anatômicas e histopatológicas detalhadas dos cérebros dos filhotes utilizados nesses experimentos.
Bioquímica Embora tenha desenvolvido a maior parte de sua carreira em São Petersburgo, Manasseina passou alguns meses no Instituto Politécnico de Viena trabalhando com Julius Wiesner. Nesse período, realizou uma descoberta importante sobre o processo de fermentação, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da bioquímica. Contrariando a crença predominante da época, foi a primeira pesquisadora a defender que a fermentação resulta da ação de enzimas que podem ser isoladas das células de levedura. Dessa forma, concluiu que a fermentação das leveduras é um processo independente da integridade da célula.
Alguns anos depois, Eduard Buchner reproduziu experimentalmente esses resultados e publicou suas conclusões. Apesar de conhecer o trabalho de Manasseina, considerou seus experimentos pouco confiáveis, não a citou nem lhe atribuiu qualquer reconhecimento. Embora ela tenha buscado obter o devido crédito por essa descoberta, foi Buchner quem recebeu o Prêmio Nobel de Química, em 1907.
Últimos anos e morte Além da pesquisa científica, Maria dedicou-se ao ensino, ministrando cursos de psicologia e pedagogia e realizando conferências públicas bastante concorridas em São Petersburgo. Tornou-se membro honorária de diversas sociedades médicas russas. Morreu em 17 de março de 1903 e foi sepultada no Cemitério Novodévitchi, em São Petersburgo.
Publicações Maria Manasseina escreveu o primeiro livro dedicado aos problemas médicos relacionados ao sono. Nessa obra, interpretou os sonhos como evidências de uma atividade psíquica permanente produzida pelo cérebro durante o sono.
Sua publicação mais conhecida é Le Sommeil, tiers de notre vie (O sono, um terço da nossa vida), publicada em 1892.
L'anarchie passive et le comte Léon Tolstoï (1895). Sommeil, tiers de notre vie, pathologie, physiologie, hygiène, psychologie (1896).
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