Os cuzaaítas ou Banu Cuzaa () foram uma importante tribo árabe estabelecida no Hejaz, sobretudo na região de Meca. Sua origem era objeto de tradições genealógicas divergentes: a versão predominante entre os genealogistas os considerava descendentes dos catanitas e relacionados aos azeditas do sul da Península Arábica, enquanto outra os classificava entre os adenanitas. Segundo a tradição catanita, os cuzaaítas migraram para o norte após deixarem o sul da Arábia e estabeleceram-se nas proximidades de Meca, onde derrotaram os jurumitas e assumiram progressivamente o controle da cidade e da Caaba. Durante seu período de hegemonia, dividiram-se em numerosos ramos, entre os quais se destacavam os descendentes de Cabe ibne Anre, que incluíam os salulitas.

A tradição associa a consolidação do domínio cuzaaíta sobre Meca a Anre ibne Luai, a quem também atribui a introdução do culto de Hubal e de outras práticas religiosas pré-islâmicas na cidade. Os cuzaaítas conservaram por várias gerações a administração da Caaba e uma posição predominante na região, até perderem a hegemonia para os coraixitas sob Cuçai ibne Quilabe. Apesar dessa mudança, permaneceram uma das principais tribos das cercanias de Meca e conservaram funções relacionadas às peregrinações e estreitos vínculos políticos e matrimoniais com os coraixitas. Entre seus principais ramos figuravam ainda os aslamitas e os mustaliquitas, cujas relações com os habitantes de Meca e, posteriormente, com Maomé variaram conforme o período.

Durante o surgimento do Islã, diferentes grupos cuzaaítas estiveram inicialmente em ambos os lados do conflito entre Maomé e os coraixitas, mas a tribo acabou tornando-se uma importante aliada dos muçulmanos. Pelo Tratado de Hudaibia, os cuzaaítas aliaram-se formalmente a Maomé, e o ataque dos becritas contra eles, realizado com apoio coraixita, rompeu o tratado e constituiu o motivo imediato da campanha que culminou na Conquista de Meca em 630. Após a expansão do Estado islâmico, membros da tribo estabeleceram-se em regiões como o Iraque, o Egito, o Magrebe e o Alandalus, exerceram funções administrativas e militares e participaram das disputas políticas dos primeiros séculos islâmicos. Muitos apoiaram Ali ibne Abi Talibe durante as primeiras guerras civis, e os cuzaaítas tiveram posteriormente participação destacada na Revolução Abássida, sobretudo na organização do movimento no Coração.

História

Genealogia

Os genealogistas árabes e os estudiosos da história islâmica divergiram quanto à origem dos cuzaaítas. A tradição que os considerava catanitas vinculava-os aos azeditas do sul da Península Arábica e fazia seu ancestral Anre, conhecido como Cuzaa, descender de Rebia, também chamado Luai, ibne Harita ibne Anre Muzaiquia ibne Amir ibne Harita ibne Inru Alcaice ibne Salaba ibne Mazine ibne Azede. Uma tradição concorrente considerava-os adenanitas. Ibne Hasme, que defendia categoricamente esta última posição com base em tradições atribuídas a Maomé, fazia-os descender de Camea ibne Ilias ibne Modar: Camea teria gerado Amir, pai de Rebia, de cuja descendência teria nascido Anre, ancestral dos cuzaaítas. De Anre descendiam os principais ramos da tribo. Segundo Ibne Hasme, seus filhos eram Cabe, Mulai, Aufe, Adi e Sade, cada um dos quais deu origem a uma linhagem própria. Entre eles destacavam-se os cabitas, descendentes de Cabe ibne Anre, que constituíam a maior parte dos cuzaaítas. Cabe, por sua vez, teve Salul, Sade, Mazine e Hubexia, dos quais se originaram novos ramos; outra tradição acrescentava Munquide e Matrude a seus descendentes. Entre os filhos de Salul estavam Hubexia, Hurmuz e Adi; do primeiro descendiam Hulail, Cumair, Dajer e Culaibe, enquanto de Adi procedia, entre outros, Hubetar, ancestral dos hubetaritas.

Os demais filhos de Anre também deram origem a ramos próprios dos cuzaaítas. De Mulai descendiam Sade e Ganme, dos quais se formaram linhagens distintas; à descendência de Sade pertencia, entre outros, o poeta Cutair. Entre os descendentes de Adi encontravam-se Mazine e Zamane; da linhagem de Mazine procedia Budail ibne Uarca, um dos chefes cuzaaítas na época de Maomé. Sade ibne Anre teve Alhaiá, cujo nome era Amir e que deu origem a um ramo próprio, e Almustalique, cujo nome era Jazima; deste último descendiam os mustaliquitas, ramo ao qual pertenciam Alharite ibne Abi Dirar e sua filha Juairia binte Alharite, esposa de Maomé. De Aufe ibne Anre descendiam Nácer e Jáfena, cujos descendentes constituíam igualmente ramos próprios; os descendentes de Jáfena eram contados entre os ibad de Hira. Além dos descendentes de Anre, eram contados entre os cuzaaítas três ramos descendentes de seu parente Áfeça: Aslame, Maleque e Malcane. Segundo Ibne Hasme, os três separaram-se juntamente com os cuzaaítas e passaram a integrar a tribo, enquanto os demais descendentes de Áfeça eram contados entre os gassânidas. De Aslame descendiam os aslamitas, que se dividiam em dois grandes ramos, provenientes de seus filhos Salamane e Hauazine, enquanto Maleque e Malcane deram origem a linhagens próprias; entre os descendentes de Malcane encontravam-se os gubexanitas.

De acordo com a tradição sobre a origem meridional dos cuzaaítas, os azeditas deixaram o sul da Arábia quando se tornou evidente a iminente ruptura da Barragem de Maribe. Durante a migração rumo ao norte, enquanto outros grupos azeditas prosseguiram viagem, os cuzaaítas separaram-se deles nas proximidades de Meca e permaneceram na região. A essa separação atribuiu-se tradicionalmente a origem do nome Cuzaa, relacionado aos verbos árabes inhazaʿa e takhazzaʿa, empregados no sentido de separar-se ou ficar para trás. Alguns autores procuraram conciliar as tradições catanita e adenanita. Segundo um relato preservado por Albaladuri, Camea (Omeir) ibne Ilias teria emigrado para o Iêmem após um desentendimento com seus irmãos e estabelecido uma aliança com os azeditas, em consequência da qual sua descendência passou a ser associada a esse povo. Assuaili, por sua vez, relatou que Camea morreu quando seu filho Luai ainda era criança e que sua viúva se casou com Harita, um iemenita que adotou o menino. Desse modo, Assuaili considerava conciliáveis ambas as genealogias: a ascendência adenanita correspondia à filiação biológica de Luai a Camea, enquanto sua vinculação aos catanitas decorria da adoção por Harita. A coexistência dessas tradições deu origem, assim, a diferentes explicações para a filiação dos cuzaaítas. Enquanto uma genealogia os incorporava aos azeditas e vinculava sua presença no Hejaz à migração de grupos oriundos do sul da Arábia, outra os inseria entre os descendentes de Adenane. As tentativas de conciliar as duas linhagens por meio de migrações, alianças e adoções mostram que a própria tradição genealógica medieval procurou explicar a dupla associação dos cuzaaítas com as populações meridionais e adenanitas.

Migração para o Hejaz e domínio de Meca

Segundo a tradição que vincula os cuzaaítas aos catanitas, a tribo integrou o movimento migratório das tribos azeditas que deixaram o sul da Península Arábica após a deterioração das condições em torno da Barragem de Maribe. Durante a marcha para o norte, os cuzaaítas estabeleceram-se em Marre Azarã, nas proximidades de Meca, enquanto as demais tribos azeditas prosseguiram viagem. De acordo com a tradição mais difundida, os cuzaaítas solicitaram aos jurumitas, então senhores de Meca, autorização para permanecer temporariamente na região. Diante da recusa, teve início um conflito que terminou com a vitória dos recém-chegados e sua instalação nos arredores da cidade. Apesar disso, jurumitas e cuzaaítas continuaram convivendo em Meca durante algum tempo. As fontes árabes preservam versões divergentes acerca da forma como ocorreu a substituição dos jurumitas pelos cuzaaítas. Algumas descrevem uma conquista militar imediata, enquanto outras sugerem um processo gradual, no qual ambas as tribos coexistiram por certo período antes da transferência definitiva da autoridade sobre Meca e a Caaba. Segundo Irfan Shahîd, embora os relatos preservados pelos historiadores muçulmanos tenham sido amplamente remodelados pela tradição islâmica posterior, o consenso de diferentes fontes em torno da sucessão entre jurumitas e cuzaaítas indica que essa mudança de hegemonia provavelmente representa um núcleo histórico autêntico da história pré-islâmica de Meca. A consolidação do poder cuzaaíta é geralmente associada à liderança de , que se casou com Fuaira, filha de , o último chefe dos jurumitas. Dessa união nasceu Anre ibne Luai, cuja ascensão marcou, segundo a tradição, a transferência definitiva da administração da Caaba para os cuzaaítas. Já adulto, Anre acusou os jurumitas de corrupção, injustiças contra os peregrinos e negligência para com o santuário, reivindicando para si a custódia da Caaba. A disputa resultou numa guerra que terminou com a derrota dos jurumitas e sua expulsão de Meca. Durante a retirada, estes ocultaram o Poço de Zenzem e enterraram a Pedra Negra, que, segundo a tradição, somente voltariam a ser encontrados séculos depois por Abede Almotalibe.

Os descendentes de Ismael, por sua reduzida força numérica, permaneceram neutros durante o conflito e posteriormente chegaram a um acordo com os cuzaaítas, conservando sua presença na cidade. Shahîd observa que os relatos sobre a expulsão dos jurumitas constituem parte de um amplo conjunto de tradições destinadas a explicar a sucessão dos povos que exerceram a custódia da Caaba antes dos coraixitas. Embora muitos detalhes apresentem evidente elaboração lendária, a preservação de nomes como Almudade e a associação constante dos jurumitas à administração do santuário encontram respaldo indireto em testemunhos independentes, sobretudo na poesia pré-islâmica. Em particular, os versos de Zuair ibne Abi Sulma e Alaxa são considerados de grande importância por mencionarem conjuntamente jurumitas, coraixitas e a construção ou restauração da Caaba, preservando uma memória anterior ao islão sobre a participação dessas tribos na história do santuário. Sob o governo de Anre ibne Luai, os cuzaaítas alcançaram o auge de seu prestígio político e religioso. A tradição islâmica atribui-lhe a introdução do culto aos ídolos em Meca após trazer Hubal de , rompendo com o monoteísmo associado a Abraão e Ismael. Também lhe são atribuídas a instituição dos costumes pré-islâmicos conhecidos como bahira, wasila, saiba e hami. Shahîd observa que a figura de Anre ocupa posição central na memória religiosa islâmica justamente por representar o ponto de transição entre o antigo culto monoteísta atribuído a Abraão e Ismael e o período de predominância do politeísmo árabe anterior ao surgimento de Maomé. Durante esse período, os cuzaaítas fortaleceram-se e dividiram-se em diversos ramos, dos quais o mais poderoso era o dos descendentes de Cabe ibne Anre. Entre estes encontravam-se os salulitas, descendentes de Salul ibne Cabe, que se subdividiam, por sua vez, em diversos grupos menores.

Perda da hegemonia