Jafar ibne Abi Talibe (; c. — ) foi um dos primeiros companheiros de Maomé, pertencente ao clã dos haxemitas dos coraixitas. Irmão mais velho de Ali e primo de Maomé, destacou-se como um dos primeiros convertidos ao islão e liderou a segunda leva de emigrantes da Pequena Hégira para a Abissínia, onde representou os muçulmanos perante o Negus Axama e obteve a proteção da comunidade refugiada. Após permanecer vários anos na Abissínia, regressou à Arábia em 628 e reencontrou Maomé logo após a conquista de Caibar. No ano seguinte, participou da Batalha de Muta, na qual assumiu o comando do exército muçulmano após a morte de Zaíde ibne Harita, sendo morto em combate depois de ambos os braços lhe serem decepados. Sua morte deu origem a uma das tradições mais conhecidas da literatura islâmica, segundo a qual Deus lhe concedeu duas asas para voar no Paraíso, razão pela qual passou a ser conhecido pelos epítetos Ataiar (, al-Ṭayyār; "o Alado") e Du Aljanaine (, Dhū al-Janāḥayn; "o de duas asas"). Também recebeu as alcunhas Du Alhijerataine (, Dhū al-Hijratayn; "o de duas migrações"), por ter emigrado para a Abissínia e posteriormente para Medina, e Abu Almaçaquine (, Abū al-Masākīn; "pai dos necessitados"), em reconhecimento à sua generosidade para com os pobres.
Vida
Jafar ibne Abi Talibe nasceu em Meca por volta de 590. Era irmão de Ali, de quem era cerca de dez anos mais velho. Em razão das dificuldades financeiras enfrentadas por Abu Talibe, que possuía muitos filhos, Maomé acolheu Ali em sua casa, enquanto Alabás ibne Abede Almotalibe assumiu a criação de Jafar, que passou a juventude sob os cuidados do tio. Jafar foi um dos primeiros convertidos ao islão. Algumas tradições afirmam que aceitou a nova religião antes mesmo de Abu Becre, enquanto outras o apontam como o vigésimo quinto ou trigésimo segundo muçulmano. Quando a perseguição dos coraixitas contra os primeiros fiéis se intensificou, emigrou para a Abissínia com sua esposa, Asma binte Umais, integrando a segunda leva da Pequena Hégira. Maomé o designou chefe desse grupo. Seu filho nasceu na Abissínia e foi considerado o primeiro muçulmano nascido naquele país. Quando os coraixitas enviaram e Anre ibne Alás à corte do negus Axame para obter a extradição dos emigrados, Jafar representou os muçulmanos perante o soberano. Durante a audiência, expôs com clareza e firmeza os princípios do islão e explicou as razões que levaram os emigrantes a abandonar Meca. Sua intervenção convenceu o Negus a negar o pedido dos emissários coraixitas e a manter a proteção concedida aos refugiados muçulmanos. Algumas tradições afirmam ainda que o próprio Negus se converteu ao islão em consequência desse encontro.
Embora não tenha participado da Batalha de Badre, Maomé reservou-lhe parte do espólio dessa campanha e declarou que ele compartilhava da honra e da recompensa concedidas aos combatentes, juntamente com outros sete ausentes. Essa decisão levou algumas tradições posteriores a afirmar, equivocadamente, que Jafar estivera presente na batalha. Da mesma forma, deve ser recebida com cautela a tradição segundo a qual Maomé o teria unido em laços de fraternidade (muʾākhāt) com Muade ibne Jabal logo após a Hégira, uma vez que Jafar permaneceu na Abissínia até o sétimo ano da Hégira. Após o Tratado de Hudaibia, Maomé enviou cartas aos soberanos vizinhos convidando-os ao islão. Em sua mensagem ao Negus, além do convite à conversão, solicitou que os emigrados regressassem à Arábia. O soberano colocou uma embarcação à disposição dos refugiados, e Jafar retornou com os demais emigrantes diretamente a Caibar, onde encontrou Maomé logo após a conquista da cidade. Ao vê-lo, o profeta declarou: "Não sei com qual dos dois acontecimentos devo alegrar-me mais: a conquista de Caibar ou a chegada de Jafar". Em seguida, abraçou-o, beijou-lhe a testa e destinou-lhe, juntamente com dezesseis companheiros, uma parte do espólio da campanha. De volta a Medina, concedeu-lhe uma residência ao lado da Mesquita do Profeta.
Em 629, quando organizou a expedição a Muta, Maomé nomeou Zaíde ibne Harita comandante do exército e determinou que, caso este morresse, o comando passaria sucessivamente a Jafar e a Abedalá. Durante a batalha, os três comandantes morreram um após o outro. Após a morte de Zaíde, Jafar assumiu o comando e lançou-se contra o inimigo, sendo morto em combate depois que ambos os braços lhe foram decepados. Segundo Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, seu corpo apresentava mais de cinquenta ferimentos na parte frontal antes do sepultamento. Maomé anunciou que Deus lhe concedera duas asas em substituição aos braços perdidos, com as quais voava no Paraíso, razão pela qual passou a ser conhecido pelos epítetos Ataiar (, al-Ṭayyār; "o Alado") e Du Aljanaine (, Dhū al-Janāḥayn; "o de duas asas"). Jafar morreu aos quarenta anos. Como participou tanto da migração para a Abissínia quanto da migração desse país para Medina, recebeu também o epíteto Du Alhijerataine (, Dhū al-Hijratayn; "o de duas migrações"). Sua constante atenção aos pobres e necessitados valeu-lhe ainda a alcunha Abu Almaçaquine (, Abū al-Masākīn; "pai dos necessitados"). Abu Huraira afirmou que, depois de Maomé, ninguém era mais generoso do que Jafar. O próprio profeta costumava elogiá-lo, afirmando que seu caráter era o que mais se assemelhava ao seu. Jafar transmitiu poucos hádices. Entre seus principais transmissores figuram seu filho Abedalá, Abedalá ibne Maçude, Anre ibne Alás e Ume Salama. Algumas tradições acrescentam que seus outros dois filhos, Maomé e Aune, também narraram hádices de sua autoria.
Bibliografia
Categoria:Muajiritas Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Haxemitas (clã coraixita) Categoria:Primos de Maomé Categoria:Irmãos de Ali