Mercedes Matamoros y del Valle foi uma escritora e tradutora cubana. Integrante do movimento modernista. A autora destacou-se por uma produção poética vasta e inovadora, estimada em cerca de quinhentos poemas entre obras autorais e traduções, marcada pelo uso frequente do hendecassílabo e pela diversidade temática. Sua escrita abordou questões como erotismo, sexualidade feminina, escravatura, identidade racial, patriotismo e crítica social, temas considerados ousados e disruptivos para o contexto cultural do século XIX. Dessa forma, sua obra contribuiu para ampliar os limites da expressão literária feminina em Cuba, com perspectivas frequentemente silenciadas na sua época.
Infância e juventude Mercedes nasceu em Cienfuegos, Cuba, em 13 de Março de 1851. Seus pais foram Dionisio Vicente Matamoros Roig e María del Carmen del Valle Cuesta, irmã do conhecido deputado e escritor Antonio Hurtado del Valle. Sua mãe morreu quando ela tinha 9 anos, situação que levou ela e seu pai a se mudarem para La Habana. Aprendeu inglês, francês e italiano com seu pai, estudou no colégio El Sagrado Corazón del Cerro.
Sua trajetória pessoal foi marcada por dificuldades financeiras, perdas familiares e pelo enfrentamento de um câncer de mama nos últimos anos de vida, fatos que atravessam sua produção literária por meio de um constante tom melancólico. Ainda assim, Mercedes construiu uma obra profundamente comprometida com a formação cultural e nacional cubana, especialmente em um período de intensas transformações políticas e sociais ligadas à luta pela independência de Cuba.
Entre 1878 e 1879 conheceu José Martí, importante intelectual da época, considerado herói nacional cubano por seu papel na libertação de seu país, com quem estabeleceu uma relação de amizade, abrindo caminhos no mundo literário. Os poemas de correspondência entre Jose Marti e Mercedes confirmam sua amizade: Adios (Matamoros, 1879); A la eminente poetisa Mercedes Matamoros (Marti, 1901)Marti, José. Poesía completa de Marti. Habana: El Figaro. 1901. Disponível em: https://www.suneo.mx/literatura/subidas/Jos%C3%A9%20Mart%C3%AD%20Poes%C3%ADas.pdf e En la muerte de Marti (Matamoros, 1895).
Em 1884, Mercedes enfrentou severas dificuldades financeiras em decorrência da crise econômica que atingiu Cuba naquele período. Seu pai, responsável pelo sustento familiar, mantinha as economias depositadas na Caja de Ahorros de Habana, instituição da qual era contador e que decretou falência em meio ao colapso financeiro nacional. Diante desse cenário, a família Matamoros viu-se obrigada a vender seus bens de maior valor e transferir-se para Guanabacoa, região mais afastada da capital. Foi nesse contexto de adversidade que Mercedes iniciou sua atuação profissional como professora no colégio da escritora María Luisa Dolz(1854-1928).
Obra Antonio Delmonte abriu uma subscrição no jornal El País com o objetivo de financiar a publicação das poesias de Mercedes Matamoros e, eventualmente, comprar uma casa para a escritora. A iniciativa foi exitosa e contou com o envolvimento da escritora espanhola residente em Cuba Agar Eva Infanzón Canel (1857-1932) e a escritora cubana Aurelia Castillo.
Em 1867 publicou seus primeiros artigos, com o pseudônimo de Ofelia nos jornais El Siglo (1862-1868) e El Occidente (1902), muito elogiados pela imprensa e leitores da época. Também publicou na revista cubana La Opinión (1909), no jornal El Triunfo (1878), na revista El Figaro (1885-1910), Diario de la Marina (1832-1960), El Almendares (1852-1853) e na Revista de Cuba (1880 e 1883). Como dominava vários idiomas, publicou traduções para o espanhol de importantes obras clássicas de Lorde Byron, Thomas Moore, André Chenier, Johann Wolfgang von Goethee, Schiller e Henry Longfellow.
Em correspondência dirigida ao amigo, Manuel Serafín Pichardo, a autora afirma ter se lançado a “escrever cada dia com maior liberdade”, evidenciando sua busca por uma expressão literária mais autônoma e destituída de censuras. Nesse sentido, estudiosas da obra da autora destacam seu caráter inovador, ao afirmar que, até então, nenhuma mulher nas letras hispano-americanas havia ousado abordar o amor de maneira tão intensa, direta e, simultaneamente, sincera.
O reconhecimento da sua obra manifestou-se ainda em vida e consolidou-se progressivamente no cenário literário hispano-americano. Em 1892, a escritora cubana Aurelia Castillo (1842-1920) publicou o artigo em caráter elogioso “Mercedes Matamoros” na Revista Literária de Cuba, evidenciando a recepção positiva de sua produção poética entre os círculos intelectuais da época. No ano seguinte, a escritora espanhola Emilia Pardo Bazán fez referência à autora em sua publicação Nuevo Teatro Crítico, enquanto Manuela Herrera incluiu Matamoros na antologia Escritoras cubanas, organizada para a Exposição Universal de Chicago em comemoração ao IV Centenário do Descobrimento da América. Posteriormente, em 1916, a escritora Agar Eva Infanzón Canel destacou sua relevância literária na obra Lo que vi en Cuba.
A permanência de Mercedes Matamoros no cânone literário cubano pode ser constatada por sua recorrente inclusão em importantes antologias e estudos críticos ao longo do século XX e início do XXI, entre os quais se destacam Arpas cubanas (1904), de Conde Kostia; Parnaso cubano (1906), de Adrián del Valle; Florilegio de escritoras cubanas (1913), de Antonio González Curquejo; Las cien mejores poesías cubanas (1922), de José María Chacón y Calvo; Historia de la literatura cubana (1929), de Salvador Salazar y Roig; a célebre Antología de la poesía cubana (1965), organizada por José Lezama Lima; e, mais recentemente, Otra Cuba secreta: antología de poetas cubanas del XIX y XX (2011), de Milena Rodríguez. Essas recorrentes inserções atestam não apenas a permanência de sua obra, mas também a relevância de sua contribuição para a tradição poética cubana e hispano-americana.
Seu texto mais conhecido se intitula El último amor de Safo (1902), composto de 20 sonetos, representa um dos momentos mais expressivos de sua produção poética modernista. A obra retoma a figura da poetisa grega Safo como símbolo da paixão feminina, da sensualidade e do sofrimento amoroso, articulando uma escrita marcada pela intensidade emocional, pelo erotismo velado e pela ruptura com os padrões morais impostos às mulheres no final do século XIX.
miniaturadaimagem|Capa do livro "El último amor de Safo; Sonetos". Edição comemorativa de 110 anos de lançamento da obra original. O último amor de Safo
I. Safo a Faon
Venho oferecer-te meu maior tesouro,
Venho conceder-te meu glorioso encanto,
aquele que recolhe as lágrimas do meu amor,
aquele que incessantemente te diz: “Eu te adoro!”
É a minha lira! A doce lira dourada
com a qual canto o teu irresistível encanto,
cujos hinos de alegria e tristeza
são rouxinóis que formam o teu coro.
Nela entrelaço notas e cores,
para que aos teus pés seja
um eloquente símbolo da minha vida e dos meus amores.
Pois em minhas mãos está a vibrante lira
flor que desabrocha, chama que faísca,
onda que ruge, cisne que suspira [...]PALACIOS, Ana Morilla. 2013. Mercedes Matamoros: El ultimo amor de Safos (sonetos). Biblioteca virtual de Andalucia. pag. 363. Disponível em: https://www.bibliotecadigitaldeandalucia.es/catalogo/es/consulta/registro.do?id=1042906.
Por meio dessa recriação literária da personagem clássica, Matamoros constrói uma voz poética feminina profundamente subjetiva e transgressora, capaz de expressar o desejo amoroso de maneira direta. A obra destaca-se ainda pela elaboração estética refinada, característica do modernismo hispano-americano, combinando musicalidade, imagens simbólicas e referências à tradição clássica. Nesse sentido, El último amor de Safo consolidou-se como um texto inovador dentro da literatura cubana, sobretudo por conferir centralidade à experiência afetiva feminina em uma perspectiva pouco convencional para sua época.
Além das temáticas amorosas e intimistas que marcaram sua produção lírica, Mercedes Matamoros também demonstrou interesse pelas questões políticas e sociais de sua época, especialmente pela luta em favor da independência cubana. Um exemplo de seu comprometimento com a causa nacionalista foi sua recusa de publicar na imprensa espanhola. Em 1892, retomou sua atividade literária ao publicar na revista El Fígaro (1885-1910), o conto La tempestad, texto que evidencia sua sensibilidade diante das tensões sociais e nacionais que atravessavam Cuba no final do século XIX.
A partir de 1895, passou a dedicar-se à escrita de contos de caráter patriótico, concebidos para integrar o livro intitulado Armonías cubanas. Nesse período, sua produção literária aproxima-se mais explicitamente do ideal nacionalista e das inquietações políticas vinculadas ao processo de independência cubana. A exemplo do trecho abaixo:
Caonabo
I. E marcham sem parar,
Desconsiderando os perigos,
Em busca da morte ou da glória,
Incitados por seu líder [...]
Pois agora não buscam
Índios mansos e desarmados,
Mas aquele que é honra e orgulho
De sua bela pátria,
E sabe como instilar dúvidas
E tribulações e terror
Nas forças inimigas
Que o chamam de Caonanbo! [...]
No poema Caonabo, a figura do Cacique de Maguana é enfatizada como símbolo de resistência frente ao avanço colonial espanhol em Cuba. Historicamente reconhecido pela ferocidade de sua liderança e pela oposição aos conquistadores ibéricos, Caonabo é retratado na composição poética não apenas como um chefe guerreiro, mas como a personificação da honra e da soberania do povo cubano. Ao lado de sua esposa, a princesa Anacaona, associada à inteligência política e à resistência cultural indígena, o cacique tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da luta anticolonial no Caribe. Nesse contexto, quando o eu lírico afirma que os invasores ibéricos não buscavam mais “mansos índios desarmados”, mas sim aquele que era “honra e orgulho” de sua terra natal, revela uma inversão significativa do discurso colonial tradicional: o povo indígena deixa a submissão e fragilidade para assumir a posição de liderança temida diante dos exércitos inimigos.
Assim, Caonabo é elevado à condição de herói nacional e símbolo de resistência contra a violência colonial. Dessa forma, o poema não apenas recupera um episódio histórico ligado às primeiras resistências indígenas contra os espanhóis, mas também ressignifica a presença indígena na história caribenha, atribuindo-lhe protagonismo, dignidade e heroísmo.
Legado Além de poeta, Mercedes também exerceu papel relevante como tradutora e difundiu ao público hispânico autores europeus clássicos como Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller e Lord Byron. Publicou em importantes jornais e revistas cubanos, consolidando sua inserção no meio intelectual da época. Seu legado como expoente da literatura cubana oitocentista é associado à renovação estética modernista e à afirmação da liberdade de expressão das mulheres cubanas.
O reconhecimento de sua importância intelectual foi simbolizado pela inauguração, em 1921, do busto em sua homenagem na cidade de Cienfuegos (Cuba). O busto em questão foi erguido 15 anos após sua morte, em mármore, com cerca de 3 metros de altura pelo artista e escultor Baralta Carrara. miniaturadaimagem|Busto de Mercedes Matamoros em Cienfuegos, Cuba. Inaugurado em 1921.
Morte