Adelaida Chévez foi uma das precursoras da literatura moderna guatemalteca, além disso foi professora, militante e precursora dos direitos das mulheres na Guatemala. Cofundou o jornal semanal El Ideal (1887-1888) com Vicenta Jesús Laparra de La Cerda (1831-1905), Isabel Matamoros de Castellanos e Carmen P. Silva (1919-1985). Foi importante na luta por direitos para as mulheres, especialmente o direito à educação; Adelaide é lembrada por sua coragem e resistência contra o sexismo no século XIX.
Infância e juventude Nascida em 1846, Antilha, na Guatemala, pouco se sabe de sua ascendência e descendência. No entanto, sabe-se que era filha de Mariano Cheves Romero (1864-1931) e Catalina Cohen, irmã de Leonor Cheves Cohen e Nicolás Cheves Cohen. Pertenceu ao Ateneo metropolitano de Guatemala, recinto cultural histórico fundamental para o treinamento teatralTobar Aguilar, Gladys. Texto y contexto independentista: Una lectura crítica de las ideas presentes en los discursos de escritoras guatemaltecas del siglo XIX. Guatemala: nstituto de Estudios de la Literatura Nacional (INESLIN) Facultad de Humanidades, USAC, Instituto de Investigaciones Históricas, Antropológicas y Arqueológicas de la Escuela de Historia (IIHAA). 2021. Disponível em: https://digi.usac.edu.gt/bvirtual/informes/cultura/INF-2021-63.pdf.
Carreira Chévez usou o jornalismo como instrumento para defender a educação das mulheres entre o século XIX e início do XX. Teve ativa participação na reformulação do currículo escolar da Guatemala durante o primeiro congresso pedagógico realizado em 1881. Suas produções se localizam no contexto da reforma educacional liberal na Guatemala, de 1873 a 1898 que buscava modernizar o sistema educacional do país, estendendo-se do ensino primário ao superior.
Foi professora e diretora em escolas para meninas, como o Colegio de Niñas del cantón de San José e o Colegio de Niñas de la Ciudad Vieja, na Cidade da Guatemala, nas décadas de 1870 e 1880Arroyo Calderón, Patricia. Cada uno en su sitio y cada cosa en su lugar. Imaginarios de desigualdad en América Central (1870-1900). 2021. Ohio State University. Doctoral dissertation. Disponível em: https://www.proquest.com/openview/57414ab22a4f56ad67df7146b5f04a7d/1?pq-origsite=gscholar&cbl=18750&diss=y. Ademais, integrou, entre o final do século XIX e início do XX, uma ampla rede de professoras, jornalistas e escritoras da capital centro-americana que deu origem ao jornal El Ideal (1887-1888) de e para mulheres. Os principais temas incluíam desde as transformações sociais do período; os papéis desempenhados por determinados grupos sociais (como mulheres, indígenas e classes populares) no processo de modernização, até as importações de mercadorias das grandes metrópoles.
O jornal El Ideal (1887-1888), por exemplo, cofundado por Adelaida Vicenta Laparra de la Cerda, Isabel M. de Castellanos, Carmen P. de Silva (1846-1932) e Sara María García Salas de Moreno. Redigido exclusivamente por senhoras, circulou entre 10 de dezembro de 1887 e 28 de abril de 1888 e contou com apoio financeiro de seu pai Dr. Chévez durante seus cinco meses de existênciaMONZÓN, Ana Silvia. Mujeres y bicentenario: nada que celebrar, mucho que develar. In: INSTITUTO DE INVESTIGACIONES DEL DEPARTAMENTO DE ESTUDIOS DE POSTGRADO; CENTRO UNIVERSITARIO DE OCCIDENTE; UNIVERSIDAD DE SAN CARLOS DE GUATEMALA. Bicentenario sin ruptura colonial. Quetzaltenango: IIDEP, Departamento de Estudios de Postgrado del CUNOC-USAC, 2021. p. 89–107. ISBN 978-9929-636-95-8. . O jornal marcou parte importante da luta feminista por direitos para as mulheres, manifestando-se contra a falta de interesse na educação feminina. Em suas publicações, as autoras defendiam os interesses femininos e a luta por igualdade de condições, por esse motivo, Adelaida é considerada uma das precursoras da luta pelos direitos das mulheres na Guatemala.
A autora também foi uma das fundadoras do semanário unionista La Revolución (1920), principal órgão de difusão ideológica do Partido Unionista da Guatemala, que promoveu a derrubada de Manuel Estrada Cabrera e o ideal de uma América Central unificada.
Obras Os poemas de Adelaida não foram editados, mas se inserem no movimento romântico. São destacadas as poesias: ¡Flores y lágrimas! (1881) e ¡Su hogar! (1887), este dedicados a seus amigos poetas Carmen e Felipe Silva, que foram conhecidos a partir da obra Poesía FemeninaFrigerio, Franco C. Contribuciones Femeninas a la Poesía Guatemalteca. Repertório Americano. Segunda nueva época N° 29, Enero-Diciembre, 2019. Disponível em: file:///C:/Users/clara/Downloads/nuriarodriguez,+Articulo_21+(2).pdf .
No poema Flores y lágrimas, por exemplo, a autora expressa seu lado íntimo e romântico, que também compartilha a dor pela morte de seu pai. No Parnaso guatemalteco 1750-1963 foram publicadas suas poesias El naúfrago, María Cruz, Al partir, Crucifixión, Nocturno e ¿Para qué?. Em 1885, Adelaida escreveu o poema Corona fúnebre dedicada a la grata memoria del ilustre literato guatemalteco Salomé. O fragmento de El naúfrago (data desconhecida), apresentado abaixo, evidencia traços característicos da estética romântica mobilizados pela autora. Destaca-se a imagem do mar e a personificação da natureza; a figura do viajante, o qual vagueia em busca de sentido na vida e a melancolia do amor romântico, geralmente representado de forma inalcançável. Nesse contexto, somente a morte é capaz de trazer o consolo diante da dor e sofrimento desse amor perdido. miniaturadaimagem|Poema Corona fúnebre dedicada a la grata memoria del ilustre literato guatemalteco Salomé Gil (Chévez, 1885) El naúfrago
Remando em frágil embarcação
Contra as ondas e o vento,
Vivia só e contente
Sobre as ondas do mar
Um pobre e triste remador
Sem casa e sem fortuna
Mas com sua amiga, a lua,
Compartilhava sua aflição
(...)
Perdi meu primeiro amor
E chorando meus pesares
Apenas esperava o consolo da morte com minha dor.
(Chéves, data desconhecida, traduzido).
De outro lado, dos textos em prosa inclui-se duas publicações importantes: o manual de economia doméstica Llave de oro: Compendio de economía doméstica, para uso de las jóvenes centro-americanas (1887) e o romance Clementina, o la víctimas de un crimenChévez, Adelaida. Clementina, o la víctima de un crimen. Guatemala: Tipografía La Unión. 1890. (1890). miniaturadaimagem|Capa do livro Llave de Oro (Chéves, 1887) A primeira obra é dividida em 18 capítulos, são eles: I – Gastos improdutivos; II – Visitas; III- Passeios; IV – Convites; V- Luxo; VI – Presentes; VII - Distribuição do tempo e fazeres da casa; VIII – Da roupa em geral; IX - Compostura de roupa; X – Lavagem e passagem de roupas; XI – Gastos em artigos de consumo; XII - Serviço de mesa e cozinha; XIII – Outros serviços de refeitório e cozinha; XIV – Gasto diário e alimentação; XV - Preparação de algumas bebidas e alimentos; XVI – Modo de preparar e servir uma mesa; XVII – Conduta com os serventes e XVIII – Limpeza e higiene. Na introdução, Adelaida Chévez dedica o livro às meninas em geral “tanto ricas, como pobres”, mas especialmente às últimas, “sendo boas filhas, serão boas esposas e excelentes mães de família”Chéves, Adelaida. Llave de oro: compendio de economía doméstica, para uso de las niñas Centroamericanas. New York: La Revista Ilustrada de New York Pub. Co., 1887, pp. 17. Disponível em: https://archive.org/details/llaveadcheves87guat/page/154/mode/2up, a autora também destaca que o livro é dividido em duas seções: a primeira parte trata dos “gastos improdutivos e de mero luxo”, responsável pela miséria e ruína de muitas famílias. De outro lado, a segunda parte trata dos assuntos “puramente domésticos”, que dada sua importância devem ser analisados minuciosamente.
A autora defende a economia doméstica como uma ciência, “uma preciosa arte”, que compõe o universo das atribuições a serem desenvolvidas pela mulher, assim como a geografia e a astronomia. Para além de um manual, o compêndio constitui importante documento de estudo das complexas relações do âmbito do privado e os papéis sociais dominantes das mulheres no século XIX. Além disso, reflete um esforço de inserção das mulheres no contexto de modernização da Guatemala.
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