O sangue do cordão umbilical é o sangue que permanece na placenta e no cordão umbilical após o parto. É colhido porque contém células estaminais que podem ser utilizadas no tratamento de doenças hematológicas, metabólicas, imunitárias e genéticas. O sangue do cordão umbilical também tem sido investigado em neurologia pediátrica em aplicações terapêuticas experimentais. Adicionalmente, células derivadas do sangue do cordão umbilical são usadas como matéria-prima para algumas terapias celulares avançadas, incluindo terapias com células natural killer modificadas com receptor quimérico de antigénio (CAR-NK).
Constituintes O sangue do cordão umbilical contém todos os elementos presentes no sangue total, incluindo glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas. Em comparação com o sangue periférico adulto, apresenta algumas diferenças de composição: por exemplo, contém maior número de células natural killer, menor número absoluto de células T e uma proporção mais elevada de células T imaturas. Contudo, o interesse pelo sangue do cordão umbilical resulta sobretudo do facto de conter vários tipos de células estaminais e progenitoras, em especial células estaminais hematopoiéticas. Também estão presentes alguns tipos de células estaminais não hematopoiéticas, como as células estaminais mesenquimais, embora em quantidades muito inferiores às encontradas na medula óssea adulta. Podem ainda ser encontradas células progenitoras endoteliais e células estaminais adultas multipotentes irrestritas, ou seja, células adultas com maior capacidade de diferenciação. Ao contrário das células estaminais embrionárias, que são pluripotentes, as células estaminais do sangue do cordão umbilical são multipotentes.
Utilizações médicas O sangue do cordão umbilical é utilizado de forma semelhante ao transplante de células estaminais hematopoiéticas para reconstituir a medula óssea após quimioterapia e/ou radioterapia em vários cancros do sangue e em diversas formas de anemia. A sua eficácia é semelhante à dos transplantes de medula óssea. Segundo relatórios da European Society for Blood and Marrow Transplantation (EBMT), o sangue do cordão umbilical tem sido usado no tratamento de mais de 80 doenças, sobretudo neoplasias hematológicas, síndromes de falência medular, doenças metabólicas hereditárias e certas imunodeficiências. Na medicina da transplantação, o sangue do cordão umbilical constitui uma fonte alternativa de células estaminais hematopoiéticas. Uma análise de dados do Center for International Blood and Marrow Transplant Research (CIBMTR) sobre 2429 doentes que receberam transplante de sangue do cordão umbilical entre 1999 e 2024, por anemia aplástica/autoimunidade, erros inatos da imunidade e do metabolismo, hemoglobinopatias e outras doenças hematológicas, mostrou que este tipo de transplante deve ser considerado uma das opções de dador mais eficazes para doentes com doenças não malignas, com uma sobrevivência global aos 1, 5 e 10 anos de 75%, 71% e 68%, respetivamente.
Nos últimos anos, ensaios clínicos também investigaram a possível utilização do sangue do cordão umbilical em doenças neurológicas. Alguns estudos comunicaram potenciais benefícios clínicos em crianças com perturbação do espetro do autismo (PEA) e paralisia cerebral (PC); no entanto, estas aplicações não são consideradas tratamentos padrão. Existem protocolos de acesso alargado nos Estados Unidos, na Austrália e em alguns países europeus. Ensaios clínicos em fase inicial também exploraram terapias celulares derivadas do sangue do cordão umbilical para a síndrome pós-COVID, embora estas aplicações continuem a ser investigacionais.
Efeitos adversos na transplantação Os efeitos adversos do transplante de células estaminais do sangue do cordão umbilical são semelhantes aos do transplante de células estaminais hematopoiéticas provenientes da medula óssea, nomeadamente a doença do enxerto contra o hospedeiro quando o sangue do cordão umbilical provém de uma pessoa geneticamente diferente, e o risco de infeção grave enquanto o sistema imunitário é reconstituído. Para reduzir o número de complicações durante o transplante, é necessário que ocorra enxertia; em particular, devem começar a ser produzidos neutrófilos e plaquetas. Este processo de produção de neutrófilos e plaquetas após o transplante, contudo, demora mais tempo do que no caso das células estaminais. Em muitos casos, o tempo de enxertia depende da dose celular, ou seja, do número de células estaminais obtidas na amostra de sangue. Num artigo do Dr. Moise sobre o sangue do cordão umbilical, foi referido que este contém aproximadamente menos 10% de células estaminais do que a medula óssea. Por isso, é necessário recolher uma quantidade suficiente de sangue do cordão umbilical para obter uma dose celular adequada; esta quantidade, porém, varia de recém-nascido para recém-nascido e não pode ser substituída. Como a dose celular limitada restringiu historicamente o uso do sangue do cordão umbilical, sobretudo em crianças maiores e adultos, foram desenvolvidas abordagens de expansão ex-vivo e de engenharia do enxerto para aumentar a dose efetiva de células progenitoras/estaminais. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou uma terapia com células progenitoras hematopoiéticas derivadas de sangue do cordão umbilical, expandidas (Omisirge, omidubicel-onlv), para utilização em doentes submetidos a transplante de sangue do cordão umbilical, com o objetivo de reduzir o tempo até à recuperação dos neutrófilos e o risco de doenças infecciosas. Na Europa, um produto de células estaminais derivado de sangue do cordão umbilical com expansão baseada na tecnologia UM171 (Zemcelpro) recebeu uma autorização condicional de introdução no mercado. Embora estudos anteriores tenham assinalado incertezas sobre a criopreservação a muito longo prazo, estudos posteriores de estabilidade relataram a preservação da viabilidade e da potência funcional de unidades de sangue do cordão umbilical criopreservadas ao longo de décadas, incluindo evidência compatível com a manutenção de parâmetros essenciais de qualidade até 29 anos de criopreservação. Apesar dos requisitos de compatibilidade HLA menos rigorosos, continua a existir menor incidência de transplantes com sangue do cordão umbilical do que com o transplante tradicional de células estaminais hematopoiéticas.
Colheita e armazenamento O sangue do cordão umbilical é o sangue que permanece na placenta e no cordão umbilical depois do nascimento do bebé. Existem vários métodos para o obter. O método mais utilizado na prática clínica é a “técnica fechada”, semelhante às técnicas habituais de colheita de sangue. Neste método, o técnico punciona a veia do cordão umbilical seccionado com uma agulha ligada a um saco de sangue, para o qual o sangue do cordão flui através da agulha. Em média, a técnica fechada permite recolher cerca de 75 ml de sangue do cordão umbilical.
Depois da colheita, o sangue do cordão umbilical é criopreservado e armazenado num banco de sangue do cordão umbilical para futura transplantação. Antes da criopreservação, a amostra de sangue do cordão colhida é habitualmente submetida a um processo de redução de glóbulos vermelhos, a fim de assegurar taxas elevadas de recuperação de células estaminais.
História O primeiro transplante bem-sucedido de sangue do cordão umbilical foi realizado em 1988 numa criança com anemia de Fanconi. As primeiras tentativas de utilizar este tipo de transplante em adultos estiveram associadas a taxas de mortalidade de cerca de 50%, em parte porque o procedimento era realizado em pessoas muito doentes, mas possivelmente também devido ao desenvolvimento lento das células imunitárias provenientes do transplante. Em 2026, tinham sido realizados 50 000 transplantes de sangue do cordão umbilical em todo o mundo ocidental e outros 50 000 somente na China. Os bancos públicos armazenavam cerca de 600 000 unidades de sangue do cordão umbilical.
Sociedade e cultura
Estatuto legal
Hemacord (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em 2011. Ducord (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em 2012. Allocord (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em 2013. Cordcyte (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em 2013. Clevecord (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em 2016. Regenecyte (HPC, sangue do cordão umbilical) foi aprovado para uso médico nos Estados Unidos em novembro de 2024.
Regulação A AABB (Association for the Advancement of Blood & Biotherapies) elaborou normas voluntárias de acreditação para instalações de bancos de sangue do cordão umbilical.
Nos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration) regula qualquer instalação que armazene sangue do cordão umbilical; o sangue do cordão destinado a ser utilizado na própria pessoa de quem provém não é regulado, mas o sangue destinado a ser usado noutras pessoas é regulado como medicamento e como produto biológico. Vários estados dispõem de regulamentação aplicável aos bancos de sangue do cordão umbilical.
Na União Europeia, no Canadá e na Austrália, a utilização de sangue do cordão umbilical é regulada. No Reino Unido, o NHS Cord Blood Bank foi criado em 1996 para colher, processar, armazenar e fornecer sangue do cordão umbilical; trata-se de um banco público de sangue do cordão umbilical e integra o National Health Service (NHS).
Bancos privados e públicos