miniaturadaimagem|Fotogravura de Arnaldo Dutra publicada no Jornal O Exemplo.
Arnaldo Dutra (Porto Alegre, 1889 - Porto Alegre, 20 de maio de 1929) foi um homem negro, natural de Porto Alegre, era músico, ator, teatrólogo, funcionário público, jornalista, professor, médico. Era um ativista presente em diversas articulações do movimento negro porto-alegrense nas décadas de 1900, 1910 e 1920, notavelmente afiliado ao veículo de imprensa negra, o jornal O Exemplo. Biografia
Família Filho de Miguel Antônio Dutra (Advogado) e Leopoldina Dutra (Doméstica), foi casado com Othilia Leal Dutra em um matrimônio sem descendentes, irmão de Octávio, Dário, Célia, Manoel, Laura, Altina, Alzira. Marinha, Mário, Theodomiro e Adelina Dutra. Seus pais eram moradores da Aldeia dos Anjos (atual Gravataí) durante o século XIX e seu sobrenome Dutra, advindo de sua família paterna fora uma família rica, branca, escravocrata e de influência política. Sua mãe, Leopoldina Dutra nasce como escrava na escravaria de Anna Joaquina Dutra, tia de Miguel Antônio Dutra, assim, Arnaldo Dutra seria fruto de uma relação entre senhor e cativo, ocasião muito comum a época.
Formação Não há registros precisos sobre em qual escola Arnaldo Dutra fez sua educação básica, nem sequer se ele concluiu essa etapa de ensino em uma instituição ou se foi alfabetizado por seus familiares em casa.BOHRER, Felipe Rodrigues. Caminhos cruzados: A trajetória do músico, intelectual e ativista negro Arnaldo Dutra (Porto Alegre/RS – Primeira República). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2021. Entretanto sua alfabetização na juventude é evidente tanto pela plena aprovação em português nos Exames de Preparatórios em 1904, como por seu nome constar no Alistamento Eleitoral Estadual do município de Porto Alegre em 1907, sendo a alfabetização um dos pré-requisitos para o voto no período.
Quanto às instituições de ensino das quais há registro da passagem de Arnaldo Dutra, destacam-se a Escola de Porto Alegre em 1904, e a Escola Médica Cirúrgica de Porto Alegre, em 1926.
Vida profissional
Correios No Alistamento Eleitoral de 1907 não há um registro preciso de sua profissão, sendo classificado como “Agência” (termo utilizado à época para designar uma série de profissões não específicas).
Na ausência de registros formais de sua ocupação profissional anterior, seu vínculo com os Correios em 1910 constitui o primeiro registro oficial conhecido. O vínculo é noticiado pelo jornal "A Federação", que informa sua classificação em segundo lugar no concurso para carteiros de 3ª classe do ano anterior.
Nos Correios, Dutra desenvolveu grande parte de sua carreira profissional, atuando em diferentes áreas e recebendo promoções com o passar dos anos. Em 1912 foi aprovado no concurso de praticantes de segunda classe de administração, dois anos depois foi promovido para praticante de primeira classe da mesma função. Também foi noticiado que em 1921 foi promovido de amanuense para terceiro oficial da administração.
Professor Dutra passa a atuar na educação dentro do próprio Correios, sendo citado ao longo dos anos como examinador de diversos concursos da empresa, e chegando a exercer a função de secretário de um dos concursos em 1928. Além da atuação nos Correios Dutra também ministrava aulas particulares, frequentemente divulgadas no jornal O Exemplo.
Jornalismo Além das diversas funções que exerceu, Dutra atuou como jornalista em diversos periódicos da época, sendo diretor de “O Imparcial” entre 1915 e 1916, da “Gazeta do Povo” entre 1920 e 1922 (ambos pertencentes a Antônio Heit). Junto à imprensa negra, participou de O Exemplo em três ocasiões (1908-1911; 1916 e 1926-1929), do jornal A Liberdade, entre 1924 e 1926, além de ser um dos fundadores, ao lado de Christiano Fettermann e Esperidião Calisto, do jornal A Comunhão.
Medicina O período onde atuou como médico é incerto, após formar-se em meados da década de 1920. Durante essa década, seu nome apareceu em diversos documentos da Escola Médico Cirúrgica em que se formou, sendo possível encontrar também anúncios de suas consultas médicas no jornal “O Exemplo”.
A atuação de Arnaldo Dutra como médico envolve uma polêmica por ser especialista em homeopatia, uma prática considerada por parte da comunidade médica uma pseudociência. Diferentes autores apresentam argumentos sobre essa polêmica. Felipe Rodrigues, ao abordar o tema, explica que apesar de a homeopatia ser contestada, os obituários de Dutra o descrevem como médico, além de o próprio PRR (partido que governava o Rio Grande do Sul à época) apoiava a prática. Por outro lado, a historiadora Maria Angélica Zubaram explica que a atuação de Dutra como médico foi muitas vezes esquecida pela instituição em que se formou, que foi fechada em 1932, em razão do ensino da homeopatia.
Vida Cultural
Na música Arnaldo Dutra era reconhecido como músico em Porto Alegre nas décadas de 1900, 1910 e 1920. Atuava ao lado de seu irmão Octávio Dutra nos grupos musicais "Trio do choro" e "Terror dos facões" como cavaquinista do grupo. Pode-se observar também nos cadernos de música de Octávio Dutra que Arnaldo Dutra assinou como letrista em diversas composições de seu irmão e outros artistas, sendo autor de diversos sambas, modinhas, valsas, tangos e choros.
Com o grupo "Terror dos Facões", atingiu reconhecimento local e nacional. Tendo junto deles realizado no total 26 gravações fonográficas, com 23 havendo sido prensadas pela Casa Edison e 3 pela Casa A Elétrica, com algumas das gravações sendo as primeiras do tipo realizadas no Rio Grande do Sul.
No teatro Dutra era também envolvido na dramaturgia, havendo registros de sua atuação como ator e autor de 2 peças de teatro de revista. Atuou na peça "Revista Rocambole" escrita por Henrique Viera Braga com música composta por seu irmão Octávio Dutra. Como autor, escreveu as peças "Typos e Typas", cuja música foi composta por seu irmão.
Foi membro fundador do grêmio José do Patrocínio (1908-1910) e Grêmio Dramático Arthur Rocha (1916). Exerceu o cargo de secretário no grêmio José do Patrocínio e foi o primeiro presidente do Grêmio Dramático Arthur Rocha.
Ambos os grêmios eram construídos, ao menos em parte, pela comunidade negra de Porto Alegre, no caso do grêmio José do Patrocínio apresentava-se entre outras iniciativas, atitude ativista em relação a seleção de peças para serem apresentadas, dando preferência a obras da autoria de figuras como Arthur Rocha e Damasceno Vieira ambos vinculados à comunidade negra porto-alegrense. Arnaldo Dutra envolveu-se na elaboração de mudanças do estatuto do grêmio José do Patrocínio para que passassem a oferecer aulas de ensino básico, articulação importante para Dutra tendo em vista que escreveu sobre os empecilhos causados pelo preconceito racial e de classe no acesso ao educação na coluna "Rabisco" do jornal O Exemplo.
Nos festivais Arnaldo Dutra se fazia presente nos mais diversos festivais e eventos culturais de seu período em Porto Alegre. Entre os eventos frequentados por Dutra havia os festivais e bailes organizados por comunidades negras em Porto Alegre, nestas ocasiões comemoravam-se, entre outras celebrações, datas relevantes para a população negra brasileira, como, por exemplo, as datas 28 de setembro (aprovação da lei do ventre livre) e 13 de maio (sanção da lei Áurea). Esses festivais contavam com a presença de redatores do jornal O Exemplo, do qual Arnaldo Dutra em alguns momentos fez parte. Em decorrência dessa associação, Dutra também escreveu artigos elogiando e atestando a significância destes eventos.
No Carnaval Também se envolvia com múltiplos blocos carnavalescos em Porto Alegre nas décadas de 1910 e 1920. Atuava como orador no Bloco dos Tigres, participou também durante a década de 1920 do Cordão Carnavalesco os Batutas como presidente ou diretor geral. Entre o repertório musical do bloco durante os festejos carnavalescos estavam inclusas composições de Octávio Dutra, algumas das quais incluíam versos do próprio Arnaldo Dutra. Em 1929 também há registros de sua participação na Sociedade Carnavalesca Zona U.
Morte Arnaldo Dutra morreu no dia 20 de maio de 1929, aos 40 anos, decorrente de um edema agudo no pulmão, momento em que exercia o cargo de redator-chefe no jornal O Exemplo. Seu obituário foi publicado pelo veículo, assim como pelo jornal A Federação.
Categoria:Imprensa negra no Rio Grande do Sul