Helena Vitória dos Santos Machado (Porto Alegre, 1943 – 2024) foi uma ativista, intelectual, arquiteta e militante negra brasileira. Foi uma das principais lideranças e coordenadoras do Grupo Palmares de 1971 a 1978, sendo a proponente do Manifesto do Grupo Palmares (1972), obra essencial para o movimento negro contemporâneo no Brasil.
Era filha de uma professora particular e de um operário gráfico que atuava no movimento sindical e mantinha vínculo com o Partido Comunista. Formada em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Helena passou a integrar o Grupo Palmares após a primeira evocação ao 20 de Novembro, que foi realizada no Clube Marcílio Dias. Teve a militância mais longa no Palmares depois de Oliveira Silveira.
Grupo Palmares "A formação original do Grupo Palmares foi indiscutivelmente masculina. Porém, logo que as atividades se abriram a outras pessoas interessadas, a presença de mulheres negras se fez efetiva. Em 1972, era preciso esforço para ignorar a participação de Helena Vitória Machado, Anita Abad, Antônia Carolino e Marli Carolino(...)"
O Grupo Palmares surgiu em 1971 na cidade de Porto Alegre, durante a ditadura militar, reunindo intelectuais, artistas, estudantes e militantes negros interessados em construir uma nova interpretação da história da população negra no Brasil. Entre seus principais integrantes destacavam-se Oliveira Silveira, Antonio Carlos Côrtes, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes e, posteriormente, Helena Vitória Machado, Anita Abad, Vera Daisy Barcellos, Antônia Carolino e outras mulheres negras que tiveram participação decisiva na consolidação do grupo.
A atuação de Helena Vitória Machado foi particularmente relevante pois ampliou os horizontes políticos do coletivo. Em 1972, ela coordenou e elaborou o Manifesto do Grupo Palmares, documento que sintetizava os objetivos do movimento: revisar a narrativa tradicional sobre a escravidão, valorizar a história das resistências negras e questionar a centralidade do 13 de Maio como marco único da liberdade dos afro-brasileiros. Para o grupo, o 20 de Novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, representava de forma mais significativa a luta histórica da população negra por autonomia, cidadania e reconhecimento.
Com a incorporação do 20 de Novembro pelo Movimento Negro Unificado, em 1978, Helena Vitória Machado e Oliveira Silveira estiveram entre os primeiros militantes gaúchos a aderirem ao novo movimento, contribuindo para a difusão nacional da proposta criada em Porto Alegre. Sua atuação evidencia que a construção da Consciência Negra no Brasil foi resultado de um intenso trabalho intelectual, político e cultural realizado coletivamente por homens e mulheres negras comprometidos com a reescrita da história brasileira a partir das experiências de resistência da população afrodescendente.
Fez parte do grupo Palmares, uma associação político-cultural entre os anos de 1971 a 1978, como coordenadora do grupo. A grande contribuição da militante no grupo palmares, advém de reflexões acerca da intenção e mensagem a ser transmitida pelo movimento, enquanto a parcela masculina do grupo afirmava sua imagem exclusivamente cultural e acadêmica. As mulheres e, em especial, Helena Vitória Machado, reivindicava a ação política do grupo expressando as demandas da população negra e escancarando as diferenças sociais existentes.
Além de exercer funções de coordenação, Helena Vitória Machado participou do processo de redefinição dos objetivos do Grupo Palmares. Pesquisas recentes demonstram que sua atuação contribuiu para ampliar o caráter político da organização, defendendo que as atividades culturais fossem acompanhadas de intervenções voltadas ao enfrentamento do racismo e à transformação das condições sociais da população negra. Essa posição aproximou o grupo dos debates sobre revisão da história do Brasil, da crítica ao mito da democracia racial e da necessidade de construção de uma identidade negra afirmativa, articulando influências da Negritude, das independências africanas e das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Vida profissional “Os documentos nos mostram que desde o início de sua institucionalização o grupo teve uma coordenação feminina, Helena Vitoria Machado, que aparece lendo um Manifesto na reportagem da Zero Hora de 1972. A reportagem da Zero Hora menciona seu nome como coordenadora do grupo junto com Oliveira, um ano depois da institucionalização do grupo. E mais tarde em 1975 um documento da Receita Federal mostra sua assinatura como coordenadora do grupo, isto me induz a pensar que sua participação na coordenação do grupo foi por um período de quatro anos.”
Após o grupo Palmares, Helena Vitória participa de forma intensa da Imprensa Negra colaborando na redação do jornal Tição.
A trajetória de Helena Vitória Machado não se encerrou com a dissolução do Grupo Palmares. Ex-integrantes da organização participaram da criação da revista Tição, da articulação do Movimento Negro Unificado no Rio Grande do Sul e de novas iniciativas voltadas à valorização da cultura e da história da população negra. Em depoimento concedido à pesquisadora Elenir Gularte Marques, Helena destaca que o Tição constituiu um espaço de organização política e intelectual do movimento negro gaúcho, reunindo militantes que passaram a discutir, de forma mais sistemática, temas como mercado de trabalho, educação, representação da mulher negra e combate ao racismo.
A atuação de Helena também se estendeu a outras organizações surgidas nas décadas seguintes. Conforme levantamento de Elenir Gularte Marques, sua militância passou pelo Grupo Palmares, pela revista Tição, pelo Grupo de Trabalho Palmares do Movimento Negro Unificado, pelo Partido dos Trabalhadores, pelo grupo cultural Kuenda e pelo Coisapreta, evidenciando uma continuidade de sua atuação política e cultural muito além dos anos iniciais do movimento negro gaúcho.
Documentos e entrevistas indicam que Helena Vitória Machado permaneceu como uma das principais referências da memória do Grupo Palmares. Décadas após sua fundação, participou de entrevistas, encontros comemorativos e debates sobre a história do movimento negro, contribuindo para registrar a trajetória do grupo e reafirmar a importância do 20 de Novembro como marco da luta antirracista no Brasil. Sua atuação permitiu preservar parte significativa da memória institucional do Palmares e das mulheres que participaram de sua construção.
Categoria:Imprensa negra no Rio Grande do Sul