miniaturadaimagem|Fachada principal do "Palácio Maçônico Professor Dias da Rocha" sede da Grande Loja Maçônica do Ceará, primeira e maior potência no estado. A maçonaria chegou ao Ceará por meio de personagens ilustres da história. O governador Sampaio foi ativo na luta contra os revolucionários maçons da Revolução Pernambucana de 1817 que alcançaram a província. Alguns destes, notadamente os ligados a família Alencar, foram perseguidos e, em 1824, durante a Confederação do Equador foram presos e executados, como Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina e Padre Mororó.
Consta que José Martiniano de Alencar manteve reuniões da maçonaria em sua residência durante seus governos, mas não foi formalizada a criação de loja maçônica nesse período. A primeira loja maçônica foi a Luz do Aracati, surgida em 1834, em Aracati, do Rito Escocês, subordinada ao Grande Oriente Lusitano. A loja Fraternidade Cearense, criada em 1859, é a mais antiga ainda em funcionamento no estado. Atualmente existem várias organizações de Obediências Maçônicas no estado, destacando-se a Grande Loja Maçônica do Ceará, fundada em 1928, sendo a primeira do gênero no estado, o Grande Oriente Estadual do Ceará, fundado em 1937, e o Grande Oriente do Ceará, fundado em 1973.
Primeiras Lojas e a Busca por Regularidade miniaturadaimagem|Recorte do jornal "O Cearense" de 1880, edição 151 - Loja Fraternidade Cearense. Antes da consolidação de oficinas estáveis, as primeiras manifestações organizadas ocorreram na década de 1830. Além da pioneira Luz do Aracati em 1834, fundou-se em Fortaleza a oficina União e Beneficência, idealizada por José Martiniano de Alencar e Diogo Antônio Feijó quando Alencar assumiu o governo provincial.
No entanto, a estabilidade e o reconhecimento formal só se consolidaram décadas depois com a fundação da Loja Maçônica Fraternidade Cearense: Fundação: Organizada formalmente em 1 de dezembro de 1859.: Regularidade: Foi o primeiro corpo maçônico regular do Ceará, registrado sob o número 136 no Grande Oriente do Brasil (GOB). Rito: Praticante do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA). Membros Notórios: Reuniu intelectuais e figuras públicas do estado, incluindo Araripe Júnior, João Brígido, João Cordeiro, José Liberato Barroso, Justiniano de Serpa e Dario Telles de Menezes (fundador da Ypióca).
Atuação Social e Impacto Histórico Os maçons cearenses do século XIX tiveram papel proeminente na transformação sociopolítica da província, destacando-se em frentes de mobilização humanitária e civil:
O Movimento Abolicionista: A maçonaria cearense organizou comissões e eventos beneficentes voltados para a arrecadação de fundos específicos destinados à compra de cartas de alforria, impulsionando o pioneirismo do Ceará na libertação dos escravizados e apoiando a Sociedade Libertadora Cearense. Combate às Calamidades da Grande Seca (1877): Diante da crise humanitária provocada pela Grande Seca de 1877, membros da Fraternidade Cearense mobilizaram redes de solidariedade nacionais, arrecadando doações financeiras e insumos junto a outras oficinas brasileiras para amparar os flagelados radicados em Fortaleza. A Imprensa Libertária: Os maçons locais fundaram o jornal Fraternidade (que circulou entre 1873 e 1875), defendendo ativamente as bandeiras do Liberalismo e servindo de trincheira ideológica na província.
A Questão Religiosa no cenário cearense Durante a chamada Questão Religiosa na década de 1870, o embate entre a Igreja Católica e a Maçonaria ganhou contornos dramáticos no Ceará. Com a prisão dos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa no país, os maçons cearenses da Loja Fraternidade Cearense utilizaram o jornal Fraternidade como principal veículo de contraponto ao clero ultramontano local. O periódico atacava duramente as encíclicas papais antimaçônicas e defendia firmemente a laicidade do Estado e a separação entre os poderes secular e clerical, dividindo a opinião pública e as elites políticas cearenses da época.
Antimaçonaria e a Oposição de Gustavo Barroso No século XX, as instituições maçônicas no Ceará passaram a enfrentar uma oposição doutrinária sistemática e agressiva. O principalexpoente desse movimento antimaçônico foi o escritor, político e advogado cearense Gustavo Barroso (1888–1959), nascido em Fortaleza e uma das figuras proeminentes da Ação Integralista Brasileira (AIB).
Barroso tornou-se um ferrenho opositor dos maçons, publicando diversos livros e artigos de forte teor conspiratório nacionalista. Em suas teses, ele associava diretamente a Maçonaria ao Capitalismo, ao Comunismo e ao chamado "complô judaico-maçônico", acusando a ordem de atuar secretamente contra a soberania nacional e os valores cristãos tradicionais do povo cearense e brasileiro.
Desenvolvimento das Obediências Maçônicas miniaturadaimagem|Loja Igualdade nº 405, sede do Grande Oriente do Brasil – Ceará (GOB-CE) Com o crescimento das oficinas pelo interior e pela capital, o cenário institucional cearense fragmentou-se em diferentes potências autônomas:
Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará (GLMECE) Fundada em 19 de março de 1928, nasceu a partir da fusão de três lojas fundamentais: Deus e Camocim Nº 1, Porangaba Nº 2 e Fortaleza Nº 3. Teve Álvaro Weyne como seu primeiro Grão-Mestre. Obteve reconhecimento internacional de regularidade e expandiu-se expressivamente, contando com mais de 150 lojas sob sua jurisdição e abrigando nomes de relevo como o cientista Francisco Dias da Rocha e Demócrito Rocha (fundador do jornal O Povo). É filiada à Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB).
Grande Oriente do Brasil – Ceará (GOB-CE) Fundado em 24 de agosto de 1937, federou-se diretamente ao Grande Oriente do Brasil. Embora sua estrutura estadual seja posterior à Grande Loja, o GOB-CE foi estruturado pelas oficinas mais tradicionais do território, encabeçadas pela própria Loja Fraternidade Cearense e pela Loja Igualdade No. 405 (fundada em 1882). Seu primeiro Grão-Mestre foi José Ramos Torres de Melo.
Grande Oriente do Ceará (GOCE) Surgiu em 2 de junho de 1973 por iniciativa do então Grão-Mestre Osmar Maia Diógenes e de grupos dissidentes do GOB envolvidos nas disputas eleitorais daquele período. Aprovada por unanimidade, a nova potência passou a integrar a Confederação Maçônica do Brasil (COMAB). Ao longo de sua trajetória, passou por reveses institucionais e alterações de nome: Denominou-se Grande Oriente Independente do Ceará em 1978. Em 1988, passou a chamar-se Grande Oriente Confederado do Ceará durante um ensaio de unificação com a GLMECE. Como algumas lojas rejeitaram a união para permanecer na COMAB, promulgaram uma nova constituição em 1990 que restaurou em definitivo o nome original de Grande Oriente do Ceará.
Maçons notáveis miniaturadaimagem|Retrato de Euclides Pinto Martins A história da ordem no estado reúne figuras de proeminência na política, no direito, nas ciências e nas forças armadas:
Álvaro Weyne (1881–1963): Engenheiro, prefeito de Fortaleza e primeiro Grão-Mestre da GLMECE. Antônio Bezerra de Meneses (1841–1921): Historiador, naturalista e um dos pilares intelectuais da campanha abolicionista cearense. Casimiro Ribeiro Brasil Montenegro (1876–1953): Um dos fundadores e primeiro Venerável Mestre da histórica Loja Porangaba nº 2 em 1905. Demócrito Rocha (1888–1943): Cirurgião-dentista, intelectual e fundador do jornal O Povo. Elmano Férrer (Elmano Férrer de Almeida): Nascido em Lavras da Mangabeira em 1942. Prefeito de Teresina, senador da República pelo Piauí e egresso da Universidade Federal do Ceará. Euclides Pinto Martins (1892–1924): Piloto e aviador cearense, pioneiro da aviação mundial na rota Nova Iorque–Rio de Janeiro. Francisco Barbosa de Paula Pessoa (1816–1875): Magistrado e senador do Império do Brasil, vinculado aos círculos liberais da região norte do estado. Francisco Dias da Rocha (1869–1960): Cientista, naturalista e patrono da sede da Grande Loja Maçônica do Ceará. João Brígido (1829–1921): Jornalista, historiador de renome e membro de Grau 33 da Loja Fraternidade Cearense. José Martiniano Pereira de Alencar (1794–1860): Sacerdote, revolucionário e presidente da Província do Ceará. Luiz Moraes Correia (1862–1922): Engenheiro e industrial, responsável por grandes obras de infraestrutura e ferrovias na zona norte do estado. Padre Mororó (Gonzaga do Carmo) (1789–1825): Jornalista e líder intelectual da Confederação do Equador. Valmir Campelo (Antônio Valmir Campelo Bezerra): Nascido em Crateús em 1944. Foi deputado federal constituinte, senador da República e ministro-presidente do Tribunal de Contas da União.
Ver também História do Ceará Maçonaria no Brasil
Referências
Categoria:Organizações do Ceará