thumb|Vista do Seminário Internacional de Écône As consagrações de Écône de 2026 foram consagrações episcopais católicas ocorridas em Écône, na Suíça, em 1.º de julho de 2026, realizadas principalmente pelo bispo Dom Alfonso de Galarreta e assistidas por Dom Bernard Fellay como co-consagrador. Os bispos consagrados são quatro sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX): Michael Goldade, Marc Hanappier, Michel Poinsinet de Sivry e Pascal Schreiber.
As consagrações, que foram realizadas contra as ordens explícitas do Papa Leão XIV, representam um momento significativo na relação conturbada da FSSPX com a liderança central da Igreja Católica, ecoando deliberadamente as Consagrações de Écône de 1988, realizadas pelo fundador da FSSPX, Dom Marcel Lefebvre, em número e local, ocorrendo no mesmo prado 38 anos após a primeira.
A Santa Sé declarou dias antes que as consagrações constituiam um "ato cismático" sob o direito canônico, resultando na excomunhão automática dos bispos consagrantes e consagrados. As consagrações representaram um momento significativo na relação conturbada da FSSPX com a liderança central da Igreja e um dos primeiros grandes testes do pontificado de Leão XIV.
Antecedentes A FSSPX foi fundada em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre em oposição às reformas litúrgicas e doutrinais que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Em 30 de junho de 1988, Lefebvre, citando um "estado de necessidade", consagrou quatro sacerdotes; Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, como bispos em Écône sem mandato papal, assistidos por Dom Antônio de Castro Mayer como co-consagrador. Duas horas após a cerimônia, a Santa Sé declarou que Lefebvre e os quatro bispos haviam incorrido em excomunhão automática, e o Papa João Paulo II posteriormente emitiu o motu proprio "Ecclesia Dei Adflicta", descrevendo formalmente o ato como cismático. Essas excomunhões foram suspensas pelo Papa Bento XVI em janeiro de 2009, embora a FSSPX não tenha obtido reconhecimento canônico por meio disso e tenha continuado a operar em um status irregular.
Dos quatro bispos consagrados em 1988, Tissier de Mallerais morreu em outubro de 2024 após uma queda no seminário de Écône, e Williamson, que havia sido expulso da FSSPX em 2012, morreu em janeiro de 2025. Isso deixou Fellay e de Galarreta como os únicos bispos da FSSPX, ambos se aproximando dos setenta anos de idade e responsáveis pela ordenação de sacerdotes e pela administração da confirmação em todos os apostolados da sociedade no mundo todo. Em 2026, a FSSPX relatou ter 751 sacerdotes, 264 seminaristas, 145 irmãos religiosos, 88 oblatos e 250 irmãs religiosas de 50 nacionalidades.
Anúncio das sagrações Em 2 de fevereiro de 2026, por ocasião da Festa da Purificação, o superior-geral da FSSPX, Padre Davide Pagliarani, anunciou no seminário da Fraternidade em Flavigny-sur-Ozerain que novas consagrações episcopais ocorreriam em 1º de julho, após cartas enviadas ao Vaticano em agosto e novembro de 2025 não terem sido respondidas. Pagliarani afirmou que o "estado objetivo de grave necessidade em que as almas se encontram" exigia a decisão. Em 5 de fevereiro, o Dicastério para a Doutrina da Fé anunciou que seu prefeito, Cardeal Víctor Manuel Fernández, havia convidado Pagliarani a Roma; os dois se encontraram em 12 de fevereiro de 2026, com Fernández oferecendo-se para retomar o diálogo doutrinal que a FSSPX mantinha com o Vaticano entre 2009 e 2017, sob a condição de que a Fraternidade suspendesse as consagrações planejadas. Em carta datada de 18 de fevereiro de 2026, o conselho-geral da FSSPX acolheu favoravelmente a retomada das discussões, mas rejeitou o adiamento, citando divergências não resolvidas sobre o Vaticano II.
Avisos da Santa Sé Em 13 de maio de 2026, o Cardeal Fernández emitiu uma declaração em nome do Dicastério para a Doutrina da Fé, alertando que as consagrações planejadas constituiriam "um ato cismático" e que "a adesão formal ao cisma constitui uma grave ofensa contra Deus e acarreta a excomunhão estabelecida pela lei da Igreja", citando a Ecclesia Dei Adflicta. No dia seguinte, a FSSPX publicou uma "Declaração de Fé Católica", descrevendo-a como o "mínimo necessário para estar em comunhão com a Igreja", reiterando suas críticas ao ensinamento pós-conciliar.
Em 16 de junho de 2026, falando a jornalistas em Castel Gandolfo, o Papa Leão XIV disse que, embora um apelo final à sociedade estivesse sendo preparado, a decisão de prosseguir continuava sendo "uma escolha deles", acrescentando: "Se eles fizerem essa escolha, lamento, mas devemos seguir em frente". Em 24 de junho, a FSSPX emitiu uma carta aberta ao Sumo-Pontífice e ao Colégio Cardinalício reafirmando sua posição e confirmando que prosseguiria com as consagrações.
Último apelo papal Mais tarde, em 30 de junho de 2026, na véspera da cerimônia agendada, o Pontífice publicou uma carta a Pagliarani fazendo um apelo final para que as consagrações fossem canceladas, descrevendo-as como um "pecado de extrema gravidade" e escrevendo: "Eu imploro e peço-te de todo o coração: por favor, volta atrás!". O papa advertiu que as consagrações privariam os fiéis da FSSPX da "receção lícita e, em alguns casos, até válida dos sacramentos". Pagliarani respondeu na mesma tarde, agradecendo ao papa pela sua preocupação, mas mantendo que as consagrações não constituiriam um cisma, escrevendo: "Longe de nós nos separarmos da Igreja Romana. Desejamos, pelo contrário, servi-la por meios extraordinários".
Bispos consagrados Em 26 de maio de 2026, a sociedade anunciou os nomes dos quatro bispos: Pascal Schreiber de Aargau, na Suíça, que serve como Reitor do Seminário Herz Jesu; Michael Goldade de Dakota do Norte, Estados Unidos, que serve como Reitor do Seminário São Tomás de Aquino; Michel Poinsinet de Sivry, da França, que é o Superior do Distrito do Benelux; e Marc Hanappier, da França, professor do Seminário São Tomás de Aquino.
Consagração A cerimônia de consagração foi realizada em 1.º de julho de 2026 no prado de Écône, onde ocorreram as consagrações de 1988, atraindo cerca de 15.000 fiéis e 1.300 sacerdotes e religiosos de todo o mundo; o registro foi obrigatório para aqueles que participaram de eventos no seminário entre 29 de junho e 2 de julho de 2026. A sociedade transmitiu a cerimônia ao vivo com comentários em áudio em seis idiomas no seu site oficial e pelo YouTube. O rito seguiu o Pontifical Romano tradicional, com os bispos eleitos, já sacerdotes, concelebrando a Missa desde o início e a própria consagração precedida pela Ladainha dos Santos após o Gradual. Uma procissão solene até um altar erguido sob uma tenda abriu a cerimônia, com sacerdotes e religiosas da sociedade sentados nas primeiras filas e muitas famílias presentes, algumas acompanhando o rito em grandes telões.
Durante a liturgia de ordenação que exige um "Mandato Papal", Pagliarani invocou o mesmo argumento do "estado de necessidade" que Lefebvre havia usado em 1988 e comentou sobre a canonização de Lefebvre; ele também disse que as autoridades da Igreja desde o Concílio Vaticano II estavam "imbuídas de um espírito contrário à fé" e haviam "agido contra a sagrada tradição". Os quatro bispos recém-consagrados foram designados auxiliares da sociedade, em vez de ordinários de qualquer diocese. Os participantes puderam comprar produtos comemorativos, incluindo um conjunto de vinhos em caixa rotulado como "Cuvée des Sacres".
Cisma e Declaração de Excomunhão Um dia após as consagrações, o Dicastério para a Doutrina da Fé declarou a excomunhão automática dos bispos consagrados e consagrantes. Advertiu também os fiéis, afirmando que sacerdotes e leigos que compartilham da doutrina da Fraternidade, também será excomungado, mesmo que não de maneira automática. O Discatério ainda afirmou que os sacramentos de confissão e casamento administrados pelos membros da FSSPX, são considerados invalidos.
A Santa Sé alegou a invalidade do argumento de estado de necessidade, bem como apontou que o Código de Direito Canônico determina a excomunhão latae sententiae de bispos que consagrem outros bispos sem mandato papal, bem como daqueles que são consagrados.
Recepção e Consequências O evento foi comparado com o cisma de 1988, quando a própria FSSPX havia sido excomungada. Inclusive, o ato de excomunhão dos bispos foi feito pelo mesmo argumento jurídico daquela ocasião. A resposta do Vaticano também foi considerada mais severa do que o esperado. Apesar da excomunhão dos bispos ser previsível, a dos leigos, mesmo que não automática, foi considerada um surpresa.
No dia 3 de julho de 2026, Pagliarani mandou uma carta para o Papa Leão 14, defendendo as consagrações. Ele alegou que a FSSPX defende a Igreja, e criticou a resposta da Santa Sé, considerando a excomunhão injusta e inválida. Ainda justificou as ações da Fraternidade dizendo que foi uma medida extraordinária para combater a confusão moral que aflige Igreja. Pagliarini disse que "pediram por pão, mas receberam pedras, que ao invés de peixe, receberam cobras". Apesar de contrariar a ordem papal de não consagrar novos bispos e negar a validade da excomunhão, negou que a Fraternidade esteja em rebelião direta.
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