Fernanda Oliveira da Silva (Pelotas, 1984) é uma historiadora e militante do movimento negro brasileira que atua como professora do departamento de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi a primeira mulher negra a ocupar o posto de patrona da Feira do Livro de Pelotas e suas contribuições para as comunidades negras gaúchas foram reconhecidas pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com o Troféu Deputado Carlos Santos.
Relação com a história
Vida escolar e ambiente famíliar O interesse de Fernanda por história surgiu nos anos iniciais da educação básica, quando percebeu que o conteúdo aprendido na escola não era o mesmo que acessava em seu ambiente familiar - totalmente composto por pessoas negras cujas experiências e perspectivas não eram ensinadas nas salas de aula. No sexto ano, apaixonada pelos livros didáticos sobre a antiguidade, mas ainda sem saber que a história do Egito era africana e negra, decidiu que seria professora de história.
Anos mais tarde, cursando Magistério no Colégio Municipal Pelotense, foi inspirada pela postura reflexiva de um de seus professores a estudar uma história mais voltada para o conhecimento acessado através de sua família, principalmente seu avô - um homem negro nascido no primeiro quarto de século do Brasil pós-abolição.
Atuação acadêmica Seus principais campos de pesquisa são a Teoria da História, a História da América e a História do Brasil, com especialidade em experiências negras no Sul do Brasil. É doutora em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em história pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e licenciada em história pela Universidade Federal de Pelotas.
Vida política Em entrevista ao Sul 21, Fernanda afirmou que sua militância antirracista iniciou aos seis anos de idade, quando sofreu racismo pela primeira vez dentro da escola em que estudava. Já a sua atuação no movimento negro organizado teve início em 2004, quando ela estudava licenciatura em História na Universidade Federal de Pelotas e se deparou com a contrariedade de colegas brancos à implementação do sistema de cotas raciais no Brasil.
Motivada pela necessidade de atuar coletivamente para responder aos argumentos de pessoas brancas que viam as cotas como uma ameaça às suas vagas nas universidades, engajou estudantes negros da UFPel na criação de um grupo de estudos sobre temas étnicos e raciais. À medida em que o grupo foi se aproximando do movimento negro pelotense, Fernanda passou a participar de movimentos como o de mulheres negras.
Coletivo Atinúké Em agosto de 2016, fundou do Coletivo Atinúké ao lado de outras 29 mulheres que compartilhavam o objetivo de fortalecer a luta antirracista no Rio Grande do Sul. Surgido como um grupo de estudos e posteriormente transformado em coletivo, o Atinúké se dedica a atividades como a leitura e discussão do pensamento de mulheres negras, a participação em eventos culturais e a doação de cestas básicas para famílias socialmente vulneráveis. Em iorubá, Atinúké significa "aquela que merece carinho desde a gestação".
Atuação cultural
Feira do Livro de Pelotas em 2019 Foi patrona da quadragésima sétima edição da Feira do Livro de Pelotas, em 2019, tornando-se a primeira mulher negra a patronar o evento. A edição patronada por ela teve o tema "saberes e fazeres: escrevendo a nossa história" e o objetivo de destacar a centralidade da literatura no desenvolvimento de identidade e de diversidade.
Coluna Presença Histórica Desde 2022, assina uma coluna semanal no UOL intitulada Presença Histórica. Também assinam a coluna Ana Flávia Magalhães, Carlos da Silva Jr., Mariléa de Almeida e Patrícia Alves-Melo, todos membros da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros.
Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 Foi uma das autoras do enredo da Portela para o carnaval do Rio de Janeiro de 2026, intitulado O mistério do Príncipe do Bará - A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, em homenagem à população negra do Rio Grande do Sul.O enredo foi dedicado à cultura afro-gaúcha, buscando inspiração na história de Custódio Joaquim de Almeida, no batuque e na lenda do Negrinho do Pastoreio. Seu principal objetivo foi dar visibilidade à presença negra no Sul do Brasil, questionando o padrão de representação da cultura afro-brasileira centralizada no Rio de Janeiro e na Bahia.miniaturadaimagem|270x270px|Alegoria da Portela no carnaval do Rio de Janeiro em 2026|esquerdaEm entrevista à GZH, Fernanda afirmou que o enredo buscou expressar a complexidade do que é ser afro-gaúcho, fazendo o esforço de devolver às pessoas negras no Rio Grande do Sul seu direito à representação e à identidade, que o gauchismo insiste em apagar. De acordo com ela, os mesmos aspectos racistas que invisibilizam a presença negra no estado levaram o governador Eduardo Leite a desistir de investir financeiramente no desenvolvimento do enredo após sofrer pressão política.
Seu trabalho na escrita do enredo foi descrito como uma negociação entre aspectos próprios da História enquanto ciência, com base em fontes documentais, e a arte carnavalesca. Como historiadora, uma de suas principais preocupações foi manter o compromisso com elementos considerados inegociáveis para uma narrativa coerente, como a expressão das singularidades do batuque no Rio Grande do Sul em relação Candomblé - uma das principais referências compartilhadas pelos integrantes da Portela.
Troféu Deputado Carlos Santos Em 2025, foi agraciada pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul com o Troféu Deputado Carlos Santos, que leva o nome em homenagem a Carlos da Silva Santos e é entregue a pessoas com atuação destacada na valorização da comunidade negra sul-riograndense. Categoria:Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Categoria:Movimento negro no Brasil